As Filhas do Fogo (1978)

4.3
(6)

As Filhas do Fogo
Original:As Filhas do Fogo
Ano:1978•País:Brasil
Direção:Walter Hugo Khouri
Roteiro:Walter Hugo Khouri
Produção:Walter Hugo Khouri e César Memolo
Elenco:Paola Morra, Karin Rodrigues, Rosina Malbouisson, Maria Rosa, Serafim Gonzalez

Eu gravo vozes de pessoas mortas. Eu sei que vivo pra isso, pra tomar consciência dos universos paralelos e as coisas que estão junto a nós e nós normalmente não vemos, ou não queremos ver. Hoje eu sei que os universos são múltiplos e as dimensões do tempo também. Tudo acontece sempre em sincronicidade.

Depois de muito tempo, a jovem e enigmática Diana está de volta à antiga propriedade da família: um casarão colonial erguido em meio a uma dezena de árvores e próximo a um grande lago; local do afogamento trágico de sua mãe, ocorrido sob circunstâncias não esclarecidas. Ela recebe a esperada visita de uma amiga de São Paulo, a estudante Ana. Posteriormente, em uma breve caminhada pelo lugar, elas encontram Dagmar, uma mulher que registra com um gravador o canto de pássaros no bosque. Diana se recorda que ela é um rosto conhecido, na verdade, uma velha amiga de sua mãe. No futuro, Dagmar vai impressioná-las ao revelar que as gravações, além de sons e ruídos da natureza, trazem vozes de pessoas que já morreram.

As amigas já retornaram quando um desconhecido bate à porta, faminto e sem dinheiro. O homem comenta que, apesar de rico, prefere viver sem planejar o amanhã. Ele acaba se envolvendo com Mariana, a governanta, que, além de cuidar da residência, se preocupa com Diana como se ela fosse sua verdadeira filha.

Todos estes personagens singulares se envolverão em uma série de situações incomuns que precedem uma tradicional festa organizada por Dagmar. Nesta festa, Ana e Diana serão as convidadas principais.

Com direção e roteiro de Walter Hugo Khouri, cineasta paulistano conhecido pelo banido Amor Estranho Amor (a controversa produção de 1982 que exibia cenas eróticas entre a ex-apresentadora Xuxa e um ator de 12 anos), As Filhas do Fogo é um eficiente horror psicológico (ou sobrenatural, considerando que o final é aberto a diferentes interpretações), extremamente atmosférico e repleto de simbolismos. Em uma trama, que parece deixar fios soltos propositalmente a todo momento, o suspense e o estranhamento se manifestam nos detalhes, nos enquadramentos inesperados dos objetos e no comportamento dos personagens colocados em situações em que o absurdo está presente, mesmo que em um percentual pequeno. O resultado é aquela sensação de deslocamento, aquela impressão que algo está fora de lugar, ainda que nem sempre saibamos o quê. Outras marcas autorais do diretor estão presentes (em tempos, As Filhas do Fogo é o seu décimo sétimo trabalho), como a tensão sexual predominante e a construção lenta de uma trama não somente pelo que é mostrado, mas principalmente pelo que é insinuado.

É interessante que o elenco principal seja formado sobretudo por mulheres nascidas fora do Brasil: a italiana Paula Morra (de A Freira Assassina, 1979) interpreta a protagonista Diana, enquanto Rosina Malbouisson vive a amiga Ana (atriz portuguesa que fez carreira no Brasil atuando nos primeiros longas-metragens dos Trapalhões, ainda nos anos 70), e a ex-modelo filha de alemães, Karin Rodrigues, representa a sensitiva Dagmar. Completam o elenco a pouca conhecida Maria Rosa como Mariana e Serafim Gonzalez como o desconhecido que surge do nada em busca de abrigo e alimentação. O desempenho deste casting quase internacional é bem convincente. No entanto, o leitor atento deve questionar, com razão: e o idioma e os sotaques, como ficam? A solução é natural, já que, apesar de ser uma produção nacional, nesta época ainda era comum a dublagem em vez da captação direta das falas. Não que chegue perto de atrapalhar a experiência, porém é inevitável não notar certa artificialidade em alguns diálogos. Mas reforçando, a dublagem era comum à maioria das produções nacionais durante muito tempo e, embora o primeiro trabalho nacional de ficção rodado totalmente com som direto seja O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1969), de Glauber Rocha, a tecnologia se viabilizou de verdade para os cineastas brasileiros somente na década de 80.

Além das citadas marcas autorais de Khouri, é possível notar em As Filhas do Fogo certa influência de obras como o romance A Outra Volta do Parafuso, de Henry James, e do filme dirigido por Robin Hardy em 1973, O Homem de Palha. Em contrapartida, o longa parece ser uma referência ou inspiração para a ótima série produzida pelo canal de streaming Globoplay, Desalma (2020). E ainda, dependendo do entendimento, podemos identificar também algumas características que antecipam os plot twists de futuros sucessos do gênero fantástico, como Ilusões Perigosas (1995), Os Outros (2001) e O Sexto Sentido (1999).

A fotografia pode ser considerada também um ponto relevante ao explorar de modo hábil espaços amplos e externos, compondo um visual melancólico e introspectivo, em consonância com a proposta do enredo. As filmagens, com direito a muito verde, névoa e até mesmo neve, ocorreram no estado do Rio Grande do Sul, mais especificamente em Canela e Gramado. Entretanto, vale comentar que este mesmo cenário bucólico, com características tão europeias, afasta As Filhas do Fogo de outras produções da época, nas quais a brasilidade era quase sempre latente. Estas características universais do longa ajudaram a legitimar os comentários negativos que a crítica especializada publicava em relação à filmografia de Khouri, classificando suas obras de elitistas e as contrapondo a movimentos engajados socialmente, como o Cinema Novo, por exemplo. Por felicidade, com o passar dos anos, houve o merecido reconhecimento da imensa importância da obra de Walter Hugo Khouri para o cinema nacional, inclusive valorizando a preocupação estética e existencialista de seus filmes.

A trilha sonora igualmente merece destaque. O compositor Rogério Duprat (um dos principais arranjadores responsáveis pela ascensão musical do Movimento Tropicalista) desconstruiu e reorganizou trechos da Fantasia em ré menor de Mozart; quando tocada, adiciona às imagens uma camada sonora sombria e onírica, como se a música se empenhasse para ofuscar o realismo das cenas.

Mas infelizmente As Filhas do Fogo só poderá ser visto de maneira oficial em retrospectivas ou mostras de cinema, pois não há vestígios na internet que o filme tenha sido lançado em VHS ou DVD, e não estando em cartaz em nenhum dos canais de streaming no Brasil, enquanto este texto é escrito. Porém, uma gravação em VHS de baixa qualidade, de uma exibição na sessão Made In Brasil da Band, pode ser encontrada facilmente no Youtube.

Uma última curiosidade: na ocasião do lançamento nos cinemas de As Filhas do Fogo, uma campanha publicitária foi organizada em parceria com a Editora Três: em uma promoção para os leitores da revista Planeta (publicação especializada em assuntos como parapsicologia, ufologia e esoterismo), o melhor texto comentando o filme ganharia uma viagem para qualquer lugar do mundo, em um valor na época de 10.000 cruzeiros.

Enfim, As Filhas do Fogo é uma feliz incursão do cineasta brasileiro Walter Hugo Khouri no gênero fantástico. Para o espectador, é uma oportunidade única, não somente de conhecer uma obra do gênero realizada no Brasil (em plena ditadura militar), mas de experimentar uma produção cinematográfica surpreendentemente sóbria, autoral, por vezes poética e sempre instigante.

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João Pires Neto

João Pires Neto é apaixonado por livros, filmes e música, formado em Letras, especialista em Literatura pela PUC-SP, colaborador do site Boca do Inferno desde 2005, possui diversos contos e artigos publicados em livros e revistas especializadas no gênero fantástico. Dedica seu pouco tempo livre para continuar os estudos na área de literatura, artes e filosofia

2 thoughts on “As Filhas do Fogo (1978)

  • 12/10/2023 em 20:09
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    Que surpresa ver uma crítica desse filme por aqui. Será que já resenharam sobre o outro filme do Walter Hugo Khury O Anjo Da Noite, de 1974?

    Resposta
    • 21/10/2023 em 00:57
      Permalink

      Caramba, eu ia comentar a mesma coisa depois de ler a resenha rsrs

      Fiquei surpreso e muito feliz de ver esse filme e Walter Hugo Khury por aqui. Espero que, em breve, role alguma resenha de “O Anjo da Noite” também. Depois de “À meia-noite levarei a tua alma”, do Mojica”, “O Anjo da Noite ” é o meu filme nacional de terror favorito (esse sim tem uma vibe bem “A volta do parafuso”).

      E tem outros filmes antigos do terror nacional que merecem ser registrados aqui também: “Enigma para Demônios” e “A Mulher do Desejo”.

      Resposta

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