Mutant Blast (2018)

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Mutant Blast
Original:Mutant Blast
Ano:2018•País:Portugal, EUA
Direção:Fernando Alle
Roteiro:Fernando Alle, Adrián Cardona, Alex Duda
Produção:Fernando Alle, Michael Herz, Lloyd Kaufman
Elenco:Maria Leite, Joaquim Guerreiro, Pedro Barão Dias, João Vilas, Joaquim Guerreiro, Vanda R. Rodrigues, Sofia Reis, Clemente Santos, Mário Lobo, Fernando Ramos

Para o público acostumado ao cinema português mais tradicional e contemplativo, Mutant Blast (2018) surge como um verdadeiro soco no estômago — ou melhor, um braço arrancado em meio a litros de sangue artificial. O diretor Fernando Alle não apenas fez uma estreia impressionante nos longas-metragens, como também entregou aos infernautas uma obra que abraça o grotesco com sofisticação técnica e uma paixão pelo gênero raramente vista fora do circuito alternativo. Produzido pela Alle Films em parceria com a lendária Troma Entertainment, o longa mergulha sem qualquer vergonha na estética do excesso, misturando terror, ficção científica e comédia grotesca em uma explosão de gore artesanal e humor absolutamente sem noção.

Para quem ainda não conhece, a Troma Entertainment é uma produtora e distribuidora independente fundada em 1974 por Lloyd Kaufman e Michael Herz. Considerada o estúdio independente mais antigo em atividade, a empresa se tornou referência no universo dos B-movies, do terror trash, do gore exagerado e das paródias politicamente incorretas. Entre seus maiores clássicos está The Toxic Avenger (1984).

A premissa é simples: após experiências militares secretas falharem de maneira catastrófica, o mundo mergulha em um apocalipse zumbi. A sobrevivência da humanidade passa a depender de um improvável trio de heróis tentando escapar de uma Lisboa devastada. Enquanto fogem de uma célula militar implacável, o grupo encara uma situação ainda mais absurda quando o governo decide lançar bombas nucleares para conter a infecção. O problema? A radiação não mata os sobreviventes — ela provoca mutações instantâneas e bizarras, fundindo DNA humano e animal. Pelo caminho surgem criaturas delirantes, incluindo uma lagosta gigante de smoking que fala francês e um golfinho mestre de katanas.

Inspirado diretamente pelo espírito anárquico de The Toxic Avenger (1984) e pelos primeiros trabalhos de Peter Jackson — como Bad Taste (1987) e Braindead (1992) — além da trilogia The Evil Dead (1982, 1987 e 1992), de Sam Raimi, Mutant Blast transforma suas limitações orçamentárias em combustível criativo. Aqui, o CGI barato dá lugar ao esplendor dos efeitos práticos: litros de sangue falso, criaturas grotescas e mutações palpáveis que devolvem textura e fisicalidade ao horror trash. Cada desmembramento parece ter peso; cada mutante carrega aquele charme artesanal que o cinema digital raramente consegue reproduzir.

E é justamente nessa “bagaceira” assumida que o filme encontra sua identidade. Fernando Alle entende perfeitamente as regras do cinema B: lógica é secundária, diversão é prioridade. O roteiro propositalmente simples — envolvendo experimentos científicos desastrosos, militares, fugitivos e criaturas bizarras — serve apenas como desculpa para uma sequência interminável de absurdos visuais e situações hilariamente grotescas. O timing cômico funciona surpreendentemente bem, equilibrando o ridículo e o gore com uma honestidade rara.

O reconhecimento desse trabalho também veio no circuito de cinema fantástico. Durante o Fantaspoa (Festival Internacional de Cinema Fantástico de Porto Alegre) 2019, Mutant Blast conquistou dois importantes prêmios na competição ibero-americana: Melhor Ator para Pedro Barão Dias e Melhor Argumento/Roteiro para Fernando Alle. A premiação reforça como o longa conseguiu ir além do simples “trash pelo trash”, encontrando personalidade própria dentro do cinema de gênero contemporâneo.

Mais do que uma homenagem à cultura trash, Mutant Blast chama atenção por transportar essa estética tipicamente norte-americana para cenários portugueses. Entre periferias urbanas e paisagens rurais de Portugal, o filme constrói uma identidade singular, provando que o cinema fantástico lusitano pode ser agressivo, caótico e visualmente extravagante sem perder autenticidade.

No fim, Mutant Blast não quer assustar nem ser levado a sério. É uma carta de amor ao cinema alternativo, ao espírito “faça você mesmo” e à liberdade criativa que nasce do exagero. Politicamente incorreto, niilista, repugnante e incrivelmente divertido, o filme de Fernando Alle já nasce com status de cult entre os fãs do splatter contemporâneo.

Perfeito para assistir com amigos, uma bebida na mão e total disposição para abraçar o absurdo.

Mutant Blast está disponível no Brasil em plataformas como o Prime Video e no Google Play Filmes.

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