![]() Cúpula do Caos
Original:Rumours
Ano:2024•País:Canadá, Alemanha, Hungria, UK, EUA Direção:Evan Johnson, Galen Johnson, Guy Maddin Roteiro:Evan Johnson, Galen Johnson, Guy Maddin Produção:Liz Jarvis, Evan Johnson, Galen Johnson, Lars Knudsen, Philipp Kreuzer, Guy Maddin Elenco:Cate Blanchett, Roy Dupuis, Denis Ménochet, Charles Dance, Nikki Amuka-Bird, Rolando Ravello, Takehiro Hira, Alicia Vikander, Zlatko Buric, Tomi Kosynus, Ralph Berkin, Alexa Kennedy |
Em dado momento no longa de sátira política Cúpula do Caos (Rumours, 2024), o Presidente da França, Sylvain Broulez (Denis Ménochet), sugere que cada um dos líderes de suas nações pudesse ser a personificação do que representam. Este é um processo metalinguístico que não precisaria ser expresso no roteiro de Evan Johnson, Guy Maddin e Galen Johnson, também diretores. Depois o próprio começa a analisar a postura dos colegas como se estivesse fazendo uma leitura dos países diante de uma crise, mesmo que muitas dessas análises estejam longe de serem ousadas ou reveladoras. Quando, em meio ao caos, o Primeiro-Ministro do Canadá, Maxime Laplace (Roy Dupuis), encontra um cérebro gigante na mata, simbolizando a desconexão em relação a teorias abstratas, o público já se sentirá confuso com as propostas desse universo paralelo.
No enredo, líderes mundiais se reúnem no G7, em um hotel alemão com o propósito de redigir uma declaração de posicionamento em relação a uma crise mundial jamais especificada. Além dos já mencionados, estão também a chanceler da Alemanha, Hilda Ortmann (Cate Blanchett); a Primeira-Ministra do Reino Unido, Cardosa Dewindt (Nikki Amuka-Bird), que teve um momento íntimo com Maxime e se arrepende; o Presidente dos Estados Unidos, Edison Wolcott (Charles Dance), que preferia ter uma morte digna sendo assassinado; o Primeiro-Ministro da Itália, Antonio Lamorte (Rolando Ravello), sempre disposto a servir os demais; e o Primeiro-Ministro do Japão, Tatsuro Iwasaki (Takehiro Hira), figura consciente que passa despercebida ali.
Depois das tradicionais fotos, incluindo uma numa escavação local que encontrou uma múmia de mais de dois mil anos, eles se reúnem para o trabalho em grupo em um gazebo, entre bebidas e insinuações discretas. Quando o vento derruba as anotações produzidas pelo Presidente da França, ao sair para procurá-las, ele descobre que a residência próxima está completamente abandonada. Além disso, cai na cova da primeira múmia somente para descobrir que e ela e várias outras estão reanimadas. Ao retornar, percebendo que estão isolados, na sugestão de Edison de um possível evento apocalíptico, eles resolvem partir para uma travessia da floresta — sim, eles acreditaram na fala de Sylvain por mais absurda que pareça —, temendo serem atacados pelas múmias espalhadas pela mata.
Parece interessante, né? Múmias atacando políticos, numa referência ao passado histórico muitas vezes esquecido pela falta de memória, enquanto fogem numa floresta em busca de uma saída. Mas não é bem assim. O roteiro também esquece das múmias e se concentra nas conversas entre os líderes, nunca realmente abalados pela situação na qual se encontram. O enredo destaca demasiadamente o Primeiro-Ministro canadense, tendo relações sexuais na mata com Hilda e guardando rancor pelo novo flerte frustrado com Cardosa, seguindo desesperadamente em busca da Presidente da Comissão Europeia, Celestine Sproul (Alicia Vikander), encontrada próxima ao cérebro, conseguindo se expressar apenas em sueco.
Aliás, embora o encontro seja na Alemanha, todos aqui falam inglês — e o Presidente dos Estados Unidos tem um acentuado sotaque britânico. O simpático Primeiro-Ministro da Itália até chega a questionar a razão disso, mas a sequência acabou sendo cortada. Segundo as curiosidades que envolvem a produção, Charles Dance é inglês, mas sabe se expressar como um cidadão dos EUA e até solicitou que houvesse essa cena em que ele explicaria porque faz uso do sotaque inglês, mas a edição optou por deixar a conclusão da cena de fora do resultado final. E é algo que acabou ficando sem sentido, na proposta metafórica.
Como sátira política menos profunda, o longa mostra a incompetência dos políticos, precisando conter uma crise global e sem saber lidar com uma particular. Mas é muito pouco pelo contexto, assim como as múmias, que poderiam trazer cenas mais intensas e assustadoras. O roteiro é mais teatral do que dinâmico, o que pode incomodar quem espera uma produção de horror ambientada numa floresta. E as simbologias das relações políticas não são adequadamente exploradas. Lembro-me de ter visto com meu filho, quando pequeno, um episódio da Peppa Pig, em que as crianças precisam se vestir como países, numa espécie de festa das nações. A disputa pela areia, as brigas constantes entre as nações (Alemanha contra a Rússia, EUA contra o Japão, Espanha se digladiando com o México…e a Suíça somente observando) e eles tentando um acordo impraticável trouxeram muito mais contexto político, explicando boa parte da História de conflitos incluindo as guerras mundiais, do que Cúpula do Caos.
A despeito do bom elenco e interpretações, é uma ideia que poderia ter sido mais bem desenvolvida se houvesse um trato melhor do roteiro. Longe de ser a sátira inteligente que imagina ser.






