Formada em Rádio e TV, aos 30 anos, Vivi Amaral é uma das mentes por trás do festival CineFantasy, que agora em 2010 chega à sua quinta edição. Apaixonada por todos os subgêneros do Fantástico, principalmente o Horror, ela trabalha com edição e finalização e sonha em fazer seu primeiro filme. Com o evento em andamento, tomando todo o seu tempo, Vivi ainda conseguiu arrumar uma fresta para bater um papo com o Boca do Inferno, para falar das surpresas do festival, a evolução do CineFantasy e seu medo de assombrações e ETs.
Boca do Inferno: Tendo em vista as dificuldades de promover o gênero no Brasil, como surgiu o festival CineFantasy?
Vivi Amaral: Eu e o Eduardo, o outro organizador do Cinefantasy, sempre gostamos do cinema de gênero. Nós líamos sobre os grandes festivais da Europa e América do Norte, como o Sitges, Fantasporto e Fantasia e morríamos de vontade de ir em um evento como esses. Então, quando surgiu a oportunidade de realizarmos um evento de cinema, vimos a chance de divulgar o fantástico e abrir um espaço para as produções nacionais desse gênero. Logo pensamos na Mostra de Curtas Fantásticos de Ilha Comprida.
Boca do Inferno: O Festival está chegando à sua quinta edição. Como foi o seu processo de evolução? O que mudou do primeiro para este?
Vivi Amaral: Em 2006 éramos uma mostra apenas para curtas-metragens nacionais que acontecia em uma cidade de 8mil habitantes. No segundo ano, o número de inscritos aumentou e muita gente vinha nos perguntar porque não trazíamos a mostra para capital, pois o acesso era muito mais fácil, não só para os paulistas, mas também para o pessoal de fora de SP. Decidimos então trazer a mostra pra São Paulo já na terceira edição. Isso deu um salto enorme no tamanho do evento. Com a prefeitura de São Paulo nos acolhendo, a 3ª edição da então “Mostra Curta Fantástico” se espalhou por 6 cinemas, incluiu a exibição de longas na mostra paralela e trouxe o animador inglês Robert Morgan. Em 2009, a mostra nacional virou o festival internacional Cinefantasy. Foram vários inscritos, sendo 40% estrangeiros, a programação de longas na mostra paralela fez mais sucesso do que esperávamos e nosso diretor convidado, o inglês Marc Price, causou burburinho sobrelotando a sala da Viriato Correa.
Nessa 5ª edição o Cinefantasy seguiu naturalmente seu curso, abrimos a competitiva para longas metragens. Infelizmente, não temos nenhum representante brasileiro competindo com os 21 filmes estrangeiros. Mas a competitiva de curtas-metragens tem presença brasileira marcante e de qualidade.
Aliás a própria competitiva de curtas vem crescendo desde 2006. No primeiro ano foram uns 70 inscritos e 50 curtas exibidos, em 2010 foram 200 inscritos e 83 filmes selecionados.
Mas apesar de termos hoje muitos filmes estrangeiros na programação do Cinefantasy, nossa atenção ainda é voltada para divulgar a produção nacional. Virar um festival internacional é na realidade, criar um atrativo para o público e trabalhar a formação de público dos filmes de gênero e por consequência, dos filmes de gênero brasileiros.
Boca do Inferno: Como foi feita a seleção dos longas e curtas? Quais festivais inspiram o desenvolvimento do CineFantasy?
Vivi Amaral: Buscamos criar uma programação que aborde toda a vastidão do gênero fantástico. Da fantasia ao horror, do infantil ao gore, do independente ao comercial, brasileiro ao russo. Na seleção dos curtas, buscamos originalidade, criatividade e capricho com a produção. Não digo qualidade técnica em si, mas capricho. Mesmo uma produção caseira, filmada com uma handcam, se for pensada com capricho pelo diretor, pode virar um ótimo filme.
Já os longas, tem relação direta com os festivais estrangeiros. O ano todo estamos de olho nos filmes que ganham prêmios em festivais consagrados como Sitges, BIFFF ou Puchon, e também, nos festivais independentes e menores, que promovem novos diretores, que é o caso do MIFFF (Maelstrom – Seattle), Sci-fi London, Dragon Con etc.
Aqui no Brasil e América Latina também acontece uma parceria entre os festivais, até criamos a Aliança de Festivais Fantásticos da América Latina, o FANTAFESTIVALES. A aliança tem como membros o Buenos Aires Rojo Sangre, o Macabro do México e vários outros e daqui do Brasil estão o Cinefantasy, o Fantaspoa e o Riofan (que espero que volte logo).
Boca do Inferno: Este ano haverá uma homenagem ao José Mojica Marins e seu personagem Zé do Caixão, com a exibição da sua famosa trilogia em 35mm. Quais os outros especiais que você pode destacar?
Vivi Amaral: Temos os panoramas colombiano, israelense e o grego que vão ser bem legais e as atividades como palestras e debates, também são destaques.
Teremos a exibição do filme Donnie Darko e logo após faremos um debate “papo de boteco” com o público, só vai ter alguém ali na frente pra começar o bate-papo, mas queremos ver o público discutindo o filme (como se fosse em uma mesa de boteco 🙂
Boca do Inferno: Teremos também algumas oficinas, debates, encontros e palestras, incluindo a presença do cineasta Rodrigo Aragão (Mangue Negro). Como é feita a organização de tantos eventos paralelos à exibição dos filmes?

Vivi Amaral: Nada fácil, mas contamos com as equipes dos espaços que sempre nos ajudam muito. Como o festival ainda não tem grandes patrocinadores, temos uma equipe muito pequena. Fica difícil estar em 3 lugares ao mesmo tempo, responder e-mails, telefonemas e ainda finalizar algumas legendas. Corremos contra o tempo, ficamos quase malucos e os cabelos brancos brotam de montão durante o festival, mas mesmo assim, quando acaba, ficamos numa depressão saudosa, esperando ansiosos para o próximo ano.
Boca do Inferno: Quais são suas expectativas nessa quinta edição? Algum filme que gostaria de destacar?
Vivi Amaral: Gostaríamos de ver o público curtindo o festival, principalmente os fãs de cinema de gênero. É um festival feito por fãs para fãs. Tentamos fazer o possível para que o Brasil tenha um bom evento de cinema, com filmes que estão passando ao mesmo tempo em festivais da Europa, EUA, Canadá, Japão etc, e que seja de graça.
Não tem como destacar um único filme, mas posso falar de alguns filmes que me chamaram a atenção;
O Strigoi é uma produção Romênia/Inglanterra que já ganhou vários festivais e apresenta os vampiros de forma bem diferente e divertida; outro que eu poderia destacar é o Possession of David O’Reilly, com a mesma pegada do Atividade Paranormal mas bem mais intenso e com mais “atividade” que a versão americana; o sci-fi também está muito bem representado pelo húngaro “1”, com ótimas atuações, esse filme brinca com a realidade. Muito bom.
Boca do Inferno: Para terminar: trabalhando num festival desse porte, com filmes de horror de todos os subgêneros, existem produções que ainda te causam medo? Qual é seu filme de terror de cabeceira?
Vivi Amaral: Nossa, com certeza! Sou medrosa pacas mas adoro passar medo *rs
Morro de medo de ETs e assombrações, então quando eu vejo filmes de horror que trazem boas histórias de fantasmas ou abduções, fico super tensa.
Gosto muito do Ringu, a Sadako é assustadora mesmo sem grandes efeitos, mas tenho um carinho muito grande por dois filmes que me aterrorizaram na infância, A Hora do Pesadelo e Um Lobisomem Americano em Londres. O Freddy me fez fugir toda a madrugada pro quarto dos meus pais durante um ano e o amigo do Lobisomem, o Jack, também me causou muita insônia.



