
![]() Fácil de Enterrar
Original:Soft for Digging
Ano:2001•País:EUA Direção:J.T. Petty Roteiro:J.T. Petty Produção:J.T. Petty, Jeffrey Odell Elenco:Andrew Hewitt, David Husko, Edmond Mercier, Joshua Billings, Kate Petty, Mia Tod, Sarah Ingerson, Wayne Nickel |
As árvores sempre foram uma fonte admirável de energia para os filmes de terror. São inúmeros os exemplos de uma combinação perfeita entre natureza e medo. O maior nome do gênero é, sem sombra de dúvida, o mega-clássico The Evil Dead (1982), que soube plantar sustos utilizando uma floresta sombria por onde caminhava o demônio desperto. Mas, não é o única produção que utilizou do recurso para assustar o espectador, outros clássicos já mostraram o quanto pode ser assustador atravessar uma mata escura e sem vida. Sally e seu irmão paralítico tiveram uma experiência pouco agradável na década de 70 ao cruzar um bosque atrás de seus amigos desaparecidos. Heather Donahue também sofreu em demasia em Maryland ao investigar a lenda de uma terrível bruxa.
Imagine, então, uma produção com orçamento baixíssimo, tendo sido filmada às margens de uma floresta sinistra, com pseudo-atores completamente desconhecidos do público, numa trama que envolve crianças, choros de bebês e pouco sangue? Parece mais um ataque da Bruxa de Blair, mas não é. Porém, há semelhanças…
No dia 20 de outubro de 2002, estreou na Mostra de Cinema de São Paulo a produção intitulada nacionalmente como Fácil de Enterrar (Soft For Digging), dirigida, escrita e editada pelo até então desconhecido J.T. Petty (hoje, ele também é o responsável por Mutação 3: O Sentinela e Escavadores), enquanto cursava a Universidade de Nova Iorque. Tanto A Bruxa de Blair quanto Fácil de Enterrar foram concebidos nas florestas de Maryland, apenas como uma experiência cinematográfica, sem a pretensão de atingir tanto sucesso quanto adquiriram. Enquanto Myrick e Sánchez re-utilizaram a ideia do clássico italiano Cannibal Holocaust para trabalhar com a narrativa em primeira pessoa, a partir de câmeras amadoras, Petty também desenvolveu seu trabalho em primeira pessoa, utilizando técnicas amadoras de projeção, mas sem abusar das cenas noturnas e dos diálogos.
Fácil de Enterrar apresenta o cotidiano de Virgil Manoven (Edmond Mercier), um senhor de idade avançada, viúvo, que mora numa pequena e velha cabana, isolada, no meio de uma floresta deserta, repleta de árvores mortas, num aspecto de outono eterno, e que convive com um pequeno e feioso gato, com pelos sujos e aparência extremamente negativa. Certa manhã, assim que o menino-carteiro arremessa o jornal para a frente da sua casa, o velho desperta para mais um dia tranquilo em sua rotina que se inicia com um café da manhã com leite e ovo.
Enquanto prepara sua refeição, seu animal de estimação apenas observa da janela a paisagem tediosa, esperando uma oportunidade para escapar. Ela surge quando Manoven decide buscar o jornal e abre a porta da cabana, permitindo a fuga do animal. Minutos depois, enquanto o ovo ferve, o velho pega um copo com leite e um bichinho de pelúcia sonoro e sai a procura do felino pela mata deserta.
Toda essa introdução é descrita com detalhes e com muita lentidão, o que pode tornar o filme cansativo para o público sem paciência. Assim, só continue lendo se você tiver realmente interesse em conhecer um pouco do horror absoluto conhecido por um simples idoso em sua rotina triste e solitária.
Alguns passos depois, já cansado de procurar o gato, ele se depara com uma movimentação numa pequena abertura do bosque. Há um estranho carro parado no meio-fio, e, do lado de fora do veículo, há uma linda garotinha (Sarah Ingerson), com aparência angelical, num uniforme escolar rubro, aguardando um homem que insistentemente mexe no porta-malas. O homem tira do carro um pequeno corpo, enrolado num pano, e uma pá e deixa ambos próximos da menina. De repente, a garota nota a presença do velho que a cumprimenta, acenando com uma das mãos. Com um olhar frio, ela apenas olha para Manoven, para o corpo enrolado no pano e nem sequer demonstra qualquer reação facial.
O homem misterioso e a garota entram na mata a pé e desaparecem carregando o pequeno corpo e a pá. O velho continua sua busca lenta e infindável pelo gato, caminhando ainda mais para o interior da floresta seca até que, poucos minutos depois, ele vê novamente o mesmo homem entre as árvores, de costas, ao lado da pá e do pequeno corpo, mas nem sinal da garotinha. A medida em que se aproxima, o velho nota algo realmente assustador: entre as pernas abertas do homem, é possível ver os pés da menina, flutuando, enquanto ele a enforca violentamente. Então, o corpo da menina cai sem vida, ao mesmo tempo que o velho larga o copo vazio que segurava – numa cena realmente muito bem feita. Enquanto caminha para trás, amedrontado, Manoven pisa num galho seco e desperta a atenção do assassino que, imediatamente, nota a presença da testemunha. Esta corre tanto quanto seu fôlego, desgastado pela idade aguenta e chega à estrada, frente à sua velha morada. Lá, encontra o menino-carteiro em sua tradicional bicicleta e diz a primeira palavra do filme: – Murder! (Assassinato) O jovem entregador de cartas, assustado, retorna pelo caminho de onde vinha, deixando o pobre homem em pânico, sozinho e com um ovo todo queimado sobre o fogão.
Como todo bom velhinho, Manoven avisa a polícia e os moradores da região, e todos decidem iniciar uma busca pelo cadáver da garota, porém, nenhum vestígio é encontrado. Desacreditado, o velho procura retornar para sua rotina de café da manhã, ovo e jornal, mas sem a presença do gato que, decididamente, não queria retornar. Durante a noite, porém, ele é assombrado por pesadelos onde vê a menina gritando com um olhar infernal e doloroso, o assassino, e o assassinato, misturados com as sinistras árvores da floresta.
Na manhã seguinte, Manoven resolve caçar novamente seu gato fugitivo e se aventura pela mata. Um passo em falso e ele pisa numa corda amarela presa no chão. Ao tirar a corda, ele encontra o que a pequena cidade inteira não havia conseguido: o corpo frio e sem vida da menina. Mais uma vez, o velho corre pela floresta em busca de um apoio policial para sua terrível descoberta. Um telefonema depois e os policias retornam para ajudar o velho, mas, para infortúnio deste, o corpo outra vez não é encontrado. Seria apenas uma ilusão de um velho com sua mente desgastada? Manoven só não deixa de acreditar em seus próprios olhos quando encontra no bolso de seu roupão a corda usada como arma no crime…
Assim a narrativa de Fácil de Enterrar lentamente conta sua história, como se estivesse sendo contada pelo velho, o que poderia dificultar a crença. Quem já não ouviu um relato bizarro de um vô ou de algum senhor em idade bem avançada? Na Vila Carioca, há muitas histórias de lobisomens e aparições…
Apesar dos fatos narrados acima darem a impressão de que pertencem a um suspense comum, é importante deixar claro que o filme conta uma assustadora história sobrenatural envolvendo fantasmas, possessão e vingança em apenas 74 minutos de duração. Só para citar uma cena (sem estragar qualquer surpresa), em determinado momento, um policial entrega a Manoven um folheto com a propaganda de um asilo na região – ora, a cidade acredita realmente que o velho já não consegue nem fritar seu ovo. Manoven acaba vendo mais do que apenas um simples anúncio quando enxerga na imagem de um orfanato a garotinha recém assassinada. Seria uma coincidência? Uma brincadeira? A única forma de descobrir será visitando o tal orfanato, onde ele descobrirá muito mais do que imagina…
Fácil de Enterrar é um filme com apenas três diálogos – recurso utilizado pelo diretor em homenagem ao clássico Nosferatu -, dividido em capítulos, em uma linguagem extremamente lenta que serviu de inspiração para M. Night Shyamalan. Mesmo com sua lentidão geriátrica, o longa foi uma das produções mais interessantes daquele ano na Mostra de Cinema de São Paulo. Na sessão em que eu estava, havia um homem que falava alto durante a produção, preenchendo o silêncio da tela, ressaltando o quanto ele queria que o filme acabasse logo. Em determinado momento, ele confessou que seus olhos impediam suas pernas de se afastarem do local.
Enfim, um filme de horror e arte que merece ser conferido pelos apreciadores do medo e de tramas bem construídas, num ambiente envolto por árvores tenebrosas. Quem talvez não goste do resultado é algum perdido integrante da sociedade protetora dos animais!




Muito bom vale apena dar uma conferida.
Ótimo! Mesmo entendendo filmes em inglês sem as legendas, o fato desse filme possuir apenas três diálogos me ajuda bastante! 🙂
Achei ele online e vou assisti-lo quando tiver algum tempo livre.