2.6
(5)

Leviticus
Original:Leviticus
Ano:2026•País:Austrália
Direção:Adrian Chiarella
Roteiro:Adrian Chiarella
Produção:Kristina Ceyton, Samantha Jennings, Hannah Ngo
Elenco:Tyallah Bullock, Stacy Clausen, Joe Bird, Ewen Leslie, Mia Wasikowska, Jeremy Blewitt, Davida McKenzie, Julia Grace, Hyu Motoki, Edwina Wren, Anna Mtungwazi, David Serafin, Nicholas Hope, Flynn Glazebrook

O cinema de terror australiano vive um momento generoso, com um punhado de diretores decidido a tratar o gênero como uma ferramenta de trauma social em vez de uma coleção de jumpscares baratos. Acredito que foi com isso em mente que a Causeway Films, produtora que já tinha no currículo O Babadook (2014) e Fale Comigo (2022), apostou em Adrian Chiarella pro seu primeiro longa. Chiarella é australiano, saiu do armário ainda adolescente, veio do mundo da montagem e usou essa experiência técnica para estrear direto na direção e no roteiro de Leviticus (2026), filme apresentado no Festival de Sundance no início deste ano e depois acabou sendo distribuído pela Neon. E o nome do filme não é sutil, já que é uma citação direta ao capítulo bíblico historicamente usado pra justificar a perseguição a pessoas da comunidade LGBTQIA+, e o filme constrói em cima dessa citação uma entidade sobrenatural que passa a perseguir adolescentes gays numa cidadezinha australiana dominada, dentre outras coisas, por uma comunidade religiosa. A pergunta alegórica que fica no ar do início ao fim é simples: o terror aqui vem do monstro ou vem da igreja que fabricou o monstro? Escrevo essa crítica também como parte da comunidade, o que significa que reajo à parte alegórica do filme com um interesse mais pessoal do que o de quem está só analisando técnica de gênero, e isso não vai suavizar os problemas que o filme tem, só explica de onde parte meu olhar.

O gancho central é bom: uma entidade passa a perseguir Naim (Joe Bird) e Ryan (Stacy Clausen) depois que a comunidade religiosa os submete a um ritual de “cura” para a homossexualidade, nos moldes de como o ser se manifesta em Corrente do Mal (2014). Porém, outra diferença importante em relação ao filme de David Robert Mitchell – além do fato de que a entidade não se transmite pelo contato sexual e, sim, se manifesta após do ritual –, é que o mal de Leviticus não aparece com rosto estranho, ele toma a forma de quem a vítima ama/admira/deseja, o que já é uma virada interessante em cima da fórmula porque desloca o terror de fora pra dentro do próprio desejo, encaixando direto na lógica da comunidade de que amar um “igual” já é, por si só, a origem de um perigo. É um desenho quase perverso de propósito, como se a própria cidade tivesse criado um jeito de fazer pessoas queer se afastarem umas das outras por medo. Dá pra puxar uma linha até Boy Erased: Uma Verdade Anulada (2018) também, mesmo esse sendo drama e não horror: os dois filmes miram o mesmo alvo, a crueldade da cura gay, só que Leviticus pega esse alvo e transforma em monstro literal, com garras e sangue.

Um dos maiores acertos do filme é recusar transformar a própria relação entre Naim e Ryan no epicentro do conflito dramático, deixando os dois formarem um casal protagonista sem que o roteiro precise ficar reafirmando que essa relação é “problemática” (apesar de ter sim os seus problemas) ou tratando o romance como “O” assunto a ser resolvido. O drama vem de fora, da comunidade, do “monstro”, não da dinâmica interna dos dois meninos, e isso é raro dentro do terror queer, que normalmente usa a orientação sexual do(s) protagonista(s) como fonte direta de angústia interna. Só que esse acerto vem acompanhado de uma escolha que quase derruba a credibilidade construída até ali, porque existe uma cena de conteúdo sexual acontecendo dentro de um ônibus que soa gratuita e desconectada do cuidado que o filme tinha até aquele ponto. E aqui temos dois problemas: o pudor, por colocar os protagonistas não só a cumprir a cartilha do ato libidinoso que parece ser regra quando estamos diante de casais homoafetivos, mas também de transformar o ato em obsceno, já que se torna criminoso por acontecer em um local público e com a presença de outras pessoas. E, com isso, a escolha esbarra também com a derrocada momentânea da coerência: o filme tem um cuidado em construir um casal que esconde o afeto por medo real de retaliação, e essa cena quebra essa lógica sem construir justificativa suficiente pra isso.

Só que, até então, o ponto de análise estava em uma cena específica. Mas o filme tem problemas graves de roteiro. E, quando os chamo de graves, é porque são questões estruturais. Vamos a um exemplo, presente no próprio trailer, que é uma regra estabelecida logo no início e que sabemos, portanto, que irá ditar comportamentos e decisões dos personagens: a entidade só se manifesta quando não há ninguém por perto, e é até uma regra clássica de terror, do tipo que cria tensão porque o público passa a calcular quando o personagem vai ficar desacompanhado. O problema é que Leviticus não respeita a própria regra em diversos momentos do filme, o que devolve para o espectador a sensação incômoda de estar vendo o roteiro trapacear para conseguir estabelecer as situações. Detalho esse e os outros problemas de roteiro mais à frente, na parte com spoilers, porque falar deles agora estraga passagens específicas.

O que sustenta positivamente o filme, de longe, são as atuações de Joe Bird e Stacy Clausen. Bird já tinha mostrado a que veio em Fale Comigo, e aqui carrega praticamente sozinho as cenas mais silenciosas, aquelas em que o personagem precisa comunicar medo e desejo ao mesmo tempo sem dizer nada em voz alta, num tipo de atuação que entendeu o material em vez de só decorar o texto. Clausen segura bem o oposto, um personagem mais expansivo e mais na defensiva, e a química entre os dois é o motivo real pelo qual o filme funciona quando funciona. O contraste dessa qualidade aparece na personagem da mãe de Naim, vivida por Mia Wasikowska, e que entrega uma atuação monocórdica do início ao fim, sem variação de tom mesmo nos momentos que pediam outra coisa, culpa atribuída ao roteiro, que não a ajuda, já que sua personagem carrega um peso temático enorme, sendo quem arrasta o filho para dentro da comunidade religiosa, mas recebe pouquíssimo desenvolvimento para sustentar esse peso. É difícil não lembrar de como Stephen King resolveu esse mesmo arquétipo em Carrie, dando para a mãe camadas de fanatismo, amor distorcido e histórico pessoal que explicam o comportamento dela sem simplificar, enquanto aqui a mãe existe só para empurrar a trama e repetir frases que praticamente toda mãe religiosa já disse alguma vez à sua prole queer.

A fotografia acompanha essa mesma lógica de altos e baixos. No primeiro terço, tem enquadramentos bonitos, alguns dignos de quadro emoldurado, um cuidado visual real. Só que o filme não escapa da paleta de marrom e verde que virou padrão do gênero nos últimos anos, mesmo em cenas que não precisavam desse recurso pra indicar emoção alguma. O azul funciona melhor, principalmente acompanhando Naim em momentos mais melancólicos – a cor tem justificativa dentro da própria história. O problema maior é o uso excessivo de lente aberta desfocando o fundo, e ela está presente em praticamente todos os momentos em planos mais abertos, principalmente nas cenas com florestas ao fundo. E os enquadramentos mais criativos do início somem quase todos depois da metade do filme. A trilha sonora, assinada por Jed Kurzel, nome de peso no gênero, segue o mesmo padrão: quase não aparece, não atrapalha nem ajuda, fica discreta demais, o que surpreende justamente pelo calibre do compositor.

Alerta de spoilers

Vamos aos dois maiores problemas estruturais do filme. A regra de que a aparição da entidade só deveria valer quando a vítima está sozinha (ou, melhor, vamos nos manter literais ao texto: “ quando ninguém está por perto” e, em outra passagem, “ aquilo vem por você quando você está sozinho”). Daria até para argumentar que o espaço físico onde a aparição se manifesta está vazio, mas não há mise-en-scène ou blocking que consiga posicionar Naim sozinho para que essa regra seja aplicável, isso em mais de uma cena. E, a cada que vez que isso acontece, a regra perde um pouco mais de credibilidade. No pior dos casos, do lado de fora de um ônibus lotado, basta a porta se fechar com todos os outros passageiros dentro – à exceção do próprio Naim – para a entidade se manifeste atrás do veículo. Não tem lógica se considerar que o personagem estaria sozinho ali, com Ryan em oposição a apenas uma porta transparente fechada. A regra desaba, e junto dela desaba boa parte do medo que o filme tentou construir. Esse problema poderia ser resolvido ao menos de duas formas diferentes: ou a regra simplesmente deixaria de existir, e passaríamos a viver o tempo todo com a dúvida de se quem está na tela é o parceiro de verdade ou a entidade disfarçada, ou, em um cenário ainda mais opressor, o casal não poderia mais se afastar fisicamente por conta da regra, e aí se estabeleceria um dilema ainda mais perverso: como fisicamente sair do lado de quem você foi condenado por sua própria mãe e pela igreja a se curar de querer? E, assim, o ponto de virada do filme, onde a tensão atinge seu pico e o terror se estabeleceu em sua força plena, se torna seu próprio algoz.

O outro furo está ligado ao maior recurso dramático do filme, que é a possibilidade de a entidade assumir a forma do parceiro. Em determinado momento Ryan avisa o Naim, de forma explícita, que a entidade vai tomar a forma dele, com a frase “ se você vir algo que se parece comigo, não se aproxime. Não será eu. Nunca mais será eu,” um aviso claro dado em cena que devia funcionar como informação guardada para Naim se valer de âncora por algum nível de segurança (ainda que não tenha sido essa a intenção de Ryan). A partir dali já sabemos, com certeza, que qualquer aparição sua seria, portanto, a entidade disfarçada. Mesmo assim, o protagonista continua confiando, conversando, acreditando na voz e no jeito de falar, e ainda assim encara a morte depois do aviso. E apanha uma vez mais do mesmo jeito. Isso não soa como a entidade ganhando um poder maior de imitação aos poucos – que é uma outra regra estabelecida pelo próprio texto. Soa mais como o roteiro precisando de mais um confronto e empurrando o personagem para mais uma decisão pouco convincente (suavizando para não chamar de decisões burras mesmo), só pra conseguir esses embates.

Por fim, vou elaborar um pouco mais sobre a cena sexual problemática do ônibus, porque foi a que mais me afetou negativamente. Ela deixa um gosto amargo, e foi a pior piada de mal gosto que consegui para deixar registrada. Como eu disse antes, é raro ver um casal gay protagonista em horror sem transformar a própria orientação sexual dos personagens no centro do conflito, e o filme acerta nisso; o casal vive a relação com seus dilemas, enquanto o terror acontece ao redor. Só que desperdiça essa raridade com uma cena de masturbação dos dois dentro de um ônibus com outros passageiros, algo que também seria crime na maioria dos lugares. Pior ainda: o momento da aparição da entidade ao fundo do ônibus é, para mim, o maior ponto de tensão do filme. É a cena em que o desespero é saber: o que vai acontecer quando eles descerem do ônibus? Para onde vão? Caso virem a esquina sem o outro, serão seguidos pela entidade? Então, ao invés da viagem ser permeada por esse medo que ocorre logo após um momento de pânico extremo, temos um ato obsceno para representar a conexão entre o casal, e um corte seguinte para os dois se encontrando na escola. Entidade nenhuma até lá? Mas sim logo após um deles entrar no banheiro? Percebe como uma cena gratuita que segue uma cartilha datada de tentar retratar a homossexualidade como ela seria em sua “naturalidade” acaba sendo não só gratuita, mas acaba sequestrando um dos pontos mais altos do filme enquanto tenta entregar esse tipo de ousadia em 2026?

O final de Leviticus é, em grande parte, agridoce – no bom sentido. Mesmo com a perda de tensão na parte intermediária, o filme termina bem. Quando Niam reencontra Ryan e percebe que ele também está ferido, o comportamento de ambos finalmente fica compreensível e crível, o que resgata a qualidade do filme. O desfecho funciona como uma espécie de primeiro passo de um adolescente rumo à maturidade, o entendimento de que a vida não é um amor de conto de fadas. E ainda ressignifica a própria entidade, indo além da ideia de simples “cura gay“: ela passa a representar um perigo constante que se fortalece à medida que o casal fica mais íntimo, abrindo espaço pra uma reflexão mais profunda sobre aceitação pessoal e homofobia.

Fim dos spoilers

O título do filme vem direto do capítulo bíblico usado historicamente pra condenar a homossexualidade, e o roteiro não deixa essa referência solta no ar. Levítico 20:13 diz: “Se um homem se deitar com outro homem, como se fosse com mulher, ambos terão praticado abominação; certamente serão mortos; o seu sangue será sobre eles.” É esse texto que a comunidade cristã usa para justificar o ritual de “cura” que, aqui, desencadeia toda a perseguição sobrenatural, e o filme constrói sua alegoria mais forte exatamente aí, porque a entidade que persegue os meninos não é castigo divino, é o próprio ódio da comunidade tomando forma física. Leviticus usa o terror de gênero para falar sobre terapia de conversão e sobre como comunidades religiosas fabricam o próprio monstro que dizem estar combatendo, e essa é a camada mais bem resolvida do filme, mais até do que a trama em si.

É uma obra de conceito forte, carregada por duas atuações acima da média do gênero, mas que não sustenta a própria arquitetura de regras que ela mesmo cria. A parte alegórica funciona bem porque usa o terror para falar de terapia de conversão sem precisar explicar didaticamente o que está fazendo, mas acaba tropeçando em pontos centrais, com um roteiro que trapaceia a própria regra da entidade, ignora avisos que ela mesma colocou em cena, e usa um ato obsceno que quebra a coerência emocional construída até ali. A fotografia começa forte e se acomoda, a trilha sonora nunca chega a existir como identidade própria, e a mãe do protagonista fica devendo um desenvolvimento que o roteiro tinha espaço de dar. Funciona bem para quem quer ver terror queer levado a sério, com atuações de peso e uma alegoria bem construída, mas frustra quem espera que a mecânica de terror sustente a tensão que a alegoria prometia.

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Sobre o Autor

2 Comentários

  1. Chato pra caramba…difícil assistir até o final

  2. Para mim, a passividade ou letargia da mãe mostra a fragilidade da genitora frente ao discurso religioso internalizado. Não há crítica, apenas Consentimento.
    Em relação ao afeto entre os protagonistas, esse se mostra maior que o medo e apreensão. Por se tratar de jovens, falta-lhes a maturidade para lidar com os discursos normativos, normalizantes (discursos de verdade) sobre eles produzidos e assujeitados.

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