Morte Instantânea (2019)


Morte Instantânea
Original:Polaroid
Ano:2019•País:Canadá, Noruega, EUA
Direção:Lars Klevberg
Roteiro:Blair Butler
Produção:Chris Bender, Roy Lee, Michael Mahoney
Elenco:Kathryn Prescott, Tyler Young, Samantha Logan, Priscilla Quintana, Keenan Tracey, Javier Botet, Mitch Pileggi, Davi Santos, Katie Stevens

Curtas de terror podem ser um caminho interessante para jovens diretores conseguirem financiar projetos mais audaciosos. Quando o próprio Sam Raimi conseguiu a atenção que precisava com Within the Woods para realizar o absoluto Evil Dead, o bom exemplo serviu para inspirar outros cineastas independentes a criar seus portfólios do gênero, facilitado hoje em dia pelos agregadores de vídeos e a popularidade imediata traduzida na quantidade de views. E há também os festivais de filmes independentes, um dos grandes termômetros para a descoberta de novos talentos. Assim aconteceu com Mike Flanagan, com o curta Oculus: Chapter 3 – The Man with the Plan (2006), que se tornaria o longa O Espelho – e abriria as portas para que ele dirigisse diversos longas de destaque como o recente Doutor Sono -, com David F. Sandberg e seu Lights Out (2013), transformado no longa Quando as Luzes se Apagam, e até com Erdal Ceylan, que dirigiu Selfie from Hell (2015) para depois cometer a atrocidade Selfie para o Inferno. Com Lars Klevberg, não foi diferente.

Em 2015, ele dirigiu o curta Polaroid e chamou a atenção da Dimension Films, que, no mesmo ano, já anunciava a realização de Morte Instantânea (Polaroid, 2019). Não foram necessárias milhares de visualizações para o convencimento, mas o bom argumento e a capacidade do cineasta de causar arrepios para uma trama simples e bastante funcional. No curta (que pode ser conferido aqui), duas amigas estão conversando sobre postagens, curtidas e visualizações de fotos numa noite que deve trazer pizza e empacotamento. Sarah (Annika Witt), que perdeu a mãe recentemente de maneira trágica, está com Linda (Thea Sofie Loch Næss) em sua casa, quando, ao mexer numa caixa encontrada no sótão, descobre uma câmera antiga, de fotos polaroid.

Elas fazem uma selfie, no exato momento em que a campainha toca e Sarah vai atender. Separadas, com a revelação instantânea da foto mostrando algo bastante assustador, as amigas se deparam com uma assombração no local, evocada pela fotografia, numa aterrorizante maldição. Com apenas 16 minutos, o curta norueguês promove cenas apavorantes, intensas em calafrios, numa atmosfera perturbadora de insegurança. O começo lembra O Chamado (ou o próprio Ringu), trocando apenas o vídeo pela câmera maldita, e há algumas ideias já exploradas no gênero como a movimentação de uma bolinha fantasma, porém a ideia de utilização de poucos personagens e ambiente único é sempre interessante, e promove bons arrepios.

Para uma versão em longa-metragem, seria necessário ampliar a quantidade de personagens, envolver novos cenários e uma possível investigação sobre uma tragédia que poderia justificar a maldição. Foi o que Lars fez. Acertou em muitas das ideias propostas, mas se equivocou em outras, atrapalhado também por alguns efeitos ruins na caracterização da assombração. Começa quase igual ao curta: duas amigas conversam numa casa até que uma resolve tirar foto com uma velha câmera polaroid que pertencia a mãe falecida (não são as duas que tiram selfie). Na mesma noite, ela recebe a visita de uma entidade maligna, que, depois de repetir alguns dos sustos do original, culmina com seu fim sangrento.

Eis que o público conhece a protagonista, a tímida Bird Fitcher (Kathryn Prescott), conhecida na escola como a garota do cachecol, acessório que ela utiliza para esconder cicatrizes que possui no pescoço. Embora não goste de aparecer em fotos, ela tem o costume de registrar momentos que acha interessante, como o seu affair Connor (Tyler Young). Trabalhando num antiquário, ao lado de Tyler (Davi Santos), a rotina tediosa é encerrada quando o garoto traz uma câmera que comprou em um bota-fora, a tal polaroid maldita, que traz as inicias R.J.S.. Ela tira uma foto dele, somente para posteriormente o rapaz receber uma visita sobrenatural e violenta.

Com a câmera, durante uma festa à fantasia, Bird fotografa seus amigos, Kasey (Samantha Logan), Mina (Priscilla Quintana), Devin (Keenan Tracey) e até Connor, e logo depois Avery (Katie Stevens), que se torna a próxima vítima da assombração. Não tarda e a garota percebe que se trata de uma maldição envolvendo aqueles que foram fotografados pela câmera, principalmente com a aparição de uma estranha silhueta nas imagens. Ela vai precisar se unir aos sobreviventes para pesquisar o passado da câmera, e encontrar um meio de evitar novas mortes, incluindo dela mesma, uma vez que ela acabou sendo flagrada no reflexo da janela, no momento em que fotografava os amigos.

E assim o enredo se desenvolve como um thriller adolescente, com elementos sobrenaturais como o já mencionado O Chamado, Premonição entre outros. O roteiro, de Blair Butler (Parque do Inferno, 2018), também facilita as coisas para a protagonista, ajudando-a a descobrir os pontos fracos do fantasma, e também um meio de evitar que tal personagem seja a próxima vítima. Erra também ao exibir demais o monstro na sequência final, com cenas ridículas em que ele é almejado, tendo o rosto alterado pelas balas. E é bobo o modo como a trama conecta a maldição a um serial killer, e a uma vítima dele, ficando a óbvia qual seria a identidade dela.

Se a ideia das fotos servirem como um boneco vudu, podendo ferir os que aparecem nela, é também uma ideia ruim (e a conclusão é o ápice disso), por outro lado elas são arrepiantes pela presença indesejada, algo que sempre causa desconforto. Com o seu drama pessoal, a protagonista até consegue a empatia do espectador, agindo como a boa moça dos filmes de terror, e ela consegue ser esperta o suficiente para entender bem o que acontece para tentar alertar os amigos. E há sempre aquele valentão, descrente e agressivo, presente em todo longa similar.

Não é melhor que o curta-metragem que o inspirou, mas é até aceitável pela simplicidade do que se propõe. Teria uma boa aceitação nos cinemas brasileiros, nada de grande sucesso do gênero, se tivesse tido uma passagem e divulgação, além do trailer nos cinemas. Seria um bom resgaste de um tipo de filme que já está ausente há um tempo da tela grande, envolvendo maldições e a busca por uma solução.

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Marcelo Milici

Marcelo Milici

Fundou o Boca do Inferno em 2001. Formado em Letras, fez sua monografia sobre o Horror Gótico na Literatura. É autor do livro "Medo de Palhaço", além de ter participado de várias antologias de horror!

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