![]() Unholy Night
Original:Unholy Night
Ano:2026•País:Canadá Direção:Michael Gabriele Roteiro:Michael Gabriele Produção:Michael Gabriele, Jason Levangie, Jenna MacMillan, Marc Tetreault Elenco:Marc Bendavid, Shailene Garnett, Alissa Mahar, Morgan Saunders, Ellen David, Toni Ellwand, John Ghiz, Ron Lea, David Light |
O Natal em que os mortos voltaram para a ceia
O cinema de terror sempre encontrou no Natal um terreno fértil para subverter símbolos de união, afeto e tradição. Das investidas slasher dos anos 1980 às releituras mais recentes da data (você pode encontrar minha lista de terror natalino aqui), poucas celebrações parecem tão convidativas para a presença do macabro quanto aquela em que famílias se reúnem para reviver antigas memórias. Afinal, poucas situações expõem tantas tensões reprimidas quanto uma ceia entre parentes. Em Unholy Night, longa de estreia de Michael Gabriele, essa ideia ganha contornos literais quando o passado simplesmente se recusa a permanecer enterrado.
Escrito, dirigido e editado por Gabriele, o filme transforma a tradicional véspera de Natal de uma numerosa família ítalo-canadense em um pesadelo grotesco, combinando humor ácido, gore e horror sobrenatural.
A narrativa acompanha Gino (Marc Benavid), um vendedor de tintas inseguro e constantemente diminuído pelos próprios familiares. O que já prometia ser mais um jantar repleto de críticas e constrangimentos, muda completamente quando sua avó, morta há três anos, reaparece inesperadamente à porta de casa. O reencontro dura poucos minutos antes de a matriarca iniciar uma violenta sequência de assassinatos. Logo, outros parentes falecidos também retornam, espalhando o caos por toda a vizinhança e obrigando Gino a sobreviver à própria reunião de família.
Unholy Night investe em planos longos, onde a câmera acompanha os personagens pela casa. Há momentos em que a fotografia usa ângulos de ponto de vista, deixando o longa mais interessante e divertido de assistir. Visualmente, o filme abraça o exagero. O sangue jorra em abundância, os ataques acontecem com criatividade e algumas sequências aproximam a obra do horror splatter mais cartunesco. Em determinados momentos, a violência lembra o espírito irreverente de Fome Animal (1992), de Peter Jackson, tanto pelo humor físico quanto pelo prazer evidente em transformar o grotesco em espetáculo.
Embora a premissa remeta imediatamente ao cinema de zumbis, Unholy Night evita repetir suas convenções mais conhecidas. Os mortos-vivos criados por Gabriele não são criaturas irracionais movidas apenas pelo instinto. Eles cozinham, cantam, conversam e mantêm muitos dos hábitos que possuíam em vida. Ao mesmo tempo, carregam consigo ressentimentos antigos, mágoas nunca resolvidas e um temperamento explosivo que transforma qualquer pequeno conflito em um banho de sangue. O resultado é uma criatura que parece existir em uma tradição própria, muito mais próxima de fantasmas incapazes de abandonar o passado do que dos zumbis popularizados por George A. Romero.
Essa escolha reforça o principal interesse do filme: utilizar o horror para discutir heranças e pendências familiares. Os mortos retornam porque ainda existe algo inacabado entre as gerações. Cada discussão durante a ceia funciona como um acerto de contas, onde ressentimentos, cobranças e traumas são transmitidos de pais para filhos, como uma maldição familiar impossível de interromper. O sobrenatural surge quase como uma extensão dos conflitos domésticos, transformando tensões emocionais em violência física.
Michael Gabriele também demonstra grande habilidade ao equilibrar diferentes registros tonais. Há momentos de humor genuinamente engraçados, especialmente na maneira como Gino tenta sobreviver ao desastre enquanto continua sendo tratado como o eterno fracassado da família. Seu protagonismo funciona justamente por fugir da figura tradicional do herói. Medroso, inseguro e constantemente humilhado, ele reage aos acontecimentos mais por desespero do que por coragem, tornando-se uma figura bastante simpática em meio ao caos.
Por trás da carnificina, Unholy Night encontra um núcleo emocional bastante expressivo. O relacionamento entre Gino e sua ex-namorada Rene (Shailene Garnett), que acaba envolvida no massacre, oferece ao protagonista uma oportunidade de confrontar não apenas os monstros ao seu redor, mas também sua dificuldade em demonstrar sentimentos, revisando seus comportamentos do passado. O desenvolvimento desse romance apresenta algumas soluções excessivamente sentimentais, o que sai um pouco do tom do filme, principalmente nos momentos finais, onde investe um pouco demais no drama do casal.
Mais do que uma divertida comédia de horror natalina, Unholy Night transforma a reunião de família em uma metáfora para tudo aquilo que atravessa gerações sem jamais desaparecer completamente. Explora a ideia de que problemas mal resolvidos, jamais são esquecidos completamente e que, sim, é preciso ter respeito pelos mais velhos. Entre litros de sangue, humor ácido e mortos que insistem em ocupar seus lugares à mesa, Gabriele entrega uma estreia inventiva, divertida e surpreendentemente sensível, demonstrando que alguns fantasmas familiares continuam muito vivos, principalmente no Natal.
Essa crítica faz parte da cobertura do Festival Internacional de Cinema Fantasia 2026.





