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Com enredos originais e temáticas ousadas e intensas, American Horror Story se desenvolveu em produções caprichadas, com muitos personagens, além do grotesco. Guerra entre bruxas, vampirismo, experimentos insanos, aberrações, assassinos em série, assombrações e até conspirações já serviram de fio condutor de tramas violentas e criativas. Contudo, American Horror Story Delicate, a décima segunda temporada da série, foi feita praticamente na contramão dessa estrada perversa, sem ousadia e sem surpresas, e com efeitos especiais bastante artificiais. É a primeira a ser inspirada em um livro, no caso Delicate Condition, de Danielle Valentine, além de também de ser a primeira a não contar com Ryan Murphy e Brad Falchuk como showrunners, sendo substituídos por Halley Feiffer.

Pode-se colocar entre algumas das causas de seu ritmo irregular a greve da SAG-AFTRA, envolvendo os atores, somada a dos roteiristas, iniciada antes. A produção acabou sendo interrompida em 10 de maio de 2023, retornando apenas no final de novembro, quando cinco episódios já haviam sido exibidos. É possível notar diferenças nos episódios finais em relação ao começo da temporada, como se houvesse uma real passagem no tempo. Tudo poderia ser relevado se a proposta viesse com algum sangue novo, mesmo com o retorno de alguns rostos conhecidos da série, porém traz um tema batido de conspiração envolvendo bruxaria e o nascimento de um bebê maldito, citando literalmente o clássico O Bebê de Rosemary, de Roman Polanski, em bastidores curiosos.

As boas novas da temporada estão — pasmem! — na presença de Kim Kardashian no elenco fixo. Não acompanho sua evolução como atriz, mas confesso ter ficado com um pé atrás, como fiquei quando Lady Gaga foi anunciada em Hotel. Contudo, o papel da agente de relações públicas Siobhan Corbyn parece ter sido criado especificamente para ela, e a sua presença incômoda contribui bastante para a paranoia da protagonista, Anna Victoria Alcott (a sempre bem-vinda Emma Roberts). Esta é uma atriz em busca de um sucesso repentino, enquanto aguarda, com o marido Dexter Harding Jr. (Matt Czuchry), a gestação e nascimento de seu primeiro filho.

Sentindo-se perseguida, principalmente pela estranha Mavis Preecher (Julie White), e ainda desconfiada que o marido pudesse a estar traindo com a amiga Talia Thompson (Juliana Canfield), Anna é incomodada por uma estranha espinha no rosto e pelo passado do marido, guardando boas recordações de sua falecida esposa Adeline, uma chef que morreu em um incêndio. Outras situações recorrentes passam a atormentá-la como a impressão que o seu ginecologista, Dr. Andrew Hill (Denis O’Hare, de várias temporadas), parece achar todos as suas condições normais e atesta um aborto espontâneo, depois que Anna é atendida pela misteriosa enfermeira Ivy (Cara Delevingne).

É claro que posteriormente Anna voltará a engravidar, como se nem tivesse perdido o bebê. Em flashbacks, aos poucos o infernauta percebe o óbvio sobre acontecimentos em 42 d.C., em 1555 e em 1987, num ciclo amaldiçoado de partos satânicos, almas oferecidas e danças de bruxas. O melhor delas acontece em 1967, no oitavo episódio, dirigido por Jennifer Lynch, quando Mia Farrow (Gaby Slape), protagonista de O Bebê de Rosemary, e casada com Frank Sinatra (Tom O’Keefe), recebe a visita de Siobhan, numa boa construção da época, contando com participações rápidas de Sharon Tate (Claire DeJean) e de Roman Polanski (Seamus Mulcahy).

Anna começa a guardar um guaxinim morto no porão, deixando seu corpo aberto em um berço, para de vez em quando se alimentar dele; mata a fã Susan (Ashlie Atkinson), ainda que esta insista em reaparecer; estranha sua ascensão em indicações e prêmios como o Globo de Ouro e até o Oscar, depois que aceita a proposta de Siobhan, e descobre que sua rival, Babette Eno (Taylor Richardson), morreu decapitada em um acidente; e desconfia das intenções da babá Nicolette (Michaela Jaé (MJ) Rodriguez), que aparenta ser bem mais velha do que realmente é.

Como outras temporadas de American Horror Story, a estranheza e o desconforto imperam na narrativa, mesmo que tudo pareça uma reciclagem. Anna aos poucos nota que existem duas conspirações em rota de colisão: bruxas que querem o seu filho, seguindo uma tradição de diversas épocas, e aqueles que querem alertá-la do perigo iminente, com marcas de batom no espelho e contatos discretos. Em meio a esse conflito, cria-se uma expectativa em torno do que o final irá reservar, se será pessimista como o clássico de 1968 ou a protagonista conseguirá deter o coven.

É muito pouco pelo apresentado em outras histórias americanas de horror. O bom elenco e atmosfera de incertezas e ameaças não são suficientes para que o produto final seja considerado algo mais do que mediano. Os efeitos digitais são bem ruins, alguns lugares-comuns do subgênero são evidentes, e a ausência de subtramas que depois se conectam, como é de costume na série, deixa a temporada deslocada. Toda a questão da separação dos pais de Dex não passa de uma gordura narrativa, e os flashbacks, embora interessantes, parecem terem sido feitos para completar a metragem de nove episódios de aproximadamente cinquenta minutos.

Delicate é uma das temporadas de menos impacto na franquia. Foi a que teve menos audiência e uma das mais criticadas, não sendo ajudada pelas referências e nem pelo protagonismo de Emma Roberts. Pode interessar como produto isolado, sem relação com as temporadas anteriores ou para os fãs de Kim Kardashian e bebês malditos.

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2 Comentários

  1. American horror Story pra mim acabou com Freak Show. Hotel teve um curto início promissor, mas desandou!!

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      Concordo que depois ficou cansativo e se perdeu numa bagunça de situações. Agora é nota mediana, sem grandes destaques.

      A temporada 13 parece que vai ser um reencontro familiar. Vamos ver.

      Abs

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