Críticas

Perseguição Assassina (2006)

A diferença entre este e tantos outros slashers é que Arquette opta por uma homenagem despretensiosa ao exploitation de Craven e Hooper!

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Perseguição Assassina
Original:The Tripper
Ano:2006•País:EUA
Direção:David Arquette
Roteiro:David Arquette, Joe Harris
Produção:David Arquette, Evan Astrowsky, Courteney Cox, Neil A. Machlis, Navin Narang
Elenco:Jaime King, Thomas Jane, Lukas Haas, Richmond Arquette, China Crawford, Paz de la Huerta, Alan Draven, Ben Gardiner, Balthazar Getty

“Hippie é alguém que se parece com Tarzan, anda como a Jane e cheira como a Cheetah” – Ronald Reagan

Momento cultura no Boca do Inferno: Ronald Reagan, nascido em 6 de fevereiro de 1911 foi um ator sem muito sucesso que acabou se tornando o 40º presidente dos Estados Unidos pelo partido republicano. Mas antes foi governador da Califórnia onde reprimiu manifestações estudantis contra a Guerra no Vietnã.

Na presidência Reagan cumpriu dois mandatos entre 1981 e 1989. Nesse período sofreu um atentado a bala, engajou uma campanha ferrenha contra as drogas, foi uma das pontas da Guerra Fria e participou de alguns escândalos, ou seja, foi um grande bastardo como a maioria dos presidentes estadunidenses, falecendo em 2004. E o que tem isso a ver com o filme analisado? Tudo, se levarmos em consideração que nesta breve biografia incluirmos que Ronald Reagan também foi um assassino serial no filme de estreia na direção de David Arquette, mais conhecido por sua participação como o Dwight Riley na franquia Pânico.

Também produzido e co-roteirizado por Arquette, The Tripper ou Perseguição Assassina, como lançado nacionalmente (péssimo título por sinal), é uma “visão política” e “mais drogada” de Sexta-Feira 13, porém ao invés de uma máscara de hóquei nosso assassino usa um terno estilizado com um disfarce do rosto do Presidente Reagan, e em vez de usar um facão, nosso antagonista prefere um machado bem afiado.

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A diferença entre este e tantos outros slashers é que Arquette opta por uma homenagem despretensiosa ao exploitation de Wes Craven e Tobe Hooper (como declarou abertamente em entrevistas) e o faz misturando violência, gore e bastante humor negro. E nessa mistureba toda há espaço inclusive para, acredite, panfletagem anti-Bush e protestos ecológicos, mas sobre isso falamos mais tarde.

Outro diferencial e a principal força da produção está no elenco, afinal Arquette é bem influente e possui uma família de atores conhecidos todos dando uma força para alavancar a película. Vejamos: David Arquette por si só já é um ator conhecido, faz uma ponta e era, até então, casado com Courteney Cox (também de Pânico), que além de co-produtora, faz outra ponta. David é irmão de Patricia Arquette, cujo marido era, na época, Thomas Jane (O Justiceiro), que interpreta o xerife. Ainda há espaço para o irmão Richmond Arquette (Zodíaco), Jaime King (Sin City), Paul Reubens (Batman Returns), Jason Mewes (O Balconista)… Ufa… Todo mundo pagando os micos juntos, hahaha…

David Arquette teve grandes problemas para lançar devidamente seu debut. O caso é que a distribuidora After Dark Films adiou por várias vezes o lançamento (pelo festival itinerante “8 Flms to Die For“), até que o diretor se encheu, rompeu o acordo de distribuição e lançou ele mesmo de maneira independente. Deste jeito o circuito ficou ainda mais restrito – estreando em apenas 50 cinemas – e se tornou praticamente um direto para DVD em vários países como no Brasil.

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O filme começa com cenas fortes da Guerra do Vietnã e a manjada passagem das “origens do assassino” – recurso bem familiar nos anos 80: uma série de ativistas hippies invadem uma reserva ecológica em 1967 e impedem os lenhadores de trabalhar. Um destes lenhadores, um senhor chamado Dylan Riggs (Redmond Gleeson), tem a esposa doente e precisa do emprego para pagar seus remédios. Os argumentos não convencem os hippies que se mantém ao redor das máquinas dos lenhadores e permanece a discussão.

Os ânimos esquentam e Dylan é agredido com uma pedrada; a fúria toma conta do homem que parte com o machado pra cima de seu agressor. A polícia aparece, porém, de repente, o filho do lenhador (interpretado por Noah Maschan quando criança e na segunda fase por Christopher Allen Nelson) pega uma motosserra e abre um talho na garganta do hippie, vingando seu pai. Pronto, está estabelecido mais um lunático maníaco homicida…Hehehe.

Muitos anos mais tarde na mesma bat-floresta acontecerá um festival hippie organizado por Frank Baker (Paul Reubens) com ajuda de um suborninho para o prefeito Hal Burton (Rick Overton, Malditas Aranhas). Quem não gosta nada da história é o oficial Buzz Hall (Thomas Jane), pois nos anos anteriores sempre apareciam alguns mortos por overdose ou desaparecimentos misteriosos na floresta; só que não adianta discutir, logo o local estará repleta de amantes da natureza, amor livre e drogas, muitas drogas.

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Nesse ínterim é apresentado a nós o grupo de vitimas potenciais: Jack (Stephen Heath), Linda (Marsha Thomason), Joey (Jason Mewes), Jane (Paz de la Huerta) e a mais-que-obvia “garota finalSamantha (Jaime King) e seu namorado Ivan (Lukas Haas, A Ponta de um Crime). O grupo se envolve em uma confusão com os caipiras locais, com o velho Dylan Riggs e contudo chegam ao festival e lá se encontram tantos outros como eles, fazendo com que Buzz tenha um imenso trabalho para manter a ordem.

Um pouco de sexo, narcóticos e enrolação depois, os amigos estão na floresta até que um velho misterioso lhes explica que a floresta é perigosa e que nos últimos anos se tem ouvido muitos sons e encontrando pessoas mortas das mais diversas maneiras. É a versão de Arquette para o “louco do posto de gasolina“.

Não tarda muito e o velho é decapitado por um homem com uma realista máscara do presidente Ronald Reagan. E começa mais uma vez a correria, desconfiança e investigações típicas, sempre oscilando entre algumas sacadas divertidíssimas como a ponta de Courtney Cox e o porco do assassino que se chama “George W.” (!) e outras bem horrorosas como o “musical” que Ivan faz para Samantha.

O roteiro é raso assim mesmo – sem surpresas ou revelações surpreendentes – até porque a maneira que Arquette conduz a história não permite este tipo de desenvolvimento dos personagens, o que infelizmente não explora todo o potencial que um filme deste nível poderia alcançar.

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Em contrapartida o elenco faz toda a diferença para que a experiência seja mais satisfatória: o grande destaque é Paul Reubens. Ele personifica um Frank Baker canastrão e descolado que lembra muito Tom Savini quando lhe é dado um bom papel. E protagoniza uma impagável cena envolvendo um banheiro químico que Martin Weisz deveria ter sentado e assistido para colocar em O Retorno dos Malditos.

A violência é garantida, muito embora ela tarda a começar por causa do princípio lento e as sub-tramas que não levam a lugar algum e, além disso, quando acontecem alguns efeitos, eles são hilários de tão ridículos (me pergunto se foram feitos assim de propósito).

No entanto o capricho com a maquiagem de “Ronnie” é invejável com todas as suas expressões comicamente exageradas a cada assassinato. Essa dedicação em se fazer um vilão que seja ao mesmo tempo assustador e identificável com o público está a milhas de distância das pretensões do Halloween, de Rob Zombie, por exemplo.

A quantidade de putaria e nudez gratuita (inclusive um deplorável nu frontal masculino) chega a ser constrangedora de tão escancarada, além do uso cavalar de drogas que causa o pior defeito do filme: Arquette abusa da visão “chapada” em primeira pessoa dos personagens principais, ora parecendo um caleidoscópio, ora alongando e distorcendo a imagem. Se serve de consolo, ao menos isso torna aceitável a imbecilidade habitual das vitimas.

E Arquette usa uma faca de dois gumes que é bastante comum ultimamente no cinema em geral: a denúncia política. Dizer contudo que The Tripper é uma versão slasher de Farenheit 9/11 é um grande exagero. A mensagem passada é sutil e provoca mais risos do que reflexões. E não que eu dê a mínima para a política americana (ou para a política em geral), mas é de se levar em consideração alguns dos pontos levantados por Arquette: uma árvore é mais importante do que uma vida humana? Os hippies são ou eram tão inocentes assim? Bem como todo discurso inflamado sobre a guerra e ética política dos créditos finais, dando um pouco mais de conteúdo do que um filme deste nível normalmente possui.

Mesmo com grandes falhas e limitações é inegável que Arquette tem um grande futuro como diretor. Um grande exemplo é a cena do massacre na fogueira, uma das sequências mais divertidas e bem filmadas dos slashers atuais, mostrando que o horror “old school” ainda não morreu. Apenas lamento que não tenha sido lançado nos cinemas brasileiros, porque esta é uma excelente esquecível sessão de sábado a noite acompanhado de um grande balde de pipoca. Quem sabe quando vier a continuação (se vier), ela ganhe uma oportunidade de provar o seu valor na tela grande.

Curiosidades

– Choveu muito durantes as filmagens e isso atrapalhou equipe e elenco, porém em um dos poucos dias que isso não aconteceu foi o dia das filmagens das cenas com chuva, de forma que precisou ser feita uma chuva artificial para que a filmagem acontecesse;

– Quando David Arquette faria uma prévia do filme na San Diego Comic-Con International de 2006, o material que seria exibido misteriosamente sumiu da convenção. David ofereceu um carro usado na produção para quem devolvesse o material;

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