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Na primeira temporada de American Horror Story, intitulada Murder House, uma figura com roupas de borracha chamava a atenção como uma manifestação sombria de traumas, uma energia incômoda que antecipava o descontrole e a perdição. Era o pontapé da extravagância, com um toque brega, que acompanharia todas as temporadas, com vestimentas diversas, no prenúncio de um mal absoluto e crescente. Lembra do Anjo da Morte de Asylum, interpretado por Frances Conroy? Do Papa Legba, de Coven e Apocalypse? Em American Horror Story: NYC, essa figura, chamada de Big Daddy, é puramente simbólica, uma alegoria da AIDS, principal ameaça das comunidades gays de Nova York a partir do início dos anos 80. Mas não é a única.

O jornalista Gino Barelli (Joe Mantello), de um conceituado jornal nova-iorquino, está preocupado com o aumento de assassinatos de homens gays, solicitando a ajuda de seu namorado, o detetive Patrick Read (Russell Tovey), mas este teme que sua investigação o exponha ao departamento de polícia, em uma época em que crimes contra homossexuais nem sequer eram investigados. Ele fica sabendo por Henry (Denis O’Hare, veterano de outras temporadas), um colecionador de arte surrealista, sobre um cliente suspeito, fã de Mai Tais. Essa busca pelo assassino também envolverá Adam Carpenter (Charlie Carver), cujo parceiro desapareceu em uma festa no Central Park, na primeira aparição de um homem forte, com uma máscara de couro, o tal Big Daddy, interpretado pelo fisiculturista Matthew William Bishop.

Adam descobre uma foto do assassino e busca informações com o fotógrafo Theo Graves (Isaac Powell), que trabalha e se relaciona com o curador de arte erótica, Sam Jones (Zachary Quinto, outro veterano). Não demora para que o “Assassino do Mai Tai” (Jeff Hiller), como é apelidado pela imprensa, continue fazendo vítimas, quase matando Gino, que escapa por ter uma tatuagem de veterano. Outros personagens se destacam nessa caça ao serial killer como Kathy Pizazz (Patti LuPone), dona de uma sauna, Barbara Read (Leslie Grossman), ex-esposa de Patrick, e a Dra. Hannah Wells (Billie Lourd), que descobre numa pesquisa em Fire Island, as primeiras manifestações de um estranho vírus, oriundo de cervos — outra simbologia apropriada da temporada.

Quem conhece a estrutura narrativa de American Horror Story, na composição de Ryan Murphy e Brad Falchuk, sabe que o enredo vai além disso. Flashbacks com explicações, pessoas mortas trazendo recados e ousadia de encontros carnais e mutilação estão ali para preencher a trama. Se o habituè da série são os personagens excêntricos e as esquisitices, NYC também cumpre seu papel com subtramas envolvendo ciúmes, vingança e até um cadáver na praia para conectar os núcleos. Contudo, o ápice da representação do produto acontece nas intenções do serial killer, agindo como Dr. Frankenstein, ao unir partes belas de gays mortos para produzir o símbolo da liberdade. Além de apresentá-lo crucificado, uma sentinela da representatividade, posteriormente, de maneira metafórica, será possível vê-lo numa ação vingativa.

Se por um lado os personagens carismáticos mantêm a atenção para a proposta, por outro NYC carece de um bom ritmo, reservando para os episódios finais uma referência a “A Christmas Carol“, obra clássica de Charles Dickens, que aborda redenção e um olhar para si. Reencontrando fantasmas particulares, alguns dos personagens têm a oportunidade de entender seu passado, seus traumas, para compreender o que está acontecendo no presente, culminando em uma espécie de videoclipe dos anos 80, onde pessoas mascaradas caem em túmulos ou aparecem usando chifres de cervo. Destaca-se Gino, o principal sobrevivente da série, que escapou do assassino, de ser mantido numa gaveta em um necrotério, de ser mutilado, mas não resistiu à doença.

Com temas necessários e trazendo contexto da época, como o apagão que atingiu Nova York em 1981, American Horror Story apresenta sua temporada menos divertida com um conteúdo agressivo e melancólico. Recebeu boas críticas, mas foi a primeira a não concorrer a nenhum prêmio e ter uma audiência razoavelmente baixa. Para os acostumados com criaturas sobrenaturais e aberrações, NYC é a mais necessária dentre todas, tocando em um passado cruel e assustador, permitindo boas reflexões.

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