Críticas

A Criatura do Cemitério (1990)

Um raro caso de como aumentar uma história curta sem inventar ladainha demais, e desenvolver melhor detalhes apenas sugeridos no original!

A Criatura do Cemitério (1990) (1)

A Criatura do Cemitério
Original:Graveyard Shift
Ano:1990•País:EUA, Japão
Direção:Ralph S. Singleton
Roteiro:John Esposito, Stephen King
Produção:William J. Dunn, Ralph S. Singleton
Elenco:David Andrews, Kelly Wolf, Stephen Macht, Andrew Divoff, Vic Polizos, Brad Dourif, Robert Alan Beuth, Jonathan Emerson, Dana Packard

“Ratos! Centenas deles! Milhares deles!”

Quando comecei a assistir A Criatura do Cemitério, já estava me preparando para o pior. Afinal de contas, é um longa metragem que adapta um conto de 25 páginas escrito por Stephen King, e deus sabe como isso cheira mal. A enorme maioria dos filmes baseados em contos curtos tem que acrescentar bastante coisa para aumentar a duração e fechar o tempo de um longa, o que muitas vezes acaba matando o espírito da história. E adaptações de Stephen King costumam inventar coisas demais ou mudar o que não deve, o que acaba gerando um produto cinematográfico radicalmente diferente da história original.

Mas de vez em quando os cineastas dão uma dentro, e foi o caso aqui. A Criatura do Cemitério é um ótimo filme, certamente não uma obra prima, mas ainda assim muito divertida. Baseado no conto Último Turno, do livro Sombras da Noite, esse é um raro caso de como aumentar uma história curta sem inventar ladainha demais, e desenvolver melhor detalhes apenas sugeridos no original.

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O filme já começa interessante, mostrando um empregado do turno da noite (graveyard shift) da Companhia Têxtil Bachman operando uma enorme máquina de processamento de algodão. O lugar é infestado de ratos que deixam o cara puto a ponto de começar a jogá-los nas lâminas da máquina para passar o tempo. Então, uma figura misteriosa surge da escuridão e o faz cair dentro da mesma máquina, sendo esquartejado enquanto os ratos se banqueteiam com os pedaços. Corpo destroçado, sangue aos borbotões e ratos famintos. E tudo isso antes dos créditos iniciais!

Surge então o chefão da companhia, Warwick (Stephen Macht de Deu a Louca nos Monstros, excelente em cena), que é o típico patrão filho da puta. Ele vem subornando a vigilância sanitária para não ter a fábrica fechada por conta da infestação de ratos no local, e contrata um exterminador, (interpretado por Brad Dourif, mais insano do que nunca) que ficou traumatizado na guerra do Vietnã ao ver um amigo sendo servido aos ratos pelos vietcongues.

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Estes dois são os personagens mais legais do filme (ironicamente o exterminador não estava no conto), e são responsáveis pelos melhores momentos. Mas o verdadeiro personagem principal é John Hall (David Andrews, que fez pequenos papéis em diversos filmes importantes, e aqui está apático), que chega à cidade e arruma emprego na Indústria. A heroína é Jane Wiskonsky (a fofinha Kelly Wolf), outra empregada da fábrica. Comparando com o conto a alteração mais visível ocorre na mudança da personagem Wiskosnsky, que no original era um gordo chato e covarde, e que no filme foi transformado numa gatinha que fica o tempo todo de umbigo de fora fazendo trabalho pesado até ficar toda suada e suja. Ou seja, mudou para melhor.

Quando já estamos nos esquecendo que este é um filme de horror, finalmente a tal criatura dá as caras, destroçando um empregado no porão da fábrica. Vale dizer que os efeitos são convincentes, usando de bonecos de borracha, que sem dúvida tem mais credibilidade do que aqueles superestimados efeitos de computador que provavelmente seriam utilizados hoje em dia.

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Voltando à história, Warwick começa a dar em cima de Jane, mas ela obviamente prefere arrastar a asa para John. A certa altura, a namorada de Warwick, Nordelo (Ilona Margolis), irada de ciúmes se revolta contra ele, primeiro destruindo seu carro com um machado e depois roubando documentos que obrigariam a fábrica a ser fechada. Mas, indo embora na escuridão, ela rola escada abaixo e acaba sendo banquete para os ratos, antes de se tornar a nova vítima da criatura.

E a partir daí, não tem muita novidade. Basicamente a trama é essa: o conflito de Warwick com os operários, um rápido envolvimento romântico entre Hall e Jane, a criatura devora alguém, um monte de ratos por toda a parte, e por aí vai. As cenas mais criativas são as que envolvem o exterminador: Brad Dourif está excelente em cena, provando que não importa o tipo de filme, ele sempre dá o máximo de si. Só é uma pena o fim abrupto do personagem, que podia ter uma boa participação no clímax do filme.

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E falando no clímax, tente visualizar isso: um grupo de pessoas sem defesa ou qualquer comunicação com o mundo exterior presas num labirinto de esgotos e catacumbas, sendo perseguidos por uma criatura gigante e voraz, correndo às cegas enquanto morrem um a um até chegarem ao covil do monstro, uma enorme galeria com pilhas e pilhas de esqueletos humanos onde terão que enfrentar não apenas a criatura, mas um ao outro. Precisa dizer mais?

Tem que tirar também o chapéu pra Stephen Macht, que é a perfeita encarnação do Warwick descrito por Stephen King no conto. Sacana e filho da puta, Warwick tem ainda a habilidade de sempre aparecer do nada sem que ninguém perceba, justo na hora em que alguém está falando mal dele. Atire a primeira pedra quem nunca teve um chefe desses.

Eu já estava me preparando para xingar as distribuidoras brasileiras pelo título nacional A Criatura do Cemitério. Acontece que enquanto a palavra “graveyard” sozinha significa “cemitério”, a expressão “graveyard shift” quer dizer “último turno”, ou “turno noturno”, e não há nenhum cemitério no conto. Mas, surpresa, há sim um cemitério envolvido no filme, e é de lá que vem um dos momentos mais assustadores, envolvendo um esqueleto e um caixão usado como bóia.

Algumas curiosidades: em determinada cena, um personagem aparece lendo o livro Ben, que é justamente a história de um rato assassino. O nome da fábrica (Bachman Mills) é uma referência direta a Richard Bachman, pseudônimo com o qual Stephen King assinou alguns de seus livros. E em certo momento, Jane diz ser de Castle Rock, cidade fictícia presente em muitas histórias de King (e que não é citada no conto original).

Enfim, é isso. A Criatura do Cemitério realmente me surpreendeu, ficou na boa média de adaptações de contos de Stephen King, e deveria ser redescoberto pelos fãs de horror. Não é particularmente perturbador ou violento, trata-se de um filme feito apenas para entreter e dar um ou outro bom susto. E quem dera tivéssemos mais destes e menos de filmes ocos e chatos de diretores vazios que se acham capazes de perturbar a audiência, mas são incapazes de contar uma história com início meio e fim.

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8 Comentários

  1. Daniel

    Sabe Não quero apenas Ressaltar esse filme como Base pois seria Pouco Infelizmente a gente esta acostumado com lixos e Bombas que sabemos como começa e como termina o máximo que faz é nos deixar tenso e nada mais cada a Magia de antigamente que a perna pesa sua cara fica como o Cenário do filme você fica com medo e depois que acaba o filme de da essa sensação nossa parece que entrei no filme de tão bom que é a Criatura do Cemitério Mostra que se pode fazer um filme Acima da Média sem apelar para Entidades,Chifrudos,pessoas que enlouquecem por estarem presas ou coisas mais imbecis e banais como Assassinos de meia Tigela que nem sabem por que estão Matando ou Torturar uma pessoa esse Cinema Pobre que chamamos de terror e esta longe de ser mas Criatura do Cemitério o mais legal é que você não sabe como surgiu esse ser Assustador que deveria ser um molde para outros Personagens este filme esta entre os dos melhores filmes de terror que já assisti e sempre quando eu assisti-lo de novo vou aplaudi-lo por fim merecia nota máxima mas vai do ponto de vista de cada um mas dou meus Parabéns a vocês do Boca que explicaram muito bem a Resenha do filme ainda que sempre tenha frases nada a ver da opinião pessoal de vocês mas ótimo pois quando na época eu não lembrava do filme escrevia no Google e aparecia uma entidade que perseguia e matava as pessoas numa Refinaria Entidade aonde de onde Tiraram isso se a Graça do filme é a Criatura Valeu Pessoal

  2. Finalmente tive o prazer de ver esse ótimo filme , adaptação maravilhosa !
    ” Graveyard Shift ” de 1990 agora faz parte da minha coleção !
    Eu destaco os personagens o chefe da fábrica , o exterminador que é insano e principalmente a criatura que é surpreendente !
    Altamente recomendado

  3. Tem filmes que acertam mesmo em adaptar contos curtos, vide “Re-animator”. Deviam se inspirar nesses filmes para as adaptações de outros livros do King.

  4. Ta aí um filme que faz muito tempo que quero ver e não tive oportunidade , mais depois de diversos elogios agora virou obrigação .

    • Carlos Valente

      Eu vi esse filme na casa de um vizinho, em 1992, em VHS!! Nossa, quanto tempo!!! Meu pai também viu e gostou muito e agora pelo YouTube, poderemos, finalmente, assistí-lo!!! Para mim, nota 10 pra o filme!!! Um abraço a todos aqui!!! ^J^

  5. Cristina

    Adoro esse filme! terror da madrugadas.

  6. Ismael Monteiro

    Excelente filme e adaptação , parabéns pelo post.

  7. Murilo

    Já estava me perguntando se não iriam comentar essa adaptação, haha xD

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