![]() Ilha do Medo
Original:Shutter Island
Ano:2010•País:EUA Direção:Martin Scorsese Roteiro:Laeta Kalogridis, Dennis Lehane Produção:Brad Fischer, Mike Medavoy, Arnold Messer, Martin Scorsese Elenco:Leonardo DiCaprio, Mark Ruffalo, Ben Kingsley, Max von Sydow, Michelle Williams, Jackie Earle Haley, Ted Levine, John Carroll Lynch, Elias Koteas, Robin Bartlett, Christopher Denham, Joseph Sikora, Curtiss Cook |
Não se pode não gostar de Martin Scorsese. Se você não gosta é porque não assistiu a pelo menos uns dois filmes dele. Você pode até torcer o nariz para Spielberg, De Palma, Coppola, Ridley Scott, Tarantino e congêneres, mas não se pode ignorar que um diretor tão prolífico como Scorsese tenha entregado alguns dos clássicos contemporâneos mais importantes do século passado sem ser mala como os diretores “de arte” (não que os citados sejam), e até seus filmes menos celebrados tem algo de bom a se ver.
Não sou aquele tipo de crítico que fica lambendo as botas de um determinado profissional em detrimento de outros de grande talento que também cometem seus deslizes, mas uma pessoa que dirige Cabo do Medo no ano posterior a Os Bons Companheiros, um documentário sobre Bob Dylan (No Direction Home) e show dos Rolling Stones (Shine a Light) anos depois de fazer a voz de um baiacu estressado num filme de animação (O Espanta Tubarões) vale no mínimo minha admiração. Nem preciso dizer que Os Infiltrados é um dos meus filmes favoritos da década anterior a esta.
É, portanto, com grande expectativa que aguardava a nova empreitada do diretor no gênero terror/suspense 19 anos passados do lançamento do inesquecível Cabo do Medo. Claro que falo de Shutter Island, que no Brasil ganhou o desafortunado e tosquíssimo título Ilha do Medo.
Baseado no livro escrito por Dennis Lehane e publicado em 2003, foi rodado em março de 2008 para lançamento no início de outubro de 2009. Porém devido a problemas financeiros da distribuidora Paramount Pictures para fazer o marketing do filme e a indisponibilidade do protagonista Leonardo DiCaprio em rodar o mundo para promovê-lo, a película de 80 milhões de dólares teve seu lançamento atrasado para 19 de fevereiro nos Estados Unidos e 12 de março no Brasil. O que é uma pena, pois se lançado na data original, Ilha do Medo teria boas chances de abocanhar algumas indicações ao Oscar.
A história se passa em 1954 e o federal Teddy Daniels (DiCaprio em sua quarta associação com Scorsese) e seu parceiro Chuck Aule (Mark Ruffalo, Zodiáco e Ensaio Sobre a Cegueira) vão até Ashecliff Hospital, uma instituição para criminosos insanos localizado na ilha que dá nome ao filme. Eles estão lá investigando o estranho desaparecimento de uma paciente chamada Rachel Solando (Emily Mortimer, Pânico 3), presa por ter matado seus três filhos afogados como explicam o Dr. John Cawley (Ben Kingsley, que pagou mico em BloodyRaine), chefe da psiquiatria e seu colega Dr. Naehring (Max von Sydow, O Exorcista).
As circunstâncias são intrigantes: não há sinais de arrombamento, nenhum dos outros funcionários ou pacientes parece ter visto a mulher e os penhascos em volta da ilha são íngremes com pedras lisas e pontudas, tornando uma fuga praticamente impossível. Tão estranhos quanto são as atitudes evasivas da equipe de Cawley, especialmente relacionadas a informações sobre um farol em um ponto de difícil acesso na ilha, estão os sonhos tumultuados de Daniels que merecem um parágrafo a parte.
Teddy Daniels foi soldado na Segunda Guerra Mundial e viu o que a maioria consideraria insuportável: pilhas de incontáveis de cadáveres ao invadir um campo de concentração. Extremamente abalados com a crueldade, o pelotão que Daniels fazia parte fuzilou todos os agentes da SS do campo de uma forma tão desumana quanto os atos dos nazistas.
Não obstante, sete anos depois do fim da guerra já trabalhando como “U.S. Marshall“, sua esposa Dolores (Michelle Williams, Halloween: H20) morre tragicamente num incêndio provocado por um criminoso desaparecido de nome Andrew Laeddis (o eterno coadjuvante Elias Koteas), que Daniels acredita que esteja em Shutter Island. Num destes frequentes sonhos com Dolores, a falecida esposa afirma que Rachel continua na ilha.
Seguindo seu instinto – e a dica da mulher morta – a tentativa de rastrear o paradeiro de Rachel colocará Teddy num mistério em espiral que evocará mais fantasmas de seu passado, combinado com conspirações, segredos, paranoias da Guerra Fria, supostos experimentos médicos, e para colocar a cereja no bolo, um furacão que impede o trânsito para dentro ou fora da ilha. Dizer mais é entregar surpresas, então por enquanto já chega.
Embora o roteiro escrito por Laeta Kalogridis (Alexandre) tenha vários clichês e chegando à metade final você tem o delineamento exato de como será o desfecho da produção, a mão de Scorsese faz toda a diferença e deixa poucos pontos mortos em cada um de seus 138 minutos de duração. Em nenhum momento o filme é arrastado, a cadência na construção dos personagens é soberba misturada na medida certa com as cenas de delírio e ação e mesmo em alguns extensos monólogos dos personagens de DiCaprio e de Kingsley, Ilha do Medo desperta interesse. Como um crítico de cinema certa vez disse: “não importa se você já conhece o traçado de uma montanha-russa, sempre será divertido quando estiver andando nela“.
Obviamente isto não seria possível sem um elenco competente com todos ficando em sintonia com a direção: DiCaprio e Kingsley fazem um excelente trabalho. Ruffalo me pareceu um pouco apagado e Sydow aparece menos do que deveria, contudo apesar disso eu nem contei que a película ainda conta com a presença de Jackie Earle Haley (o Rorschach de Watchmen e o novo Freddy Krueger), Ted Levine (o Buffalo Bill, de O Silêncio dos Inocentes) e John Carroll Lynch (que trabalhou com Ruffalo em Zodíaco).
Embrulham o pacote a assombrada trilha sonora gótica supervisionada por Robbie Robertson, veterano dos filmes de Scorsese e a impressionante fotografia de Robert Richardson nos três grandes cenários onde o filme se passa: a guerra, os sonhos/flashbacks e a própria ilha, quase personagem vivo da produção.
O que talvez pode causar um certo incômodo no público (mas certamente não me afetou), além da certa previsibilidade do roteiro e do pouco tempo de exposição de alguns personagens, é que o marketing sobre o filme prometia uma produção sobre assombrações, cheia de sustos, reviravoltas súbitas e uma divisão definida do que é “bom” e “ruim“. Vendê-lo como uma versão séria de um episódio de Scooby-Doo talvez tenha sido seu maior erro.
Quem já viu Cabo do Medo sabe que Scorsese seria incapaz de buscar soluções fáceis e preguiçosas como estas, muito pelo contrário, altamente influenciado pelo produtor Val Lewton – Scorsese inclusive produziu um documentário de 2007 sobre ele – e por Um Corpo que Cai, Ilha do Medo demonstra a capacidade de se criar um clima noir, soturno, com as falhas de personalidade, descrenças e medos do protagonista que te instigam em compreendê-lo mais a fundo. Um poderoso exemplo do significado do termo “thriller psicológico“.
E é por isto que Ilha do Medo causa mais espanto, se a atmosfera, as intrigas, a intensidade e a ruína de confiança do protagonista não te pegam na primeira vista. Muito provavelmente você se sinta compelido a entrar no cinema novamente e revisitar Shutter Island por sutilezas que passaram despercebidas. Se esta vontade bater em você também, não resista.







A maior injustiça no oscar desse ano!