Vampiros, os Mortos (2002)

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Vampiros - Os Mortos
Original:Vampires: Los Muertos
Ano:2002•País:EUA, México
Direção:Tommy Lee Wallace
Roteiro:Tommy Lee Wallace
Produção:Jack Lorenz
Elenco:Jon Bon Jovi, Cristián de la Fuente, Natasha Gregson Wagner, Arly Jover, Darius McCrary, Diego Luna, Anilú Pardo, Honorato Magaloni, Javier Grajeda, Tommy Lee Wallace

John Carpenter presents Vampires: Los Muertos“. É com esse anúncio nos primeiros acordes do filme que traz o possível alento aos fãs do original. Saber que o diretor de Halloween – A Noite do Terror (1978) está por trás da produção executiva, e deixou o comando a cargo de Tommy Lee Wallace, de Halloween 3: A Noite das Bruxas (1982) e A Hora do Espanto 2 (1988), também traz uma perspectiva animadora. Talvez nem tanto quando se nota que o protagonismo de James Woods foi repassado ao astro da música pop Jon Bon Jovi, e há poucas referências ao longa de 1998, tendo mais um aspecto de remake do que propriamente uma continuação. De toda forma, com empolgação ou não, Vampiros, Os Mortos fora lançado diretamente em vídeo, restando apenas ter conhecimento do tamanho do estrago.

Copiando o início de um episódio da série Buffy, A Caça-Vampiros, o filme começa com um rapaz agressivo, cercando uma prostituta em um beco com seu canivete. Ele é incomodado pelo caçador Derek Bliss (Jon Bon Jovi), que pede que ele se afaste para dar fim à vampira. Registrando com a câmera, ele volta ao hotel onde está hospedado e envia o informe pelo computador ao Grupo Van Helsing (arghhh), que procede o pagamento e anuncia um novo trabalho. Embora prefira trabalhar sozinho, ele é induzido a montar uma equipe, começando por um convento habitado por padres caçadores. Ele procura o eclesiástico Adam Guiteau, sobrevivente do primeiro filme, e é avisado de sua morte.

Durante sua passagem pelo local, ele sofre de uma estranha visão, comum entre pessoas vampirizadas, o que pode indicar que os vampiros o estejam usando como conexão – uma ideia que é simplesmente abandonada no restante do filme. Derek recebe uma lista de nomes prováveis para compor sua equipe, e vai em busca dos referidos com seu jipe, apenas para encontrá-los mortos. Quando chega a um vilarejo onde um dos nomes acabara de ser morto e o trio que o atacou se escondeu em uma igreja, ele invade o ambiente com a ajuda do adolescente Sancho (Diego Luna, de Rogue One: Uma História Star Wars, 2016), que se mostra um apoio eficiente no combate às criaturas da noite. Isso se o infernauta ignorar o fato dos vampiros escolherem uma igreja extremamente iluminada para descansar e escapar da luz do sol; e um deles ainda é visto dormindo embaixo de um caixão ao invés de usá-lo como leito.

Ao entrar em um restaurante para contatar o caçador Jesse (Toño Muñiz), que trabalha como cozinheiro, Derek conhece Zoey (Natasha Gregson Wagner, que morreu no prólogo de Lenda Urbana, na melhor cena do filme), uma mulher vampirizada durante o sexo e que descobriu um meio de impedir a transformação através de um medicamento adquirido no Novo México. Os locais são mortos e Jesse é capturado pela vampira-chefe Una (Arly Jover, de Blade: O Caçador de Vampiros, 1998), que depois irá exterminar o convento e resgatará a Cruz Negra, a tal Béziers, artefato essencial para o ritual que permite o caminhar pela luz do sol, algo almejado por Valek no primeiro filme. O único sobrevivente do massacre é o padre Rodrigo (Cristián de la Fuente), que apresenta um veículo usado pelo padre Adam, com a impulsão de cordas como era usado por Jack Crow – sem justificar porque ele não fora mostrado na primeira passagem de Derek pelo local -, e assume seu lugar no grupo de caçadores.

Um último membro virá de ônibus, na sugestão “do cliente“. Ray Collins (Darius McCrary, de Jogos Mortais 6, 2009) entra para a equipe, com um rifle que dispara balas de madeira – é para crer -, e parece disposto ao combate com a Mestre dos Vampiros, na tentativa de impedir sua ascensão à luz do sol. Aliás, se o primeiro filme deixa evidente a razão para o líder buscar a luz do sol, uma possibilidade que o deixaria indestrutível, nesta sequência isso se perde. Basicamente, Una quer caminhar à luz do dia e só. Nos vários combates que acontecem ao longo do filme, ela nunca se mostra tão forte e eficiente quanto Valek, a criatura que exigiu uma estratégia muito inteligente de Jack Crow. Ele chega a dizer em Vampiros, de John Carpenter, que nunca tinha visto um Mestre tão poderoso, capaz de eliminar facilmente os caçadores como fizera na cena do bordel.

Assim, esse grupo segue no encalço da vampira-mor, mas evidenciando falhas do roteiro de Wallace. No último ato, Derek descobre o local onde repousa o clã de Una, em uma espécie de mosteiro em ruínas. Mesmo encontrando o local à luz do sol, Derek sugere que eles passem no vilarejo próximo “para descobrir mais coisas“. E ficam zanzando por lá, no bar, e simplesmente ignorando que o dia está passando e eles precisariam enfrentar os vampiros. Tanto que quem vai atrás deles é a própria Una, quando, ao roubar o medicamento de Zoey, consegue algo que a Cruz Negra e o ritual de exorcismo invertido não foram capazes.

Para piorar, sem o remédio desconhecido mas necessário, Zoey começa a se enfraquecer, e Derek a leva uma clínica onde a enfermeira (Anilú Pardo) tem a ideia de trocar todo o sangue do corpo dela. Imagino que profissionais da saúde devem gemer ao ver vários cidadãos do vilarejo mexicano doando sangue para ela, simplesmente ignorando o tipo sanguíneo. E se isso não é o bastante, Derek vem com a proposta de receber o sangue que fora retirado dela para facilitar o combate contra Una, numa ação sem propósito e que não serve para nada no enredo, ignorando – como eu disse no começo – as visões que ele anteriormente tinha. Durante um confronto com Una, mesmo estando todos os caçadores ali e a vilã não se mostrando assim tão poderosa, Rodrigo se oferece para realizar o ritual da Cruz Negra por ser padre e caçador – “dois em um“, como ele anuncia – apenas para adiar mais uma vez o embate final.

Enfim, Vampiros: Os Mortos tem toda essa bagunça de ideias, furos no roteiro e clichês. Além de reinventar as cenas do primeiro filme (um dos integrantes estar traindo o grupo), ainda há esses acréscimos absurdos como o do medicamento que permite andar à luz do sol, também vistos em Blade e Vampiros do Deserto, e o monóculo de temperatura para permitir a identificação dos não-vivos. Jon Bon Jovi não compromete em sua atuação, mas também não possui o mesmo carisma de James Woods. O destaque é todo da vampira Una, com uma interpretação sedutora de Arly Jover, apesar de sua personagem não demonstrar a força necessária para atuar como Mestre.

Irregular e completamente desnecessário, até pelos poucos acréscimos à franquia, Vampiros: Os Mortos só não é pior do que o terceiro filme, Vampiros: A Conversão (2005). Pode ser que empolgue aos fãs do músico ou que apreciam a mistura entre terror e faroeste, mas para aqueles que cultuam o que fez John Carpenter em 1998, é melhor passar bem longe do México e regiões próximas.

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Marcelo Milici

Professor e crítico de cinema há vinte anos, fundou o site Boca do Inferno, uma das principais referências do gênero fantástico no Brasil. Foi colunista do site Omelete, articulista da revista Amazing e jurado dos festivais Cinefantasy, Espantomania, SP Terror e do sarau da Casa das Rosas. Possui publicações em diversas antologias como “Terra Morta”, Arquivos do Mal”, “Galáxias Ocultas”, “A Hora Morta” e “Insanidade”, além de composições poéticas no livro “A Sociedade dos Poetas Vivos”. É um dos autores da enciclopédia “Medo de Palhaço”, lançado pela editora Évora.

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