![]() Someone's Daughter
Original:Someone's Daughter
Ano:2026•País:Canadá Direção:Wiebke von Carolsfeld Roteiro:Wiebke von Carolsfeld, Doug Taylor Produção:Frederic Bohbot, Kacim Steets Elenco:Pascale Bussières, François Arnaud, Peter Outerbridge, Michael Greyeyes |
Quando a verdade se torna um território de incertezas
Poucas situações colocam em xeque os limites entre justiça e moralidade de forma tão intensa quanto aquelas em que a verdade parece escapar ao alcance da lei. Afinal, absolver alguém em um tribunal não significa necessariamente inocentá-lo aos olhos da consciência. É justamente dessa tensão que parte Someone’s Daughter, novo longa da cineasta germano-canadense Wiebke von Carolsfeld, que transforma um thriller de sobrevivência em uma reflexão sobre culpa, responsabilidade e os dilemas éticos da profissão jurídica.
Diretora, roteirista e montadora, Von Carolsfeld construiu uma carreira marcada pelo interesse em personagens moralmente complexos e relações humanas ambíguas. Desde Marion Bridge (2002), vencedor do prêmio de Melhor Primeiro Longa Canadense no Festival Internacional de Cinema de Toronto, até filmes como Stay (2013) e The Saver (2015), seu cinema privilegia dramas intimistas, nos quais o peso das escolhas importa mais do que respostas definitivas. Em Someone’s Daughter, essa abordagem ganha contornos de suspense psicológico, mantendo o foco nos conflitos morais entre seus protagonistas e abrindo mão da ação.
A história acompanha Sam (Pascale Bussières), uma respeitada advogada criminalista que desperta em uma ilha isolada ao lado de Paul (François Arnaud), um antigo cliente acusado de agressão sexual que ela ajudou a absolver anos antes. Ambos foram sequestrados pelo pai da suposta vítima de Paul e são obrigados a atravessar uma região remota da natureza canadense em busca de sobrevivência e passam a conviver sob circunstâncias extremas.
À medida que a jornada avança, o comportamento de Paul faz Sam revisitar o caso que marcou sua carreira, levando-a a questionar se a vitória obtida nos tribunais correspondia, de fato, à verdade. A luta pela resistência na mata logo se mistura a um impasse ético constrangedor, colocando a protagonista diante de uma decisão que nenhuma advogada espera enfrentar.
Emoldurado pelas paisagens imponentes e inóspitas do norte do Canadá, o filme transforma o isolamento em um mecanismo de suspense. A fotografia é pouco ousada e o filme segue sempre em tons sóbrios e desaturados. A natureza funciona como extensão do estado psicológico dos personagens, eliminando qualquer possibilidade de fuga, física ou moral. Confinados naquele espaço hostil, Sam e Paul precisam enfrentar não apenas os perigos do ambiente, mas também as consequências das escolhas que os uniram.
A relação entre ambos começa marcada pelo estranhamento e pelo desespero diante da situação em que se encontram, mas logo passa a insinuar uma aproximação romântica. Sam, uma mulher significativamente mais velha que Paul, demonstra desconforto com o flerte do antigo cliente. Ainda assim, após compartilharem uma bebida na cabana onde encontram abrigo, a resistência da advogada parece desaparecer de forma meio repentina. É justamente nesse ponto que o filme encontra sua maior fragilidade. A construção dessa intimidade acontece de maneira apressada, sem desenvolver convincentemente o caminho emocional que justificaria essa mudança na dinâmica entre os personagens.
Someone’s Daughter não pretende julgar seus personagens. Seu foco está justamente no território das ambiguidades, onde a legalidade deixa de ser suficiente. A opção de Von Carolsfeld por um suspense minimalista, sustentado por poucos personagens, ritmo lento e tensão psicológica, se mostra coerente, mas acaba caindo em certa monotonia. Em vez de apostar em reviravoltas ou alguma sequência de ação, o filme concentra o suspense na incerteza, convidando o espectador a compartilhar as dúvidas de Sam. A relação entre os protagonistas nem sempre alcança a densidade pretendida, mas a diretora demonstra sensibilidade ao explorar o tema da violência contra a mulher e as zonas cinzentas onde justiça e verdade deixam de caminhar lado a lado.
Essa crítica faz parte da cobertura do Festival Internacional de Cinema Fantasia.




