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Embora as séries coreanas tenham ganhado notoriedade pelos romances açucarados, que acabaram se tornando quase sinônimos para o termo “doramas”, suas temáticas são mais amplas e complexas. Em meio às histórias de amor, emergem séries que problematizam temas sobrenaturais ou de investigação e, da mesma forma, muitas que tratam de discutir a saúde mental. Uma das séries que melhor problematiza o tema, ainda que seja citada com mais frequência por sua base no sobrenatural, é Amanhã, centrada no debate sobre suicídio, com uma temporada, lançada em 2022.

Na série, Choi Joon-woong, o protagonista, fica em coma depois de salvar uma pessoa de uma tentativa de suicídio. Joon-woong é um jovem desempregado e em busca de alternativas para a vida, o que não consegue em meio à concorrência e ao nepotismo. Em seu estado de coma, acaba sendo contratado para atuar temporariamente em uma equipe especial de ceifadores.

Os ceifadores são figuras sobrenaturais cuja principal função passa por levar as almas ao local onde viverão depois da morte, como o Paraíso ou o Inferno ou qualquer outro nome que se dê a esses lugares. O protagonista se junta à Equipe de Prevenção, um setor recém-criado que tem como tarefa evitar que as pessoas cometam suicídio. Essa demanda, segundo se explica na série, se dá pelo fato de que o Inferno estaria lotado, sendo o local para onde vão as pessoas que tiram a própria vida. Fazem parte da equipe apenas dois funcionários, Goo Ryeon, a chefe do setor, e Lim Ryung-goo, seu subordinado.

Na série são mostradas histórias narradas sobre os diversos personagens. Mesmo que se procure dar um tom mais leve e cômico às histórias contadas, trata-se de dramas pesados, em que as pessoas se veem diante do limite de suas vidas. Mostra-se, de forma cuidadosa e até mesmo carinhosa, os detalhes de vidas que passaram por longos sofrimentos ou por rupturas drásticas e que chegam a um ponto em que entendem que essa vida não merece ser vivida.

Logo de início o primeiro caso passa por uma jovem que sofria bullying na escola, sendo não apenas humilhada, mas também agredida fisicamente. Com isso desenvolveu uma autoestima baixa e um medo social que muitas vezes a faz travar. Um dia, precisa trabalhar com a principal pessoa que fazia bullying. Curiosamente, essa ex-colega de escola está lançando um livro sobre bullying, denunciando e se solidarizando com as vítimas. Contudo, essa solidariedade mostra-se uma fachada comercial, não perdendo a chance de humilhar novamente a ex-colega no fatídico reencontro.

Outra história, uma das mais bonitas da série, mostra uma jovem que havia morrido num acidente de carro e fugido da escolta de almas. Ela procura a Equipe de Prevenção para que essa ajude seu namorado, que havia sobrevivido ao acidente e se culpava pela morte da namorada. Mostra-se uma bela história de amor em que duas vidas sofridas, levadas a extremos, se apoiaram durante os anos em que estiveram juntas e agora, diante da morte de uma delas, precisam encontrar cada um o seu caminho.

Outra história bastante emocionante passa por uma mulher que havia sido sequestrada, durante ocupação japonesa da Coreia. Os horrores do conflito são mostrados a partir de um grupo de mulheres obrigadas a servirem como “mulheres de conforto” aos soldados japoneses. O centro da história é uma garota que havia ajudado as amigas a escaparem dessa situação de escravidão sexual imposta. Décadas depois, em idade avançada, outras duas mulheres, uma amiga de infância e outra que havia sofrido os horrores do sequestro, reencontram a agora ceifadora.

Contudo, talvez seja a história dos próprios ceifadores, enquanto vivos, que mais marca a série. O gatilho para que se entre na história dos ceifadores passa por um dos casos mais difíceis da equipe de prevenção, envolvendo dois irmãos gêmeos. Uma das irmãs é brutalmente agredida e estuprada e passa a ter que conviver com os sentimentos advindos desse trauma, como medo e culpa, entre outros. De sua família, encontra uma postura ao mesmo tempo de sofrimento e de crítica, inclusive de seu irmão gêmeo, de quem era bastante próxima. Os dois irmãos, motivados pela culpa, se veem no limite de buscarem suicídio.

Esse caso acaba trazendo à tona os sentimentos de um dos ceifadores, que teve a mãe estuprada e morta em sua última vida, cerca de um século e meio antes. Mostra-se no passado o pequeno Lim Ryung-goo indo da felicidade de viver com a mão ao sofrimento de perdê-la, se entregando ao vício e a à violência. No presente, precisa ajudar a salvar a reencarnação da mãe, em profundo sofrimento depois da perda da filha que esperava.

Contudo, é a chefe da Equipe de Prevenção, Goo Ryeon, que acaba assumindo o destaque na reta final da temporada, também em uma história de guerra, ao que parece a invasão da recém-criada dinastia Qing sobre a dinastia Joseon, em 1636. Em vida, mesmo ajudado sua pequena vila, foi sequestrada e levada pelos invasores. Quando retornou, passou a ser olhada com suspeita por ter sido feita prisioneira (suspeitava-se que ela teria sido algo como uma “mulher de conforto”, ainda que em um contexto anterior à guerra sino-coreana). O dramático processo que leva a seu suicídio mostra a história de uma pessoa que perde suas esperanças e alegrias, passando a olhar apenas para o abismo que se mostra à sua frente.

Como reflexão, a construção de algo como a Equipe de Prevenção acaba sendo uma ironia com a postura da sociedade em relação ao suicídio. Depois que ocorre, muito se lamenta e se fala na necessidade da prevenção, mas, ao mesmo tempo, as políticas de saúde mental vão sempre sendo enfraquecidas ou mesmo desqualificadas em seus objetivos.

Se ceifadores, que teriam o papel de carregar as almas para o além-mundo, são capazes de ter empatia com pessoas que se encontram no limite de suas vidas, é realmente lamentável que mais e mais pessoas se vejam desamparadas ou que os sintomas que demonstram sejam considerados irrelevantes ou mesmo exageros. O recado deixado pela série é bastante explícito em sua crítica à forma relapsa como a sociedade lida com a saúde mental e com o extremo do sofrimento, o suicídio.

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