![]() Trem Fantasma
Original:Dark Ride
Ano:2006•País:EUA Direção:Craig Singer Roteiro:Craig Singer, Robert Dean Klein Produção:Daniel Bickel, Michael Urbanski, Chris M. Williams Elenco:Jamie Lynn Sigler, Patrick Renna, David Clayton Rogers, Alex Solowitz, Andrea Bogart, Jennifer Tisdale, Brittney Coyle, Chelsey Coyle |
O infernauta que viveu a infância nos anos 70 ou 80 vai se lembrar dos parques de diversões itinerantes que eram instalados vez ou outra na cidade. Entre carrosséis e engenhocas que desafiavam as leis da física, havia sempre o clássico Trem Fantasma, ou Trem do Terror, em alguns casos. A atração consistia em carrinhos alinhados (como um trem) que percorriam túneis escuros dentro de um recinto que simulava um castelo ou casa mal-assombrada. Durante o trajeto, o visitante era surpreendido por gritos, uivos e gemidos, enquanto figuras animatrônicas – monstros, lobisomens, caveiras e fantasmas – surgiam de repente, tentando provocar sustos e apavorar os visitantes. O Trem Fantasma fazia parte dos pesadelos da criançada, que fazia fila para experimentar uma mistura de medo e diversão, que por sua vez alimentava as rodas de conversa por semanas.
Nos EUA, este tipo de atração era conhecido como “passeio no escuro” ou em inglês dark ride. Este foi o título (Trem Fantasma, no Brasil ou Dark Ride, no original) do slasher dirigido pelo cineasta americano Craig Singer em 2006. Singer, que mais tarde dirigiria Perkins’14 (2009), revisita uma premissa que não chega a ser comum, mas que já foi explorada algumas vezes no passado: o horror ambientado em parque de diversões. Um dos exemplos mais antigos é Carnival of Souls (1962), dirigido e produzido por Herk Harvey; outro, muito mais lembrado – talvez por ter um dos títulos mais criativos do gênero – é Pague Para Entrar, Reze Para Sair (The Funhouse, dirigido por Tobe Hooper em 1981).
O roteiro, assinado por Singer e Robert Dean Klein (de 6:45, 2021), acompanha um grupo de universitários em uma viagem de carro pelo interior do país. No caminho, eles resolvem visitar um parque de diversões decadente e invadir as instalações de uma atração chamada Trem Fantasma. O problema é que o local foi palco, dez anos antes, da morte violenta de duas adolescentes cujo assassino acaba de escapar do hospital psiquiátrico onde estava internado. O que deveria ser apenas uma aventura regada a sexo, drogas e uma fraçãozinha de rock and roll, transforma-se em uma chacina absurdamente sangrenta.
Singer tenta aproveitar os últimos respiros da onda slasher começada por Pânico, dirigido pelo cineasta Wes Craven em 1996. Contudo, já em 2006, tramas genéricas nas quais jovens bonitos são mortos um após o outro por um serial killer mascarado, não encantavam mais o público – nem mesmo os fãs mais dedicados do gênero, a menos que a produção fosse realmente diferenciada. Infelizmente, não é o caso aqui.
O roteiro de Singer, que está um pouco aquém daquilo que chamamos ironicamente de fiapo de roteiro, se resume aos personagens perambulando para lá e para cá e, vez ou outra, encarando o famigerado assassino mascarado – cabe um comentário aqui: sem dúvidas a máscara mais sem graça do gênero. Saudade dos sacos de papelão na cabeça.
Em relação ao desfecho pouco compreensível, Singer tenta ainda emplacar um plot twist nada convincente, que soa mais como uma tentativa desesperada (e fracassada) de tornar a trama mais interessante do que ela de fato é. Alerta de Spoiler: descobre-se que são dois assassinos, não apenas um — onde é que já vimos isso mesmo? (Para o infernauta mais esquecido: em Pânico).
Ou seja, em resumo, a produção não passa de um remendo mal costurado de alguns dos slashers mais icônicos do gênero. A sequência em que descobrimos que a “primeira morte” do grupo não passa de uma pegadinha recicla a ideia de A Noite das Brincadeiras Mortais. O cenário e toda a segunda metade são praticamente uma réplica de baixa qualidade do já citado Pague Para Entrar, Reze Para Sair. E o desfecho é apenas uma cópia pouco inspirada de Pânico.
Embora o roteiro apresente as fragilidades comentadas, ele não constitui o maior problema de Trem Fantasma. Essa posição é ocupada pela caracterização dos personagens, marcada por uma combinação irritante de insipidez e artificialidade que compromete qualquer possibilidade de maior envolvimento do espectador. O filme recorre a estereótipos amplamente conhecidos, como o nerd, a garota loira sensual, o descolado e o casal protagonista idealizado; porém os utiliza de maneira pouco competente, sem qualquer nuance que lhes confira profundidade.
A ausência de carisma do elenco contribui para acentuar essas limitações. O único nome mais conhecido é o de Jamie-Lynn Sigler, da série Família Soprano (HBO), em uma interpretação exageradamente histérica, no papel da protagonista Cathy. Os demais integrantes do elenco se afundam em diálogos forçados que buscam algum humor, mas sem alcançar resultados satisfatórios.
De positivo, temos duas cenas com um gore um pouco mais extremo, apesar dos efeitos e a maquiagem serem, no geral, bem abaixo da média. O primeiro destaque é uma sequência em que o vilão abre um buraco na barriga de um enfermeiro, com tripas e sangue jorrando. A outra cena é um ato de sexo oral “não interrompido” mesmo após a parceira ser totalmente decapitada. Sim, infernauta, use sua imaginação. Em tempo: 3 anos antes Alexandre Aja, no emblemático Alta Tensão, mostrava uma cena similar de sexo-semi-necrofílico.
Trem Fantasma foi um dos primeiros trabalhos selecionados para a edição inaugural do After Dark Horror Fest, em 2006. Também conhecido como 8 Films to Die For, o festival anual dedicado ao horror (exibido nos Estados Unidos entre 2006 e 2015) apresentava oito longas-metragens independentes do gênero, geralmente de baixo orçamento. O festival ajudou a dar visibilidade a algumas produções que se tornaram muito conhecidas, como (A) Fronteira (2007) e Lake Mungo (2008).
Rodado em 2004 na Califórnia, Dark Ride custou aos seus realizadores cerca de US$ 5 milhões e estreou em 488 cinemas americanos, arrecadando pouco mais de US$ 320 mil. Apesar do prejuízo nas telas grandes, o longa foi posteriormente distribuído em DVD pela Lionsgate (parte de uma coleção chamada After Dark Horrorfest). No Brasil, o lançamento foi direto para as locadoras pela Imagem Filmes. Esta mesma versão digital ainda pode, com alguma sorte, ser encontrada para compra em sites como Mercado Livre ou Amazon, já que infelizmente, enquanto este texto é escrito, a obra não está disponível em nenhum serviço de streaming.
Enfim, Trem Fantasma não funciona como uma homenagem ao gênero slasher adolescente (mesmo com o marketing da época que reforçava esta informação) e muito menos como uma obra independente, rendendo pouquíssimos momentos de diversão. Caro infernauta, como sempre, fica aqui a dica, em casos como este, assista por sua conta e risco.






