Grito Silencioso (2020)

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Grito Silencioso
Original:Don't Speak aka Silent Place
Ano:2020•País:UK
Direção:Scott Jeffrey
Roteiro:Scott Jeffrey
Produção:Scott Jeffrey, Rebecca Matthews
Elenco:Stephanie Lodge, Ryan Davies, Jake Watkins, Will Stanton, Georgina Jane, Helen Minassian

Após receber a preocupante notícia de que o pai está doente e hospitalizado, Rita, o marido e os filhos viajam até a fazenda da família. Ela planeja cuidar da mãe que é idosa e não pode ficar sozinha. Mas eles estranham quando chegam ao local: não somente a propriedade está vazia, mas também todo o pequeno vilarejo próximo, que parece ter sido abandonado às pressas. Não há tempo para tentar entender a situação incomum, uma vez que logo se tornam presas fáceis para uma criatura monstruosa e descontrolada, resultado de um experimento militar que deu errado.

Don’t Speak ou O Grito Silencioso por aqui – não confundir com The Silent Scream, famoso curta documental sobre aborto lançado em 1984 – foi escrito, co-produzido e dirigido por Scott Jeffrey. Ignorado pelos fãs brasileiros do gênero, o cineasta britânico é uma espécie de seguidor dos “princípios” da famigerada produtora The Asylum, famosa por se especializar nos conhecidos e oportunistas mockbusters, clones baratos dos grandes arrasa-quarteirões americanos.  Jeffrey produziu, entre outros, sua versão de A Freira (chamada The Bad Nun, 2018), de It (ClownDoll, 2019), de A Múmia (Mummy Reborn, 2019) e de Cemitério Maldito (Pet Graveyard, 2019).

No caso de Don’t Speak (também conhecido marotamente como Silent Place), a suposta e óbvia inspiração é Um Lugar Silencioso (A Quiet Place), sucesso dirigido por John Krasinski em 2018. A imitação barata e de qualidade duvidosa foi convenientemente lançada em versões digitais em março de 2020, um pouco antes da primeira data prevista para a estreia mundial de Um Lugar Silencioso: Parte II (por causa da pandemia, a exibição do longa acabou adiada para 2021). No Brasil, no momento em que este artigo é escrito, a produção está disponível na plataforma de streaming Amazon Prime Video.

A lógica do enredo (o plot) é a mesma do “original”: alguns humanos são caçados por criaturas que se movimentam baseados no som, ou seja, para sobreviver é preciso evitar todo e qualquer ruído, o menor que seja. Mas bastam alguns minutos para percebermos que Grito Silencioso nem sequer respeita o conceito ao qual se propõe imitar. Ou seja, curiosamente os personagens nunca ficam quietos, então aquela atmosfera de suspense e tensão criada com precisão em Um Lugar Silencioso, pela quase ausência de sons e diálogos, não acontece em nenhum momento em Don’t Speak.

Há também uma tentativa frustrada do roteiro em abordar um drama familiar levemente mais sério e complexo, incluindo a doença do avô e a paternidade secreta do filho adolescente. Infelizmente (ou não) estes elementos adicionais são tratados superficialmente e abandonados tão rapidamente como foram introduzidos. O que era uma boa oportunidade para estabelecer uma conexão personagem-espectador é desperdiçada. Aliás, esta “desconexão” ou distanciamento é potencializado ainda mais pelo próprio desempenho nada convincente e artificial do elenco, formado pelos pouco experientes e desconhecidos Ryan Davies, Stephanie Lodge e Jake Watkins.

Em relação à criatura, o desacerto está na falta de cerimônia em mostrá-la: nos exatos 3 minutos e 55 segundos de exibição conhecemos o monstrengo resultante de algum teste militar secreto. Apesar da movimentação parcialmente estática, o visual é razoavelmente satisfatório. O bicho tem uma certa semelhança com Pale Man, um dos notáveis seres criados por Guillermo del Toro para o Labirinto do Fauno (2006). Ambas as criaturas são grotescas e não possuem olhos no rosto, além dos dedos finos e alongados. Mas lembre-se que estamos vendo uma produção B, então não espere muito realismo; não é preciso grande esforço para vermos que a criatura (que baba um líquido gosmento a la Aliens de H.R. Giger), é apenas um ator (AJ Blackwell) em um traje de borracha. Como o enredo se desenvolve quase todo durante o dia, ver os detalhes é ainda mais fácil. Já os efeitos de maquiagem não são muitos, mas convencem e há certa quantidade gore na segunda metade do filme, quando a família é acuada pelo monstro.

Enfim, dizem que curtir ou não um filme depende essencialmente do que chamamos de expectativa. Neste sentido, caso você ouse se aventurar e assistir O Grito Silencioso, reflita sobre o que esperar de uma produção de baixo orçamento que malandramente reconstrói (ou destrói?) o conceito do ótimo Um Lugar Silencioso. Portanto, sabendo o que esperar e o que não esperar, a experiência pode ser menos dolorosa e talvez, tolerável. E caso você tenha um gosto um tanto suspeito como o deste autor, pode até curtir alguns momentos.

Da perspectiva de um fã do gênero que vê com muitos bons olhos a mistura entre horror e sci fi e que tem algum prazer masoquista (ou curiosidade mórbida) em assistir produções mais toscas, a avaliação é de que Don’t Speak é uma produção ruim aceitável, com um roteiro fraco, uma boa criatura e efeitos quase eficientes.

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João Pires Neto

Apenas mais um rapaz latino americano vindo do interior. Ateu não praticante, vegetariano, viciado em Literatura, Rock and Roll e Cinema. Antifascista, antiespecista, feminista e pai de uma menina linda, de 3 cachorros e 1 gata preta. Formado em Letras e Literatura. Colaborador desde 2005.

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