![]() Cabo do Medo
Original:Cape Fear
Ano:2026•País:EUA Direção:Amanda Marsalis, Jon S. Baird, S.J. Clarkson, Reed Morano, Steven Piet, Trey Edward Shults, Morten Tyldum, Jonathan van Tulleken, Stephen Williams Roteiro:Nick Antosca, Brian Evenson, Tara Shivkumar, John D. MacDonald, Peter Blake, Alan Page, André Jacquemetton, Maria Jacquemetton, Gregory Goetz, Diana Pawell Produção:Brette Billow, David Kirchner, Greg O'Bryant Elenco:Amy Adams, Javier Bardem, Patrick Wilson, Joe Anders, Lily Collias, CCH Pounder, Malia Pyles, Anna Baryshnikov, Jamie Hector, Blaise Reyes, Amanda Dunn, Juliette Lewis, Samantha Clifford, Margarita Levieva, Paul Schneider, Eric Mendenhall, Miles Mussenden, Ron Perlman |
O tema “vingança” encontrou sua melhor moradia na obra Os Violentos (The Executioners, 1957), de John D. MacDonald, e todas as suas adaptações. Sim, todas as versões do ex-prisioneiro que aterroriza uma família são interessantes, com suas diferenças servindo aos seus próprios propósitos. Podem ser analisadas como variações curiosas, tanto Círculo do Medo (Cape Fear, 1962), de J. Lee Thompson, quanto Cabo do Medo (Cape Fear, 1991), de Martin Scorsese — com a ótima performance de Robert De Niro —, além da recente minissérie de Nick Antosca, que estreou na Apple TV em 5 de junho. Esta última conquistou elogios da crítica em geral, incluindo do mestre Stephen King, que defendeu a série depois que alguém comentou que o enredo era “desleixado e ridículo“. King afirmou que as qualidades estavam exatamente em seu ritmo “desenfreado e caótico“.
A defesa do maior escritor de horror em atividade se justifica pela intensidade da narrativa, com o acréscimo de camadas que deram uma dinâmica intensa à produção. É claro que esses condimentos fogem da lógica, com algumas soluções fáceis e que poderiam ser evitadas, mas não trazem tantos deméritos à produção, que conta com um elenco de peso, encabeçado por Amy Adams e Javier Bardem, além de Patrick Wilson, CCH Pounder, Ron Perlman e uma participação surpreendente de Juliette Lewis, que fez a ingênua Danielle, na versão de Scorsese. Aliás, a produção executiva, o que justifica os bons cuidados técnicos, inclui, além de Scorsese, Steven Spielberg, Amy Adams e Bardem. Vale destacar em meio às feras as boas atuações de Joe Anders, como o garoto problemático Zach, e a manipulada personagem de Lily Collias, depois se mostrando perspicaz em um momento-chave.
Com dez episódios, a série apresenta a desventura da família Bowden, composta pela advogada de defesa Anna (Adams), uma das fundadoras da Savannah Justice League Project, ironicamente uma organização que atua para libertar detentos condenados injustamente; pelo seu marido e ex-promotor Tom (Wilson); e pelos filhos Zach, que lida com a ansiedade depois de um erro grave cometido na escola; e Natalie (Collias), a única “normal“, mas que se sente excluída por não ser filha legítima de Tom. Tudo começa a ruir com a saída da prisão de Max Cady (Bardem), condenado pelo assassinato da esposa grávida em 2008. Com o suicídio visceral de sua amante no prólogo, assumindo o crime e ainda tendo a arma utilizada, Max é libertado, com algumas sequelas do período carcerário, com baixa visão em um dos olhos e uma placa de metal na cabeça, após enfrentar outros prisioneiros.
A parceira de Anna, Noa (Pounder), acredita que a aproximação com o ex-prisioneiro pode trazer visibilidade à organização. Porém, há algumas dúvidas sobre os bastidores do julgamento de Max: Anna, que defendeu Max, estava grávida de um relacionamento e se envolveu com o promotor Tom, o que poderia ocasionar na época cancelamento do processo. Há outras questões envolvendo a paternidade de Natalie, em um drama novelesco que permite possibilidades absurdas como a de a garota ser mesmo filha de Tom, mas os pais não a consideraram para não tornar o julgamento ilegítimo, além de outros conflitos em pauta, como o de Zach, que passa a se envolver com uma garota virtualmente e é encontrado em contato com substâncias e sem um dos dedos do pé; uma estranha mulher com máscara cirúrgica que aparece em todo lugar; e Tom precisando se esquivar da interessada advogada Lexi (Margarita Levieva).
Desde o momento em que encontram uma família de gambás morta na piscina, os Bowdens se sentem ameaçados. Max se torna uma figura popular, um exemplo de uma pessoa injustiçada, enquanto a família passa a se desestruturar lentamente, com acusações e desconfianças. Esse jogo psicológico — ainda que dependente de facilidades dos roteiros como a sequência da passagem pelas paredes; encontros de personagens em lugares inusitados; a forma como uma cicatriz é mostrada — diverte, mesmo que afaste este Max dos vividos por De Niro, por Robert Mitchum, bem como da obra original. Há uma tentativa clara de manipulação também do espectador, o que fragiliza a força do vilão vingativo. Mesmo assim, há violência, corpos desmembrados e mutilados, e uma sensação crescente de pessimismo, cessada em um final mais próximo da versão de 1962.
Os fãs mais ardorosos das demais versões sentirão falta do personagem do investigador Kersek, representado indiretamente por Ray Rawlins (Jamie Hector), e da tentativa dos Bowdens de eliminar Max. Na série, eles tentarão incriminá-lo com drogas, com a ajuda do mercenário pai de Anna, tendo um resultado que só trará problemas à família. Por falar em uso de entorpecentes, há uma sequência bem divertida na série, quando a família é drogada com LSD, e precisa lidar com as alucinações: convenientemente, o calor absurdo se une a um “problema” no ar condicionado para que todos ali queiram beber chá ao mesmo tempo.
Pelo formato de minissérie, além de se aprofundar nos contextos familiares ao apresentar a família de Max, com um pai rígido (Perlman) que o tratava como um cachorro, Cabo do Medo traz alguns excessos narrativos como conflitos em um presídio feminino e um batismo religioso, quase incluindo elementos sobrenaturais. O tal rio Cape Fear tem até importância no enredo, mas não como um personagem e nem de forma tão atmosférica como acontece na versão de Scorsese, a adaptação que melhor considerou a ambientação.
Com uma produção caprichada, boa direção e uma sugestão de continuidade, Cabo do Medo é um thriller psicológico novelesco de segunda prateleira. Uma adaptação que não se prende às outras versões, possuindo vida própria como exemplar de narrativa de vingança. Com alguns acertos no roteiro, a minissérie poderia se destacar ainda mais entre os originais da Apple TV.







