4.5
(2)

Carro a Sangue (2007)

Carro a Sangue
Original:Blood Car
Ano:2007•País:EUA
Direção:Alex Orr
Roteiro:Hugh Braselton, Alex Orr, Adam Pinney
Produção:Chris Antignane, Alex Orr, Adam Pinney
Elenco:Mike Brune, Anna Chlumsky, Katie Rowlett, Matt Hutchinson, Marla Malcolm, Mr. Malt, Matthew Stanton, Bill Szymanski, Vince Canlas

Num futuro não tão distante, o preço da gasolina atinge os incríveis 35 dólares o litro. Neste cenário absurdo, apenas os milionários podem dirigir os seus carros. Mas Archie Andrews, um professor vegetariano e ecologista, encontra uma fonte de combustível tão alternativa quanto incomum: o sangue humano. Logo Archie se torna uma celebridade local, atraindo a atenção de todos, inclusive da linda e interesseira Denise. Entretanto, para manter o tanque cheio e não perder sua nova garota, o pacato Andrews precisará de muito, mas muito combustível.

Não é nenhum segredo que o cinema independente americano produz tanto lixo quanto os grandes estúdios de Hollywood. Mas pelo menos, fazem isso com pouco dinheiro. Obviamente existem algumas raras exceções, como é o caso de Carro a Sangue.

Nesta produção de 2007, o jovem diretor Alex Orr se inspira na linha trash-fake adotada pelos queridinhos Tarantino/Rodriguez em Grindhouse e, mesmo sendo pouco original no estilo, é eficaz no resultado crítico e cômico, abusando – entendam este abuso como um elogio – do humor negro e da violência.

O filme mostra a transformação de um pacato professor primário, vegetariano e ambientalista em um serial-killer descontrolado. Paralelo ao ofício de ensinar criancinhas, Archie (o protagonista que a princípio é o exemplo de tudo o que é politicamente correto), busca desenvolver um motor à base de suco de ervas-daninhas. Numa destas experiências, Archie se corta acidentalmente e derrama algumas gotas de sangue dentro do tanque e o motor funciona. Archie acaba de descobrir um novo tipo de combustível ecológico: sangue.

Mas como conseguir, em grande quantidade, matéria-prima para o seu novo combustível? Numa sequência pra lá de hilária, o vegetariano Archie sai então à caça de animais para mover o seu carro, já devidamente modificado e equipado com uma espécie de moedor gigante no porta-malas. Archie chora e lamenta a morte dos pobres bichinhos. Primeiro são inofensivos esquilinhos. Depois um pequeno cachorrinho. Um patinho na lagoa. Logo está com um enorme saco cheio de animais mortos – não, não se preocupem, nenhum animal foi ferido durante as filmagens, não estamos falando de nenhum Cannibal Holocaust. Mas todo esforço do personagem é em vão. Na verdade, sua invenção funciona apenas com sangue humano. Como resolver o problema? A solução mais prática e mais “ética” adotada acaba sendo empurrar pobres vítimas (de preferência velhinhas ou deficientes) para dentro do porta-malas de seu carro.

A vida do tímido professor sofre uma reviravolta. Com o carro abastecido, ele “conquista” o coração da gostosa e ninfomaníaca Denise. Apesar de fútil e interesseira, Archie se encanta pela garota (principalmente depois de experimentar metade das posições do Kama Sutra, inclusive uma de gosto um tanto quanto questionável). O sexo é na verdade o maior motivador das ações de Archie, que só possui Denise quando está com o tanque de seu carro cheio.

O humor ácido do diretor não fica apenas na morte de animaizinhos, velhinhas ou deficientes. Aliás, após jogar um ex-combatente de guerra em seu porta-malas, nosso serial-killer percebe que não foi o suficiente para dar a partida. Exclama então indignado: Meu Deus! Precisava de uma pessoa inteira. O pobre coitado não possuía as duas pernas e um braço! Em outra cena, agentes do governo, buscando apagar algumas pistas, não exitam em matar criancinhas à queima-roupa. Mas o que parece apenas uma comédia de humor negro de gosto duvidoso, aos poucos se revela um manifesto contra o “American Way of Life” e as guerras insanas pela exploração do petróleo promovidas pelos Estados Unidos, incluindo um discurso anti-Bush (presidente norte-americano em 2007) mais do que direto no final do filme. É obvio que toda esta liberdade criativa e ideológica só seria possível dentro uma produção independente. Liberdade, digamos de passagem, muito bem aproveitada pelo diretor/roteirista/produtor estreante, Alex Orr.

Carro a Sangue (2007)

O elenco é encabeçado pelo também estreante Mike Brune. Juntam-se a ele as gatíssimas Katie Rowlett, interpretando a “pervertida” Denise e Anna Chlumsky (a namoradinha de Macaulay Culkin em Meu Primeiro Amor) como Lorraine, uma amiga que nutre uma paixão secreta por Archie e que adora usar camisetas homenageando o Brasil. Não há como classificar as interpretações, já que são exageradas, e não se sabe se são propositalmente ou por falta de talento.

Existem algumas falhas de continuidade, que não chegam a comprometer, como um furo de bala no porta-malas do carro que aparece e desaparece, ou um machado que ora aparece sujo, ora aparece limpo. Um ponto fraco, que diminui um pouco Carro a Sangue, é a edição, que não acompanha a ousadia do enredo e se mostra convencional demais. A trilha sonora também é bem comportada e composta quase toda por músicas clássicas. O resultado é até interessante em alguns momentos, mas infelizmente soa amadora e pouco criativa em outros.

Carro a Sangue foi exibido na Mostra Indie de São Paulo em 2008, onde foi muito bem recebido. Já nos Estados Unidos o longa de Alex Orr recebeu diversos prêmios, incluindo os “famosíssimos” Cinequest New Visions Award, Faux Film Festival (escolha da audiência), Blackseat Festival entre outros. O site americano de cinema Ain’t It Cool News definiu Blood Car da seguinte maneira: A diversão mais retardada do ano!.

No entanto, até mesmo os menos conservadores podem não ver muita graça em crianças sendo massacradas numa escola (em época de tragédias como os da Virginia Tech ou Columbine) ou um bebê sendo usado como combustível. Entretanto, se o diretor pretendia romper os paradigmas de bom gosto e bom senso com Carro a Sangue, ele está de parabéns pelo feito (imaginem como seria uma crítica do Sr. Rubens Ewald Filho sobre o filme). E quando visto como forma de deboche e crítica venenosa aos nossos irmãos do hemisfério norte comedores de hamburguer, o mal-comportado Carro a Sangue torna-se uma diversão imperdível.

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