
![]() No Rest for the Wicked
Original:No Rest for the Wicked
Ano:2026•País:Dinamarca, Islândia, Ilhas Faroé Direção:Kasper Kalle Roteiro:Kasper Kalle, Rasmus Birch, Karl Heinreich Ulrichs Produção:Lars Bredo Rahbek Elenco:Egor Venned, Pilou Asbæk, Sofia Nolsøe, Jóhannes Haukur Jóhannesson, Kjartan Hansen |

Um romance queer, gótico e que resiste à morte
Ao longo da história do cinema, o horror gótico frequentemente encontrou no amor impossível uma de suas forças mais duradouras. Dos romances trágicos da literatura do século XIX às narrativas sobrenaturais contemporâneas, a morte raramente representa um ponto final para sentimentos que desafiam convenções sociais. Em No Rest for the Wicked, o diretor dinamarquês Kasper Kalle Skovsbøl recupera essa tradição para construir uma história em que o horror nasce menos da presença do sobrenatural do que da intolerância e do medo diante de um amor considerado proibido.
Exibido no Festival Internacional de Cinema Fantasia, o longa marca a estreia de Skovsbøl na direção de longas-metragens e adapta um conto publicado em 1884 por Karl Heinrich Ulrichs, advogado e jurista alemão considerado um dos primeiros defensores públicos dos direitos das pessoas homossexuais. . Em vez de tratar essa origem literária como simples curiosidade histórica, o filme a transforma em uma narrativa de forte carga emocional, onde romance, folclore e elementos fantásticos convivem em delicado equilíbrio.
Ambientada nas isoladas Ilhas Faroe em 1862, a história acompanha Baldur (Egor Venned), um jovem pescador que vive apenas com a mãe viúva, Ásla (Sofia Nolsøe Mikkelsen), em uma comunidade rigidamente guiada pela tradição cristã. Sua rotina muda com a chegada de Helge (Pilou Asbæk), um experiente baleeiro dinamarquês que desperta nele sentimentos até então desconhecidos. À medida que a relação entre os dois se aprofunda, Baldur passa a imaginar uma vida para além dos limites daquela pequena ilha, encantando-se tanto pelas histórias que Helge traz do continente quanto pelo próprio homem que as narra. Entre trocas de olhares e conversas minimalistas, que escalonam para algo muito maior do que uma amizade, o desejo entre Baldur e Helge cresce.
A tragédia, porém, interrompe esse breve momento de felicidade. Após um naufrágio vitimar Helge, Baldur, consumido pelo luto, faz um desesperado desejo para que o amante retorne. O pedido é atendido de forma perturbadora: Helge volta da morte, transformando-se em uma figura sobrenatural cuja existência passa a ser encarada pela comunidade como uma afronta à ordem divina. A partir daí, o filme abandona parcialmente o romance histórico para incorporar elementos do horror gótico vampiresco.
No Rest for the Wicked dialoga naturalmente com Amantes Eternos (2013), de Jim Jarmusch. Embora partam de premissas distintas, ambos utilizam figuras sobrenaturais para refletir sobre a permanência do amor diante da passagem do tempo e da morte. Enquanto Jarmusch transforma o vampirismo em metáfora para relações afetivas que sobrevivem aos séculos, Kalle faz do retorno dos mortos a materialização da recusa em aceitar que um amor interrompido possa simplesmente desaparecer. Em ambos, o horror permanece em segundo plano. O que sustenta essas histórias é a melancolia de personagens que insistem em preservar seus vínculos, mesmo quando o mundo os considera impossíveis. Há ainda uma delicadeza semelhante na forma como os diretores privilegiam silêncios, olhares e a contemplação em detrimento dos sustos convencionais, aproximando suas obras muito mais de um romance gótico do que de um filme de terror tradicional.
No longa, os mortos, os presságios e as manifestações fantásticas funcionam como extensões do sofrimento, da culpa e da repressão que cercam aquele relacionamento. O verdadeiro antagonista não é exatamente a criatura que retorna do túmulo, mas uma sociedade incapaz de aceitar uma forma de amor que desafia suas crenças. O diretor dinamarquês sabe filmar corpos e o sexo entre os dois homens é retratado com naturalidade e intimidade.
A atmosfera desempenha papel fundamental nessa construção. As paisagens das Ilhas Faroe, registradas pela fotografia de Jacob Møller, tornam-se parte ativa da narrativa. A névoa constante, os penhascos, o oceano revolto e a vegetação austera criam uma sensação permanente de isolamento.
As interpretações de Egor Venned e Pilou Asbæk sustentam com delicadeza essa relação. A química entre ambos convence justamente pela naturalidade com que transformam pequenos gestos em demonstrações de afeto, enquanto Sofia Nolsøe Mikkelsen evita reduzir Ásla ao papel de simples antagonista. Seu medo de perder o único filho acaba se sobrepondo ao preconceito e ao conservadorismo que inicialmente definem a personagem. Aos poucos, Ásla compreende que Baldur somente encontrará paz ao lado de Helge, mesmo que isso desafie tudo aquilo em que acredita.
Visualmente elegante e emocionalmente intenso, No Rest for the Wicked também se assemelha a dramas queer como Brokeback Mountain (2005) e All of Us Strangers (2023), obras igualmente interessadas em personagens cujos afetos são interrompidos pela perda, pela impossibilidade e pela exclusão. O resultado é um filme que utiliza o horror como linguagem para falar sobre desejo, luto e descoberta, construindo uma narrativa melancólica onde a verdadeira assombração não está nos mortos que retornam, mas na violência sofrida por aqueles que, mesmo em vida, jamais tiveram o direito de amar livremente.
No Rest for the Wicked foi um dos grandes destaques do Festival Internacional de Cinema Fantasia 2026, conquistando os prêmios de Melhor Direção para Kasper Kalle e Melhor Performance para Pilou Asbæk.
Essa crítica faz parte da cobertura do Festival Internacional de Cinema Fantasia 2026.


