![]() A Odisseia
Original:The Odissey
Ano:2026•País:EUA, UK, Islândia, Canadá, Nova Zelândia Direção:Christopher Nolan Roteiro:Christopher Nolan, Homero Produção:Christopher Nolan, Emma Thomas Elenco:Travis Scott, Matt Damon, Robert Pattinson, Corey Hawkins, Jarreth J. Merz, Niko Nicotera, Tom Holland, Elliot Page, Shiloh Fernandez, Rafi Gavron, Anne Hathaway, Elyes Gabel, Iddo Goldberg, Jamie Harris, John Ales, Raimy Lang, John Leguizamo, Mia Goth, Charlize Theron, Zendaya, Jon Bernthal, Lupita Nyong'o |
Uma das literaturas que eu mais trouxe em pauta nas minhas aulas é a composição de Homero, tanto a Ilíada quanto Odisseia, além da Eneida, de Virgílio. Antes de embarcar nos primeiros conceitos da Literatura Portuguesa, eu começava falando sobre a Guerra de Troia e brincava de responsabilizar Helena pelo nascimento da “última flor do Lácio, inculta e bela“. Ora, ela fora o estopim da batalha final ao fugir/ser raptada por Páris e gerar todo o conflito e a derrocada da cidade. Pressentindo o fim, a profetisa Cassandra teria avisado Eneias para que ele fosse embora antes da destruição de Troia para que seu filho, Ascânio, fundasse Alba Longa, local de nascença de Rômulo e Remo, fundadores de Roma. Claro que estamos falando da História a partir de textos que atravessaram gerações pela oralidade, e que sofreram alterações como numa brincadeira de telefone sem fio. Até hoje ainda há discussões sobre as criações de Homero, se realmente foram escritas por ele e quais fatos podem ser extraídos de seus poemas.
Assim, é compreensível que o ponto de partida do longa épico de Christopher Nolan seja um contador de histórias, um bardo, interpretado por Travis Scott. Ele não está narrando Odisseia, mas os feitos de um herói, tal qual Odisseu (Matt Damon) irá relatar para Calypso (Charlize Theron), enquanto busca informações de seu próprio passado, narrando momentos da Guerra de Troia até suas próprias reflexões sobre ações passíveis de serem questionadas. Rei de Ítaca, Odisseu desapareceu na volta da batalha vencida, deixando sua esposa Penélope (Anne Hathaway) sob a ameaça de inúmeros pretendentes, com destaque para o inconveniente Antinous (Robert Pattinson).
Acreditando que Odisseu esteja vivo, seu filho Telêmaco (Tom Holland) viaja com o amigo Mentor (Ryan Hurst) para encontrar Menelau (Jon Bernthal), rei de Esparta, para descobrir informações sobre o paradeiro de seu pai, dez anos após o fim da Guerra, sem saber que Antinous está preparando uma emboscada. Enquanto isso, a narração de Odisseu permite que saibamos como terminou a Guerra de Troia, e acompanhe sua jornada de volta, com a presença ilusória de Atena (Zendaya), passando por perigos como o gigantesco ciclope Polifemo, os gigantes Laestrigonianos, descritos na literatura como canibais, a terrível bruxa Circe (Samantha Morton) — um dos momentos mais aterrorizantes do longa ao lado dos mortos-vivos de Hades — e as sereias.
Essa nova adaptação de Odisseia se constrói nessas aventuras e conflitos, com excelentes recursos visuais e atuações. É claro que, como boa parte do que se conhece de História Antiga, deve-se às escolhas de Nolan. O controverso cineasta não seguiu à risca a literatura original e fez uma mescla com Eneida, Ilíada e sua próprias escolhas. Assim como qualquer contador de histórias, há exageros e alterações para que sua obra tenha personalidade e não seja apenas um retrato fiel do que o público conhece. A própria lenda do Cavalo de Troia não está em Odisseia de Homero, e Nolan optou por deixá-lo enterrado parcialmente na areia em vez de representá-lo nos padrões populares, sem esquecer das mortes de soldados em seu interior para dar veracidade ao acontecimento.
Também optou por apresentar os deuses apenas como manifestações sobrenaturais, à exceção de Atena, que depois se revela como uma das cidadãs de Troia. Fez alterações no ato final, na própria batalha claustrofóbica e na resolução ambígua, e deixou de fora o modo como Odisseu sai da prisão psicológica da apaixonada Calypso. Essas mudanças serviram de combustível para os críticos de Nolan, que já torceram o nariz pela escolha da atriz que interpreta Helena (Lupita Nyong’o), assim como o sacrifício de Sinon, na interpretação de Elliot Page. Dentro das escolhas de elenco, eu só não gostei de Jon Bernthal ter assumido Menelau com seus trejeitos de Justiceiro.
As várias histórias que se entrelaçam em A Odisseia, entre idas e vindas, flashbacks e narrações, é o que se deve enaltecer no longa de Nolan, além de seus aspectos técnicos como a edição dinâmica de Jennifer Lame e os efeitos práticos na modelagem assustadora de Circe. Reclamar dos “fatos históricos“, dos palavrões modernos ou até mesmo da escolha do inglês como língua principal é uma bobagem como a das pessoas que questionam o relato de um amigo que teria visto algo incrível: é a visão dele sobre o acontecimento, a partir de sua própria bagagem e gosto pessoal.
Nolan mostrou que quem conta um história pode redefinir a própria História. Atuando como bardo de uma narrativa fantástica, você pode até questionar o que está sendo dito, mas também pode se maravilhar com o modo como foi dito.






