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A Tortura
Original:The Torturer
Ano:2005•País:Itália
Direção:Lamberto Bava
Roteiro:Andrea Valentini, Dardano Sacchetti, Diego Cestino, Lamberto Bava, Luciano Martino, Michele Massimo Tarantini
Produção:Angelo Frezza
Elenco:Alessandro Santini, Alevtyna Huzar, Antonella Salvucci, Carla Cassola, Daniela Giorgini, Elena Bouryka, Eleonora Sannibale, Emilio De Marchi, María Blanco-Fafián

por Gabriel Paixão

O italiano Lamberto Bava, filho do saudoso e genial diretor Mario Bava, foi injustamente relegado ao ostracismo do horror nos cinemas por quase 15 anos, em parte vitimado pela decadência do cinema em seu país natal e também pelos slashers que tornaram os Gialli obsoletos para o público “tipo exportação”. Afinal, foram com os Gialli A Blade in the Dark de 1983 e seu debut nos cinemas, Macabre de 1980, que Lamberto estabeleceu popularidade que abriu o caminho para que realizasse seus dois grandes sucessos, a dualogia Demons de mais de 25 anos atrás.

Este “retorno” após Body Pieces (1992) aconteceu em 2005 com o filme A Tortura; e não obstante também marca o retorno do grande Dardano Stacchetti (cujos créditos vão desde O Gato de Nova Caudas a Pavor na Cidade dos Zumbis) que é um dos que assinam a história roteirizada também por Lamberto, Diego Cestino e Andrea Valentini. Mas é uma pena, uma grande pena, que tantas pessoas estejam envolvidas nesse torture porn com elementos de giallo bagunçado, desinteressante, ilógico e extremamente esquecível.

Na história, Ginette (Elena Bouryka) é uma jovem atriz tentando um papel no último filme de seu diretor favorito, Alex Sherba (Simone Corrente). A audição acaba tornando-se um pouco arrepiante para a garota, pois o diretor escondido nas sombras e usando um dispositivo para distorcer a voz dá ordens na linha de “Tire toda sua roupa” ou “o quão longe você iria para estar em um filme”. Neste interim ela encontra um brinco suspeitamente similar ao que uma amiga atriz aspirante usava, você sabe, uma que está desaparecida há alguns dias…

Bem, Ginette se envolve sexualmente com o diretor (que mostra ter algum tipo de trauma de infância com cenas que remetem levemente a Prelúdio para Matar), visita sua casa e conhece seu padrasto e produtor do filme, além de sua mãe perturbada (Carla Cassola, Demonia), cuja doença mental a deixa eternamente com um olhar catatônico, ouvindo vozes e a fazendo agir como em uma novela mexicana (mas esta última acho que é legado da atriz mesmo, hahaha). Coincidentemente a mãe ostenta o par do brinco que Ginette encontrou colocando uma suspeita sobre o paradeiro da amiga desaparecida, o que significa que ela vai xeretar a noite procurando pistas e, evidentemente, correndo risco de vida.

Neste interim três mulheres “tentam o papel” no mesmo local e percebem que a pessoa que conduz os testes quer mais do que somente verificar a interpretação e a ousadia das atrizes, tudo isto entrecortado com cenas de tortura de outras vítimas ao estilo torture porn por um perpetrador em que só as mãos aparecem, como todo bom giallo.

É difícil começar a escrever o que este filme tem de errado, porque são muitos pontos. Logo de cara você vê que as coisas se encaminham para alguma coisa ruim quando Lamberto tenta insistentemente mesclar elementos clássicos do Giallo com os torture porn convencionais, especialmente nas diferenças de ritmo, afinal enquanto o primeiro é mais lento e sutil, o segundo costuma ter um estilo mais acelerado e explícito. Por exemplo, quando a mocinha resolve investigar a casa do diretor as coisas andam bem devagar, não mais que subitamente corta para uma cena de tortura de uma garota aleatória e depois volta para as três garotas da história paralela. Este intercalamento de histórias quebra o suspense de uma maneira irremediável, pois quando se começa a ficar tenso por alguém, o foco passa pra outros personagens e alguns que sequer tem nome ou função na trama a não ser morrer impiedosamente.

A metodologia de direção de Lamberto não ajuda, nas cenas de tortura: ele tenta usar os cortes rápidos característicos da franquia Jogos Mortais, por exemplo, mas provavelmente afetado pelo baixo orçamento, os cortes saem de duas ou três câmeras que deixam um cheiro de tosquice no ar.

E o roteiro reciclado, mesmo tendo 12 mãos em cima é repleto de momentos ilógicos, pontas soltas e psicologia Freudiana de boteco. É implícito, contudo nunca fica claro o motivo das “alucinações” de Alex e entre as dúvidas que pairam no ar, as principais [Atenção com spoilers no restante do parágrafo]: no andar do filme, fica explícito que a mocinha tem celular com bateria e que na casa tem sinal, por que quando as coisas vão mal ela não se digna a ligar para a polícia? Como a enfermeira da mãe nunca ouviu o grito das mulheres na casa ou sequer suspeitou do que acontece, sendo que a mocinha consegue até ouvir o sussurro de uma no meio da chuva enterrada em cova rasa? Como, de uma hora pra outra, o comportamento suspeito violento de Alex se torna num doce de compaixão?

A violência é intensa, mas desinteressante e só deve causar incômodo em estômagos menos calibrados. Com poucas exceções dá para perceber nitidamente quando o corpo da mulher torturada é de borracha ou quando as queimaduras são feitas por computador e a nudez também não compensa; pode causar algum incômodo somente se for levar em consideração que é altamente misógino. Nem muito Giallo, nem tanto Torture Porn, com personagens inacreditavelmente estúpidos, dado o histórico dos envolvidos e a certa expectativa envolvendo o projeto, era de se esperar mais, mas com tantas ressalvas procure não ser o torturado deste filme.

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