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Vendemos Nossas Almas
Original:We Sold Our Souls
Ano:2026•País:EUA
Autor:Grady Hendrix•Editora: Intrínseca

No Mississipi dos anos 30, na encruzilhada das rodovias 61 e 49, um jovem músico encontra uma figura misteriosa e pede que afine seu violão. Após o encontro, o músico de talento mediano passa a ser reconhecido como uma referência do blues, compondo músicas com títulos como Crossroad Blues e Me and the Devil Blues. Esse músico, que morreu aos 27 anos, é Robert Johnson, um dos nomes mais influentes do blues, e reza a lenda que ele fez pacto com o diabo e vendeu sua alma para alcançar o sucesso. Todo esse mistério que permeia o sucesso e a vida de Johnson serviu de inspiração para o personagem Sammie Moore, do excelente Pecadores.

O rock, é claro, surgiu do blues, e a lenda de Johnson seguiu o gênero e suas ramificações. O blues era um ritmo malvisto pelos caucasianos da época por motivos óbvios, e a história do pacto de Robert Johnson só fez essa crença ficar mais forte, mas foi Jalacy Hawkins quem decidiu abraçar de vez a narrativa de “música do diabo”. Em suas apresentações usava objetos cenográficos e vestimentas que remetiam à feitiçaria e vodu; caveiras enfeitavam o palco enquanto Hawkins performava seu hit de sucesso I Put a Spell on You.  Desde então, as bandas de rock e metal posteriores decidiram “sim, se vocês acham que temos pacto com Satanás, então vamos entregar a vocês um entretenimento digno do inferno”. Rolling Stones com Sympathy for the Devil, Iron Maiden com The Number of the Beast e seu mascote Eddie, a banda Coven com um álbum todo dedicado ao ocultismo, e não podemos deixar de citar o eterno príncipe do inferno Ozzy Osbourne e o Black Sabbath. Todos esses citados e muitos mais se divertiram e se divertem com a ideia de que “rock é coisa do diabo e corrompe os jovens”, enquanto os bons cristãos traem, mentem e fazem as maiores atrocidades, mas ficam assustados com chifrinhos feitos com as mãos.

Dito isso, Grady Hendrix decide brincar mais um pouco com esse (pre) conceito em Vendemos Nossas Almas, publicado no Brasil pela editora Intrínseca.

Desde adolescente Kris sabia o que queria: ser uma guitarrista. Passou inúmeros dias tentando tirar Iron Man, do Black Sabbath, na guitarra e, após muito sangue, suor e lágrimas, conseguiu. Dali para frente, nada mais impediu Kris de seguir seus sonhos, e ela e seu amigo Terry Hunt fundaram a Dürt Würk. 34 anos depois, a talentosa guitarrista é agora recepcionista de um hotel, tendo que aguentar calada bêbados mijando no hall e seu irmão policial sendo um babaca.

Tudo muda quando descobre que a persona intitulada Rei Cego voltará a fazer shows após um período de hiato, prometendo um festival profano sem precedentes. Isso deixa Kris em alerta e traz diversos sentimentos à tona, pois o aclamado músico é ninguém menos que seu ex parceiro de banda Terry Hunt, o responsável por destroçar seus sonhos e transformar sua vida em uma desgraça. Como se a volta do inominável não fosse o suficiente, pessoas do passado de Kris são brutalmente assassinadas, e tudo indica que o culpado por trás de tudo é justamente Terry. O que começou como uma estranha coincidência logo vira uma sanguinolenta estrada com ameaças de morte a cada quilômetro.

Logo que começamos a leitura, algo salta aos olhos imediatamente: os nomes dos capítulos. Quem ouve metal vai reconhecer diversos álbuns do gênero nomeando os capítulos, desde bandas como Iron Maiden, Slayer e obviamente Black Sabbath até Amon Amarth. Curiosamente, um dos capítulos tem o nome de um álbum de Dolly Parton, mas existe um motivo para isso – sem spoilers, mas é divertido perceber que, dentre tantos álbuns do metal, temos ali no meio um de Dolly Parton. Além desse bem pensado detalhe, é claro que a música é o sistema nervoso central da obra. Grady Hendrix teve todo o cuidado de falar da origem da Dürt Würk, desenvolver uma mitologia fantástica por trás do álbum nunca lançado (em uma clara referência às obras de Tolkien, como alguns fãs devem perceber durante a leitura), com as letras das músicas da antiga banda de Kris sendo pontos-chaves na trama.

Uma coisa que o autor sempre dá uma atenção especial é no desenvolvimento de personagens, mesmo os secundários, assim como aconteceu em Manual das Donas de Casa Caçadoras de Vampiros. Aqui, novamente, todos são muito bem trabalhados, até mesmo os que aparecem por apenas uma dúzia de páginas. Seus motivos, argumentos e ações são explicadas e plausíveis, de modo que fica difícil ter raiva de algum personagem por tomar decisões burras. Isso não existe em Vendemos Nossas Almas. Apesar do pano de fundo de horror sobrenatural, todos os diálogos e decisões parecem algo do cotidiano real, até mesmo aquelas que parecem uma grande loucura patrocinada por uma boa dose de ácido.

Os enredos dos livros anteriores do autor, em especial a parte que envolve o horror de fato, costumam ser mais simples (por exemplo o vampiro que mora ao lado, a amiga possuída), mas esse é mais elaborado, tanto pelo lado psicológico quanto pelo lado fantástico, transformando músicas em praticamente uma entidade. Entretanto, nesse livro Hendrix não fez muito uso de humor ácido e momentos tanto cômicos quanto desesperadores, pelo contrário. É uma de – se não a mais – suas obras mais sérias, bem focada no lado humano e nos prejuízos que certas escolham causam, apesar de brincar com esse estereótipo de que metaleiros tem pacto com o diabo. Cenas gráficas e violentas estão bem presentes, como de costume, mas sem o alívio cômico. Esses momentos são tão brutais quanto uma música do Cannibal Corpse.

Vendemos Nossas Almas é uma grande homenagem ao rock e metal, cheio de simbolismos criticando a impiedosa indústria musical e fazendo uma grande ode aos sobreviventes que permanecem firmes e não se vendem (e nem às suas almas) ao sistema. Aqui, os verdadeiros dão literalmente o sangue pelo que acreditam.

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