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Sour Minnows
Original:Sour Minnows
Ano:2026•País:EUA
Direção:Harrison Atkins
Roteiro:Harrison Atkins
Produção:Kate Banford, Mel Barnes, Allison Bunce, Sarah Winshall
Elenco:Suzanna Son, David Brown, Chase Williamson, Phil Burgers

A realidade perde o sentido

Poucos cineastas contemporâneos redefiniram o surrealismo cinematográfico de maneira tão influente quanto David Lynch. Em obras como Twin Peaks (1990–2017), Cidade dos Sonhos (2001) e Império dos Sonhos (2006), o diretor norte-americano dissolveu as fronteiras entre sonho, memória e realidade, criando universos onde o cotidiano convive naturalmente com o inexplicável. Em seu cinema, o mistério raramente funciona como um quebra-cabeça a ser solucionado; antes, manifesta-se como uma experiência sensorial capaz de desestabilizar tanto os personagens quanto o espectador. Essa herança permanece viva em parte do cinema independente recente, em filmes como Under the Silver Lake (2018), de David Robert Mitchell, e I Saw the TV Glow (2024), de Jane Schoenbrun, que transformam paranoia, crise de identidade e cultura contemporânea em narrativas marcadas pela estranheza e pela sensação constante de deslocamento.

Sour Minnows, novo longa escrito e dirigido por Harrison Atkins, dialoga diretamente com essa tradição. Exibido em estreia mundial no Festival Internacional de Cinema Fantasia, o filme representa um novo passo na trajetória do cineasta, conhecido por trabalhos como Lace Crater (2015), em que o absurdo, o humor desconfortável e personagens emocionalmente desencontrados já ocupavam papel central. Aqui, Atkins radicaliza essas características ao construir um suspense psicológico que abandona qualquer compromisso com a lógica convencional.

A narrativa acompanha Ricky (David Brown) e seu colega de apartamento, Tepper (Chase Williamson), cuja rotina muda radicalmente após presenciarem uma cena impossível de explicar: seis homens lambendo sensualmente o asfalto de uma rua vazia em Los Angeles. A partir desse momento, o tempo perde estabilidade, as lembranças deixam de ser confiáveis e as relações pessoais passam a adquirir significados inesperados.

Ricky mantém uma relação de contornos indefinidos com Aura (Suzanna Son), uma jovem cinéfila que compartilha de sua sensibilidade e de seu aparente deslocamento diante do mundo. A conexão entre os dois é estranha. Em determinado momento, Ricky simplesmente entra no carro e dirige sem destino até perceber que, de forma quase inconsciente, chegou à casa dela. Como se fosse guiado por um impulso que nem ele próprio compreende, o personagem vaga pelo filme em permanente suspensão existencial, incapaz de se ancorar na realidade. Essa sensação se intensifica quando ele e Tepper se sentam para assistir a um filme e acabam mergulhando em uma conversa sem pé nem cabeça, incapazes de afirmar se realmente o viram ou se a experiência pertence apenas à memória difusa de ambos. Atkins transforma acentua a incerteza, fazendo da confusão mental de Ricky um reflexo de uma existência que já não distingue lembrança, imaginação e presente.

No centro desse universo está “A Coisa Amarela“, uma entidade enigmática capaz de tomar posse de corpos humanos, apagando identidades e embaralhando qualquer noção objetiva da realidade. A criatura jamais recebe uma explicação definitiva, funcionando menos como ameaça concreta do que como manifestação do colapso perceptivo que domina os personagens. O resultado é um filme deliberadamente letárgico, profundamente sensorial e construído a partir de fragmentos narrativos que reproduzem o estado mental de seus protagonistas.

Embora a influência de Lynch seja evidente, Sour Minnows encontra personalidade própria ao combinar surrealismo, humor desconcertante e uma atmosfera de permanente instabilidade. Se compartilha com Under the Silver Lake o impulso de transformar um acontecimento aparentemente banal em uma espiral de obsessões e significados ocultos, aproxima-se de I Saw the TV Glow ao sugerir que a realidade pode se desfazer silenciosamente diante dos personagens, sem que eles consigam distinguir o que é memória, fantasia ou experiência concreta.

Mais do que propor um enigma a ser solucionado, Atkins está interessado em investigar como a percepção molda nossa relação com o mundo. Sour Minnows convida o espectador a experienciar o desconforto lisérgico de uma juventude apática e consumida pela modernidade elevada a níveis tóxicos, em um filme onde identidade, memória e realidade permanecem em constante mutação e angústia.

Essa crítica faz parte da cobertura do Festival Internacional de Cinema Fantasia.

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