
![]() Carrie: A Estranha
Original:Carrie
Ano:2026•País:Canadá, EUA Direção:Mike Flanagan, Axelle Carolyn, Hiromi Kamata, Kyra Sedgwick, Kate Siegel Roteiro:Mike Flanagan, Justina Ireland, Stephen King, Alexandra Magistro, Jamie Flanagan, Elan Gale, Rebecca Klingel, Elizabeth Padden, Dani Parker Produção:Rebecca Klingel, Dani Parker, Justin Wagman, Elenco: Summer H. Howell, Samantha Sloyan, Siena Agudong, Alison Thornton, Joel Oulette, Josie Totah, Arthur Conti, Thalia Dudek, Amber Midthunder, Matthew Lillard, Rowan Danielle, Tim Bagley, Michael Trucco, Tahmoh Penikett, Rahul Kohli, Mapuana Makia, Naika Toussaint, Ashley Cartwright, Heather Graham, Ketzali Bojorquez, Cassandra Naud, Don Mancini, Bryan Fuller |
Sou mega fã do Mike Flanagan, mas reconheço que nunca haverá um filme Carrie como o de Brian De Palma.
Decidi deixar as comparações de lado e assistir à série como se fosse a primeira vez que tivesse contato com a história adaptada para as telas. Como fã, senti que devia isso ao Flanagan.
Para começar, adoro ver as caras conhecidas nas séries do Flanagan. Isso me dá uma sensação de familiaridade, como se eu fizesse parte daquele universo.
A presença de Matthew Lillard (Pânico, Pânico 7) no papel do diretor da escola também é um daqueles detalhes que me agradam, especialmente para quem gosta de reconhecer rostos conhecidos nas produções de terror. É sempre um prazer vê-lo em cena, com aquele jeito canastrão que lhe é peculiar.
Os atores que eu ainda não conhecia também não deixaram nada a desejar. Cumpriram seus papéis com maestria, provocando empatia ou o famoso “ranço”, de acordo com suas personalidades, assim como nas outras adaptações. A diferença, nesta versão, é que tanto Carrie (interpretada pela fofa Summer H. Howell, de A Maldição de Chucky, de 2013) quanto sua mãe (interpretada por Samantha Sloyan, de Missa da Meia-Noite, de 2021) são muito mais humanas e “normais”. Ainda há o fanatismo religioso e um pouco de delírio por parte da mãe, mas nada absurdo. Temos apenas uma adolescente doce e cheia de sonhos e uma mãe protetora e um pouquinho mais “intensa” do que a maioria.
É aí que vemos a diferença brutal, e não apenas no fato de trazer Carrie para os dias atuais, com o uso da internet e dos celulares. A singeleza da menina e a “normalidade” da mãe me causam calafrios, pois percebo que, ainda nos dias de hoje, basta ser um pouco diferente para que nossa simples existência passe a incomodar. Aliás, falar que o verdadeiro mal está nas pessoas, e não no sobrenatural, é bater na mesma tecla. Todos já sabemos disso.
O que me conquistou foi a forma como Flanagan trabalha essa violência sem precisar transformar cada personagem em um monstro caricato. Há camadas, contradições e pequenas nuances que tornam as relações mais interessantes, especialmente a dinâmica entre Carrie e a mãe. A interpretação de Summer H. Howell transmite uma fragilidade genuína, sem fazer da personagem apenas uma vítima indefesa, enquanto Samantha Sloyan consegue equilibrar afeto, controle e uma devoção religiosa sufocante. É desconcertante perceber que, por trás de tantos gestos aparentemente banais, existe algo capaz de destruir emocionalmente outra pessoa.
Pode conter spoilers
A introdução de outros personagens com poderes também me pareceu interessante, pois amplia o universo da história e deixa margem para uma possível nova temporada. Amaline (Thalía Dudek, O Sobrevivente, 2025), em especial, mostrou ser uma personagem muito forte, que merece ser mais explorada. Fiquei curiosa para ver até onde essa trama pode chegar e como esses novos elementos podem se desenvolver.
Tecnicamente, a série também carrega muito da identidade do diretor. A construção da tensão é gradual, a atmosfera é opressiva e a fotografia contribui para essa sensação de desconforto que vai crescendo à medida que a história avança. Flanagan sabe trabalhar o silêncio, os olhares e aqueles momentos em que nada parece estar acontecendo, mas sentimos que alguma coisa está prestes a dar terrivelmente errado. A componente sobrenatural não surge apenas como espetáculo visual: funciona como uma extensão da angústia, da repressão e de tudo aquilo que Carrie não consegue expressar de outra forma. Ainda assim, nem todas as escolhas me pareceram igualmente fortes, e há momentos em que o ritmo poderia se beneficiar de um pouco mais de contenção.
Também gostei da forma como a história é transportada para a contemporaneidade. A internet e os celulares não estão ali apenas para atualizar o cenário, mas para reforçar a exposição, a humilhação pública e a facilidade com que a crueldade se propaga. Se antes o sofrimento de Carrie já era devastador, hoje existe uma dimensão adicional: a possibilidade de transformar a vergonha alheia em um espetáculo permanente. E isso torna tudo ainda mais próximo da realidade, mesmo quando a narrativa entra no território do fantástico.
Meu maior problema, talvez, seja justamente o peso que a versão de De Palma ainda tem na minha memória. É inevitável lembrar da força visual daquele filme, de sua atmosfera e da maneira como construiu um dos desfechos mais marcantes do terror. Flanagan não precisava repetir essa fórmula, e ainda bem que não o fez. Sua abordagem tem identidade própria, é mais intimista e aposta em uma compreensão mais humana das personagens. Contudo, em alguns momentos, senti falta daquela contundência que transforma uma boa adaptação em uma experiência verdadeiramente inesquecível.
No fim, esta Carrie não me fez esquecer a versão de Brian De Palma, mas também não acho que esse deva ser o objetivo. Mike Flanagan olha para uma história que já conhecemos e procura encontrar nela outras feridas, outros medos e novas formas de crueldade. E consegue, sobretudo quando ressalta que o horror não está apenas nos poderes de Carrie, mas na maneira como as pessoas à sua volta a fazem sentir, dia após dia, vergonha de existir.
É uma adaptação que merece ser vista pelo que tenta construir, e não apenas pelo que herdou. Gostei muito, reconheço o cuidado com as personagens e a assinatura visual do diretor, mas faltou aquele impacto que me faria terminar a série com a sensação de ter visto algo absolutamente arrebatador. Ainda assim, para quem gosta de Flanagan e da obra de Stephen King, é uma experiência que vale a pena.
Para mim, não supera o clássico, mas encontra seu próprio caminho, assustadoramente próximo da realidade.





