![]() Sangue Possuído
Original:Spirit in the Blood
Ano:2024•País:Alemanha, Canadá Direção:Carly May Borgstrom Roteiro:Carly May Borgstrom Produção:Noah Segal Elenco:Summer H. Howell, Sarah-Maxine Racicot, Michael Wittenborn, Greg Bryk, Sarah Abbott, Lyla Elliott, Ariadne Deibert, Michelle Monteith, Kimberly-Sue Murray, Matt Gordon |
“Ela é uma semente ruim. É porque não tem uma figura paterna adequada.”
Se você cresceu em uma família religiosa, tenho certeza de que já ouviu algo semelhante. Eu nunca passei por isso (obrigado, pai e mãe), mas tenho vários conhecidos que enfrentaram — ou ainda enfrentam — diariamente o desafio de acordar e não poder ser quem são, devido à retaliação de terceiros. Colegas homossexuais que precisam esconder seus relacionamentos, amigas transsexuais que se privam da própria identidade, pessoas agênero que são ridicularizadas por expressarem seus pensamentos; e mais uma infinidade de tragédias. Para as mulheres, mais do que para qualquer outro grupo minoritário, a situação parece ser sempre a pior possível.
São constantes os casos de violência, física ou verbal, contra as mulheres. De fato, ao estudarmos minimamente a história do nosso mundo, independentemente da sociedade ou do período escolhidos, a situação sempre se revela semelhante: mulheres sendo subjugadas, desrespeitadas e oprimidas. E é impossível não sentir pena de quem imagina que a situação atual seja diferente. Não é necessária muita pesquisa para descobrir que os abusos seguem constantes, e muito provavelmente VOCÊ conhece uma mulher que sofreu ou sofre essas mazelas.
E, para quem duvida dos fatos expostos: por gentileza, abra os olhos para a realidade.
É justamente sobre esse assunto que se constrói a narrativa de Sangue Possuído, assinado por Carly May Borgstrom. No filme, um grupo de garotas forma uma espécie de resistência contra um perseguidor monstruoso, que parece habitar a floresta local e raptar meninas inocentes. Juntas, elas enfrentam não somente esse terror físico bizarro — a criatura é retratada de maneira supercriativa —, como também o julgamento de uma comunidade religiosa fortemente alicerçada no patriarcado.
Durante o início da sessão, pensei que se tratava de um simples folk horror. Todas as configurações estavam prontas: uma cidadezinha pequena, um grupo de adultos crentes em forças superiores e descrentes dos relatos dos próprios filhos, além da constante presença da natureza e de todas as suas magias e mistérios. Não demorou para que o filme ultrapassasse minhas expectativas, pincelando uma trama muito mais interessante do que aquela imaginada inicialmente. As personagens são o ponto focal da produção, e as performances de Summer H. Howell e Sarah-Maxine Racicot, especificamente, sustentam o elenco.
Em sua essência, Sangue Possuído retrata o amadurecimento de uma dupla de crianças. As meninas crescem e começam a enxergar o mundo real para além dos contos de fada e histórias em quadrinhos. É um lugar visceral, nojento e, acima de tudo, perigoso. A todo instante, elas — e, subsequentemente, toda a comunidade envolvida — são convencidas de que os demônios estão abaixo da terra e no pecado, na carne fraca ou no pensamento transgressor; com o desenrolar dos eventos, percebemos que o mal é algo muito mais tangível e brutal. Ele existe para além dos livros antigos e das missas dominicais. Paradoxalmente, há também toda uma apologia à beleza da vida: sobre como as coisas podem ser boas e justas, se você tiver coragem de lutar por elas.
Infelizmente, todo esse excelente subtexto acaba sendo impactado por uma falta de urgência geral. É um filme monótono — e não de uma maneira positiva. Eu não teria problema algum com uma produção mais lenta, desde que sentisse que a direção fosse capaz de preencher as lacunas de ação com algo tão visualmente impactante quanto a história que está sendo contada. Foram raros os instantes em que alguma composição visual conquistou minha atenção, e, por vezes, há uma falta de expressividade na situação geral vivenciada pelas personagens. É um filme pouco inventivo no tocante a som e imagem.
Ademais, considero Sangue Possuído uma grata surpresa. Não é um filme perfeito, mas sua mensagem é tão poderosa que, sem dúvidas, vale a pena ser conferido. Em um mar de produções altamente comercializáveis, mas que, no fim do dia, não possuem mensagens maiores do que jumpscares ou clichês seculares, este é um filme que tem algo muito importante a dizer para toda sociedade. Infelizmente, os elementos em tela deixam a desejar e podem afastar parte do público que deseja algo com mais “cara de terror”. Embora, sinceramente, eu seja incapaz de pensar em horror maior do que ser uma mulher neste mundo.





