O Homem Sem Sombra (2000)

O Homem Sem Sombra
Original:Hollow Man
Ano:2000•País:EUA, Alemanha
Direção:Paul Verhoeven
Roteiro:Gary Scott Thompson, Andrew W. Marlowe
Produção:Alan Marshall, Douglas Wick
Elenco:Kevin Bacon, Elisabeth Shue, Josh Brolin, Kim Dickens, Greg Grunberg, Joey Slotnick, Mary Randle, William Devane, Rhona Mitra, Pablo Espinosa

Concordo com todas as críticas a respeito de O Homem Sem Sombra, a incursão do cineasta holandês Paul Verhoeven no velho tema de como a invisibilidade pode provocar o caos em um homem com sede de poder. Realmente, considerando toda a infinidade de situações que podiam ser criadas a partir da invisibilidade do protagonista, o roteirista foi muito preguiçoso e preferiu criar uma história simples, banal até demais, que se passa quase inteiramente numa base subterrânea secreta do Exército. Quando poderia, por exemplo, ter explorado melhor os passeios do homem invisível pelo “mundo normal“, como aconteceu no clássico O Homem Invisível, de James Whale, cujo roteiro é bem superior – apesar das limitações técnicas da época (anos 30, contornadas com muita criatividade).

Ainda assim, o conceito deste filme é acima da média: para o ser humano pular do seu estado “racional” para um de puro instinto animal e selvageria, basta apenas tirar todas as suas responsabilidades morais e sociais. Isso pode ser visto em O Homem Sem Sombra e também em Extermínio, de Danny Boyle, especialmente quando os personagens fugindo do ataque dos zumbis encontram um grupo de soldados.

No caso do filme de Verhoeven, o cientista Sebastian Caine (Kevin Bacon, surpreendentemente o melhor do elenco) percebe que pode fazer coisas terríveis quando invisível, simplesmente por não precisar mais contemplar o próprio rosto no espelho e encarar seus olhos acusadores. Assustador. O que começa com brincadeiras infantis, como fugir dos colegas cientistas e aproveitar-se da invisibilidade para se esconder nos cantos da sala, passa para o posterior estupro de uma vizinha (“Quem vai saber?“, ele se pergunta) e evolui para uma maldade sem fim, o que inclui o assassinato de seus colegas cientistas para que o segredo sobre sua invisibilidade não seja revelado. É a ânsia pelo poder que sobe à cabeça do cientista e causa a loucura, e não uma espécie de efeito colateral do soro da invisibilidade, como muitos espectadores podem pensar – desde o começo, o roteiro apresenta Sebastian como arrogante, egocêntrico e descontrolado, ou seja, o voluntário mais perigoso para este tipo de experiência!!!

Com um roteiro desses, muitas situações excelentes poderiam surgir, mas o roteirista, volto a frisar, optou pelo óbvio: ao invés de fugir pelo mundo aprontando todo tipo de barbaridades, Caine resolve antes trancar todo mundo no laboratório e iniciar um massacre à la Pânico. Se esta situação (que se desenrola na meia hora final de O Homem Sem Sombra) acontecesse logo no início, e o restante do filme narrasse a caçada praticamente impossível a um homem invisível, com certeza O Homem Sem Sombra se tornaria um filme infinitamente mais rico e interessante.

Mesmo assim, como está, a obra de Verhoeven tem bastante suspense e foge do lugar comum. O espectador não consegue ficar indiferente à ideia de um assassino invisível, que pode estar justamente do lado do herói, sem que este perceba. As cenas em que água e vapor “moldam” o corpo invisível de Sebastian são as melhores, pois não raras vezes surpreendem não só os personagens do filme, como o próprio espectador. Algumas mortes bem violentas (cortesia do cineasta Paul Verhoeven, que aqui está até muito contido), como a que envolve a perfuração do pescoço de uma das vítimas, completam o cardápio para fãs de filmes de horror.

Claro que é preciso descontar alguns absurdos gritantes, como o fato da comida não aparecer no estômago de Sebastian (enquanto o soro da invisibilidade, quando injetado, aparece no interior do organismo!). Outro detalhe: caminhando nas ruas pelado, Sebastian não iria ficar totalmente invisível, já que seria fácil de enxergar pelo menos a sola dos seus pés (que ficariam pretas de sujeira). Outra difícil de engolir é como o homem invisível consegue se limpar facilmente depois de levar um banho de sangue e ser queimado com um lança- chamas.

Claro que O Homem Sem Sombra poderia ter uma história melhorzinha, mas e daí? Os atores são razoáveis, os efeitos espetaculares e o suspense mantém a atenção até o fim. E mesmo sendo bobo na maior parte do tempo, o filme tem muito mais a dizer do que uma produção como Premonição 2, por exemplo, e nos faz pensar muito mais que a maioria dos filmes de horror da safra recente.

Verhoeven só peca por matar seu personagem no final, pois ele poderia voltar em uma continuação com um roteiro bem mais elaborado e ainda melhor.

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Felipe M. Guerra

Felipe M. Guerra

Jornalista por profissão e Cineasta por paixão. Diretor da saga "Entrei em Pânico...", entre muitos outros. Escreve para o Blog Filmes para Doidos!

Um comentário em “O Homem Sem Sombra (2000)

  • 28/04/2017 em 05:41
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    Xará, você poderia criar belas obras de terror que esse olhar aguçado que vc tem. E o “Filmes para doidos”, nenhuma previsão de retorno? Ou de atualização?

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