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Ozone
Original:Ozone
Ano:1993•País:EUA
Direção:J.R. Bookwalter
Roteiro:J.R. Bookwalter, David A. Wagner
Produção:J.R. Bookwalter
Elenco:James Black, Tom Hoover, Bill Morrison, Michael Cagnoli, Lori Scarlett, Jerry Camp, Mark S. Bosko, Wayne Alan Harold, Neil Graf, Jason Andrew Norton, Mary Jackson

Em 1988, o jovem diretor J.R. Bookwalter ficou mais famoso por arrancar uma grana de Sam Raimi para tocar seu projeto A Morte/The Dead Next Door do que explicitamente pelo próprio filme em si. Ganhou certa fama no cenário, pois com pouca verba produziu um filme divertido subvertendo o que muito diretor não consegue fazer com orçamentos gigantescos. Mas o mundo deu voltas, Bookwalter fundou sua produtora Suburban Tempe e começou produzir e dirigir uma série de filmes de baixo orçamento direto para o vídeo com pouquíssima (ou até nenhuma) aceitação do mercado e que não satisfaziam o próprio Bookwalter pessoalmente. Até que chegou o momento do “tudo ou nada“, Bookwalter resolveu fazer mais um filme e, levando como um desafio a si mesmo, decidiu que esta seria a produção responsável pela continuidade ou pelo encerramento prematuro de sua carreira. Para isso pegou uma câmera S-VHS comum, o microbiótico orçamento de 3.500 dólares e foi à luta.

Ozone é um filme modesto como a verba disponível permite, mas feito com raça e características que o dinheiro não pode comprar: direção inspirada, roteiro sob medida (apesar das “viajadas” que serão comentadas) e um elenco decente, isto sem cair na armadilha da pretensão que muitas outras produções de baixo orçamento cometem. Contrariando quem não botava fé, a criticas foram melhores que o esperado e as vendas forma excelentes, mantendo Bookwalter no jogo até hoje, seja como diretor, mas principalmente como produtor.

O filme começa com um viciado procurando alguma coisa para ficar muito louco e o traficante recomenda uma nova droga que chegou no pedaço, a tal Ozone. O traficante já avisa: “Essa coisa vai arrebentar com sua cabeça…” e o tal viciado pega pra dar um tapa e experimentar o novo barato, só que logo de cara o maluco toma uma overdose e a coisa literalmente arrebenta com a cabeça do rapaz – pelo menos não pode alegar que não foi avisado.

Na cena seguinte sabemos que o barão das drogas DeBartolo está desaparecido e acompanhamos uma dupla de policiais, Eddie Boone (James Black de O Soldado do Futuro) e Mike Weitz (Tom Hoover, colaborador habitual de Bookwalter), esperando no carro a aparição do perigoso traficante Richter (Bill Morrison, que além de atuar foi responsável pelas miniaturas e maquiagem do filme) para prendê-lo e talvez conseguir uma pista do paradeiro de DeBartolo. Mas na hora H o informante da dupla trai os policiais por um pouco de Ozone e Richter é alvejado na troca de tiros. O informante foge e é perseguido por Mike enquanto Boone fica com o traficante.

As coisas começam a engrossar quando Richter antes de morrer ainda tem forças suficientes para injetar uma dose de Ozone em Boone e Mike morre depois de encontrar em um galpão uma horda de viciados na droga que acabaram se tornando zumbis deformados. O obeso delegado fica pau da vida com o fracasso da operação com o desaparecimento de Mike e resolve suspender Boone da polícia. Além dos problemas profissionais, Boone passa a ter pesadelos como resultado da droga injetada na operação frustrada: tais pesadelos são amplificados gradativamente até se tornarem alucinações.

Boone volta ao local do crime e começa a investigar por conta própria o que aconteceu com seu parceiro e encontra o grupo de zumbis, só que, ao contrário do que aconteceu a Mike, os viciados reconhecem Boone como um irmão deles. Assustado, o policial sai correndo e vai até a casa de Mike, onde é abordado por um homem que tenta aplicar mais uma dose de Ozone nele. Claro que Boone reage e atira no homem, que é atropelado e em seguida morre quando um carro passa por cima de sua cabeça. Esta cena é particularmente engraçada porque é filmada em um largo estacionamento e os carros que pegam o suspeito passam exatamente no local onde ele está. Pois é, baixo orçamento é isso aí.

O filme começa a viajar a partir de agora: chateado com os acontecimentos, Boone vai tomar um porre em um boteco e pede para ir ao banheiro. Na volta, é agarrado por todos as pessoas que estão lá e o garçom fortão anuncia que vai haver uma luta naquela noite e Boone é um dos combatentes.

Então o policial é levado para uma gaiola onde deverá lutar com um cara que tem o dobro de seu tamanho até a morte, usando serras como armas, para uma plateia de viciados ensandecidos por sangue. Boone sofre, mas ganha e consegue fugir novamente, agora por um duto de ar. O policial passa a questionar sua própria sanidade e, a partir daí, o filme concentra esforços na busca pela verdade por parte de Boone, mas sempre viajando muito, inclusive com a aparição de uns tipos de viciados que pode se classificar como Cenobitas depois da dengue, onde podia rolar até um processinho de Clive Barker por plágio.

J.R. Bookwalter, que não só dirigiu como também escreveu, produziu, editou e ainda assinou a fotografia, só faltou fazer chover com o pouco de dinheiro que tinha: os efeitos das bolhas de pus ficou excelente, não devendo nada a filmes contemporâneos de body horror como Scanners de David Cronenberg. A caracterização dos “drogados cenobitas” ficou muito boa também; o mesmo já não se pode dizer da maquiagem dos zumbis, dos ferimentos na cena da luta e principalmente dos objetos cenográficos e cenários, pois nitidamente as armas utilizadas são de plástico e a delegacia parece qualquer coisa, menos uma delegacia. Claro que levando em consideração o orçamento, dá para ser condescendente. E nas palavras do próprio Bookwalter o filme não funcionaria bem se não fosse a trilha sonora feita por Jens C. Moller (em seu único trabalho registrado), que deixa a produção com um ar mais profissional e interessante.

A direção é cheia de estilo, com ângulos de câmera bem trabalhados e boas técnicas de filmagem. Nota-se muito a vontade de Bookwalter em fazer um bom filme e consequentemente essa empolgação é transferida para o público. Há algumas poucas falhas na edição, alongando demais certas cenas que servem para preencher espaços em branco do roteiro, mas, mesmo assim, ainda é um filme curto com apenas 83 minutos que não cansa a vista e nem dá sono no espectador. Outro ponto positivo deve ser dado ao elenco que corresponde ao nível da direção: alguns atores inclusive têm mais de um papel, e atua sem exageros ou de maneira comprometedora, tendo em James Black o seu maior nome.

O maior problema é o que sobra em estilo de filmagem falta no roteiro que cria algumas situações com o detetive Boone muito diferentes umas das outras e amarra com uma linha muito fina, o que nem sempre funciona e gera grandes buracos. Os diálogos ficam muito mal trabalhados a medida que o roteiro passa a precisar de mais profundidade, como no encontro de Boone com o chefão e a luta na gaiola. O final apressado também é uma pisada de bola que Bookwalter poderia ter evitado.

Se você gostou da ideia ou já conhecia o filme e curtiu, agora vem a parte que vai te fazer morrer de inveja, pois o DVD comemorativo de 10 anos lançado em 2003 e ainda disponível nos Estados Unidos que será lançado no Brasil no fim da era de aquário, tem todo o tipo de extras que fazem água na boca de qualquer fã da película: totalmente remasterizado em som 5.1, DUAS faixas de comentário do diretor Bookwalter e de James Black, trilha sonora isolada, making of com 30 minutos de duração e vários outros featuretes. Mais recentemente, em 2020, também disponível em Blu-ray (e não faço ideia de como algo filmado diretamente em VHS consegue ser remasterizado em alta definição) com toda outra sorte de material bônus. Nada mal para um filme de 3.500 dólares, não é verdade?

Para concluir, eu acredito que qualquer pessoa que pretende seguir a profissão de cineasta um dia ou mesmo fazer seus próprios filmes por conta própria só por diversão deveria assistir Ozone e produções semelhantes, pois é a prova real de que bons filmes são feitos com criatividade, talento e competência dos envolvidos e não dinheiro. Afinal hoje em dia este orçamento não paga nem o açúcar do café de uma equipe técnica, quanto mais gerar um filme inteiro que prende a atenção e consegue superar as suas limitações. Guilty pleasure sem dúvida nenhuma. Contra todos os problemas é um excelente filme B que pode figurar na sua prateleira sem constrangimento.

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