![]() O Ninho do Terror
Original:The Nest Ano:2024•País:EUA Autor:Gregory A. Douglas•Editora: Tai Editora |
por Lucas Freitas
Quando se propôs a definir o gênero que o tornou famoso em seu livro Dança Macabra, Stephen King dividiu a experiência do terror em 3 categorias: terror, horror e repulsão. Esta última, que atua em um nível mais visceral e escatológico, geralmente é a consequência de algo (criatura ou situação) que nos provoca aquela ânsia de vômito, aquele desconforto que arrepia a pele, quase como se pudéssemos sentir pequenas patas pegajosas escalando nosso corpo. A sensação, enfim, que chamamos de nojo.
E nojo é uma emoção central que encontramos na leitura de O Ninho do Terror.
Publicado pela Tai Editora em 2024, como abertura da sua coleção Inferno, o romance de Gregory A. Douglas, pseudônimo do multiartista Eli Cantor (1913 – 2006), nos apresenta os desafios dos habitantes de Cape Cod, que se veem às voltas de uma infestação de baratas mutantes. Como se isso já não fosse ruim o bastante, as baratas desenvolveram também um apreço particular pela carne humana, o que as torna uma ameaça ainda pior do que as baratas comuns.
A partir daí, inicia-se um confronto pela sobrevivência onde, de um lado, teremos o grupo de humanos capitaneados pelo professor Peter Hubbard e, do outro, as baratas mutantes e sua fome hedionda.
O que a princípio pode parecer mais uma premissa estapafúrdia no gênero “ataque animal”, termina se revelando um verdadeiro banquete para os fãs do horror. Ciente do aparente absurdo de sua premissa, Douglas aumenta a aposta, abraçando o choque e o grotesco de suas baratas e recheando o livro com mortes brutais e nojentas, não poupando nada nem ninguém em sua trajetória, com descrições bastante gráficas do método de ataque dos insetos – e talvez seja este o grande atrativo deste livro. Fiel discípulo da tradição do pulp, o autor apresenta uma sequência quase ininterrupta de ação, onde mortes, fugas e mais mortes se alternam em tal velocidade que fisgam o leitor, que não tem tempo sequer para respirar. Não só isso, a força descritiva e da ação é tanta que o romance ganha um peso praticamente cinematográfico, lembrando bastante os filmes B dos anos 1960, quando um grupo de cientistas precisava se reunir para deter alguma ameaça radioativa.
Também é daqui que vem um outro aspecto bastante charmoso de O Ninho do Terror, seu exagero. Não falo aqui do exagero das mortes, que são, por si só, bastante exageradas, mas antes de algumas descrições de cenários ou reações e pensamentos de personagens que, contrabalanceando o horror grotesco e direto, parecem dotados de um exagero quase poético, tensionando a narrativa entre esses dois estilos que, aparentemente antagônicos, conseguem gerar um resultado bem interessante.
Sobre os personagens, é bem interessante ver como Douglas consegue criar seres que, longe de terem um desenvolvimento muito profundo (afinal, este não é o ponto aqui), tem suas características e identidades próprias de modo que conseguimos entender seus receios e medos e até sentir o peso de suas mortes. Alguns deles, claro, não passam de tropos e estereótipos, como o empresário rico que quer manter a cidade atrativa ou o velho marinheiro que é o pilar de sua comunidade, mas aqui, mesmo esses estereótipos tem sua função, desempenhando seu papel tal qual o esperado de personagens de um filme B.
De fato, acredito que essa seja a melhor forma de descrever a experiência de leitura de O Ninho do Terror. Para todos os efeitos, é como assistir a um bom filme B que, ciente de suas próprias limitações e forças, e não se levando a sério demais, faz o melhor para entregar aquilo que o público espera, e como resultado, nos entrega um maravilhoso espetáculo de horror repulsivo.
Agora, antes de encerrarmos, creio que é importante ressaltar também duas coisas sobre a edição brasileira do livro.
A primeira é o excelente projeto gráfico do livro, onde temos não só uma brochura que valoriza bastante a arte da capa, assim como páginas de fim de capítulo são apresentadas parcialmente devoradas ou mesmo tomadas pelas baratas. Pode parecer um detalhe pequeno, mas garante ao livro um charme e uma identidade própria, colocando-o em pé de igualdade, ou mesmo superioridade, com edições mais elaboradas de outras editoras.
O segundo ponto, e não menos importante, é o trabalho maravilhoso realizado pela Verena Cavalcante na tradução do livro. Aqui, a também autora ajuda a preservar e potencializar o ritmo frenético da história, tornando a leitura uma experiência peculiarmente prazerosa e gostosa, apesar da profusão de baratas e de cenas grotescas.
Portanto, se você busca por uma leitura divertida com o charme de um filme B, mas que vai te deixar tenso na beira da cadeira, fica aqui a recomendação de O Ninho do Terror.
Mas vá com o estômago preparado.
Em tempo, se você é um fã de cinema, em particular do cinema trash, essa premissa pode lhe parecer familiar. E, de fato, ela é, visto que este livro foi a base para o filme de 1988 The Nest (O Ninho do Terror), produzido pela Concorde, do lendário Roger Corman.



