Críticas

Conheça os Feebles (1989)

Depois desse filme você pode até querer voltar a assistir Vila Sesamo e os Muppets, todavia nunca mais os verá com os mesmos olhos!

Conheça os Feebles (1989)

Conheça os Feebles
Original:Meet the Feebles
Ano:1989•País:Nova Zelândia
Direção:Peter Jackson
Roteiro:Fran Walsh, Stephen Sinclair, Peter Jackson
Produção:Jim Booth, Peter Jackson
Elenco:Danny Mulheron, Donna Akersten, Stuart Devenie, Mark Hadlow, Ross Jolly, Brian Sergent, Peter Vere-Jones, Mark Wright

“Senhoras e senhores. Sua atenção por favor. Bem vindos ao mais novo, maior e mais espetacular momento na história do entretenimento. Juntem suas mãos para a fabulosa hora de variedades dos Feebles” – Locutor de Abertura

Peter Jackson não tem uma filmografia que pode ser considerada muito extensa. Praticamente todos os seus longas-metragens foram lançados no Brasil, o que facilita para o fã do cineasta acompanhar a evolução da carreira deste que é um dos mais poderosos profissionais da atualidade. No entanto, uma das poucas obras do diretor que foram esquecidas ou ignoradas pelas distribuidoras de VHS e DVD pode ser considerado um dos filmes mais porcos e sem-vergonha do homem que futuramente encantaria o público e revolucionaria o mundo de J.R.R. Tolkien em O Senhor dos Anéis.

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Meet the Feebles, filmado na Nova Zelândia e lançado em 1989, foi o segundo longa da carreira de Jackson e também é o segundo dos que alguns entusiastas do diretor chamam de “trilogia gore” – que foi precedido por Trash – Náusea Total e seguido por Fome Animal, dois clássicos dos filmes B – mas a diferença para ambos é que este não é exatamente um filme de terror e também os personagens não são interpretados por atores de carne e osso; o elenco é composto apenas e tão somente por bonecos… Sim, marionetes e algumas pessoas fantasiadas, lembrando bastante aqueles da extinta série infantil TV Colosso.

A primeira impressão que você pode ter ao ver as imagens do filme é que se trata um filme pseudo-infantil com piadas adultas e só. Assim como eu, podem até achar que é um exagero dizer que uma película feita com marionetes entraria na mesma categoria “trash” dos filmes citados acima e que a classificação se trata apenas de marketing furado. Ledo engano meus caros, Meet the Feebles é, sim, uma comédia de humor negro e pode até ser um musical, entretanto após a primeira audição conclui-se que acima de qualquer categorização é um filme politicamente incorreto, pornográfico, com muitas cenas nojentas e um massacre violentíssimo no final – no melhor estilo Scarface e tão devastador quanto em Fome Animal – para deixar qualquer criança traumatizada.

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No início do filme conhecemos o “Feebles Variety Hour“, um dos programas de televisão mais populares do mundo dos bonecos onde os Feebles são os protagonistas. Só que esta noite será uma ocasião especial, pois eles entrarão ao vivo pela primeira vez.

Todos estão empenhados nos ensaios e a hipopótamo temperamental Heidi é a estrela do espetáculo, porém não aguenta mais ser insultada pelo rato de esgoto Trevor e vai tirar satisfação com seu marido produtor do show e leão-marinho Bletch.

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O problema é que Heidi não sabe a real natureza de Bletch, que a trai com uma gata siamesa, trafica cocaína e usa Trevor como diretor na produção de filmes pornôs de sadomasoquismo no porão do teatro… É mole?

Não apenas Bletch, mas esses Muppets às avessas se entregaram aos luxos do show business e não conhecem o significado da expressão “moral e bons costumes“, como veremos a frente. A única exceção é o porco-espinho Robert (ou Wobert, como ele mesmo diz), que é idealístico, puro de coração e foi recém-aceito para integrar os Feebles. Ele está empolgado com a oportunidade e se reporta ao diretor de palco, o verme Arthur – que durante o filme passa por alguns apuros por não possuir as mãos – que o apresenta para o restante do elenco.

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De cara Robert se apaixona pela cadela Lucille e é acanhado demais para se declarar, todavia o interesse não é só o dele: o sujo Trevor procura uma nova atriz para seus filmes podres de sacanagem mesmo que para isso seja necessário drogá-la e fazer contra a sua vontade, afinal a atriz vaca já não vende como antes, ainda mais quando sua estrela (a vaca) mata o ator inseto sentando sobre ele acidentalmente (“perdi o take, mas talvez possa vender como um snuff movie“, diz o rato Trevor… hahahaha…) e precisa usar o pervertido tamanduá Dennis como substituto.

Enquanto isso Heidi descobre toda a sujeira de Bletch, entra em depressão, começa a comer compulsivamente e, em desespero, tenta suicídio (frustrado por uma meia-calça de baixa qualidade) enquanto o programa especial dos Feebles vai por água a baixo deixando o diretor geral (uma raposa gay chamada Sebastian) desesperado a ponto de improvisar um terrível número musical sobre sodomia (!) para completar o show. Entretanto o que ninguém esperava era que Heidi daria a volta por cima e, em um acesso de fúria, chegaria ao extremo de fuzilar todos os Feebles, num massacre memorável (lição aprendida: nunca mexa com uma hipopótamo com TPM). Reza a lenda que a M-60 utilizada por Heidi neste encerramento disparava munição real – pois o diretor não teria encontrado balas de festim – vindo do maluco Senhor P.J. eu não duvido nada, hehehe…

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O filme basicamente acompanha as histórias de Robert e Heidi, só que neste meio tempo muita coisa acontece com o restante dos bonecos artistas: o elefante Sid, que passa por problemas judiciais para reconhecimento da paternidade de seu filho com uma galinha (!!!); o coelho Harry, que é chegado numa suruba e acaba pegando uma repulsiva e pustulenta doença sexualmente transmissível; a mosca FW, repórter do tabloide local que busca por notícias sensacionalistas dos Feebles para publicar e protagoniza a cena mais nojenta que eu andei vendo ultimamente envolvendo uma colher, uma privada e um punhado de merda – e finalmente meu personagem favorito, o sapo Wynyard, veterano da guerra do Vietnã (!), que agora é viciado em drogas injetáveis e trabalha com os Feebles como atirador de facas. A reconstituição em flashback da guerra é não menos que hilária.

Essa experiência unicamente bizarra só poderia ter saído da mente doente de Peter Jackson cujos limites criativos sórdidos são expandidos em Meet the Feebles, através deste conceito genial da decadência no submundo das celebridades – agravado pelo fato de que elas sejam mais reconhecidas pelo público infantil – como poucas vezes foi explorado no cinema e continua atualíssimo mesmo passado quase 20 anos da produção.

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Como podem perceber, o roteiro é simplíssimo (isso porque foi escrito a oito mãos por Danny Mulheron, Stephen Sinclair, Francis Walsh e o próprio diretor), criando apenas algumas desculpas e situações para que Peter Jackson nos brinde com cenas de revirar o almoço no estômago que não deve absolutamente nada as produções mais repulsivas e escatológicas do diretor. Mesmo que a carga de violência e splatter sejam significativamente menores mas não menos chocantes – temos vômitos, montes de pus, jatos de urina, fezes (Argh.. só de lembrar me dá arrepios…), gurus contorcionistas que colocam a cabeça dentro do… Eh… Enfim, cheio de peculiaridades e absurdos, sempre carregado do humor ácido e de gosto duvidoso característicos de seus primeiros filmes. Porém é importante alertar que não se trata exatamente de um filme de terror, o excesso de músicas podem incomodar alguns e a qualidade da imagem não é muito boa (de fato é medíocre mesmo assistindo em DVD), a não ser que algum iluminado resolva remasterizar o filme, o que embora fosse muito legal, possivelmente, jamais acontecerá.

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Depois desse filme você pode até querer voltar a assistir Vila Sesamo e os Muppets, todavia nunca mais os verá com os mesmos olhos. Enfim, Meet the Feebles não foi concebido como uma obra de arte – e nem deveria – mesmo assim é brilhantemente, estranhamente e insanamente divertido.

CURIOSIDADES

– Quando o programa dos Feebles entra ao vivo um dos bonecos que vemos na plateia é um alienígena de Bad Taste, filme anterior de Peter Jackson;

– Ainda na plateia é perceptível que a maioria do público é feito de papelão, apenas alguns são realmente bonecos;

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– O filme foi rodado utilizando câmeras comuns de 16mm, cujo aspecto é o clássico 4:3, ou seja, todas as versões disponíveis são realmente fullscreen;

– Aviso no final dos créditos finais: “Os produtores gostariam de alertar que nenhuma marionete morreu ou foi mal tratada durante a realização deste filme“;

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1 Comentário

  1. Vitor Marcelo

    ainda não vi esse!! 🙁

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