Críticas

Refém do Medo (2016)

Um desperdício do talento de Naomi Watts em um suspense onde a credibilidade vai para as favas em sua “revelação bombástica”

Refém do Medo
Original:Shut In
Ano:2016•País:Canadá, França
Direção:Farren Blackburn
Roteiro:Christina Hodson
Produção:Ariel Zeitoun, Claude Leger, Christine Haebler
Elenco:Naomi Watts, Oliver Platt, Charlie Heaton, Jacob Tremblay, David Cubitt, Clémentine Poidatz

Apesar de o medo ser algo subjetivo, existe uma métrica objetiva quase infalível para você medir o quanto um filme de suspense é eficiente em manter seu público preso na cadeira. Normalmente a quantidade de tentativas sustos movidos por saltos de música e tensão provocadas por cenas que se passam somente nos pesadelos de seus protagonistas (exceto quando estes pesadelos fazem parte da narrativa, como nos filmes de Freddy Krueger) é inversamente proporcional à capacidade desta produção em desenvolver um roteiro que por si só seja capaz de permitir qualquer reação minimamente profunda em quem assiste.

Este artifício (ufa, era apenas um gato… Ufa, era apenas um sonho ruim…), cujo objetivo é unicamente enganar o espectador se usado frequentemente, não somente tira a veracidade da tensão da situação como, ao contrário, apenas revela as deficiências da trama, causando desde desinteresse até o extremo da raiva. Dos problemas de Refém do Medo, filme mais recente do diretor de Martelo dos Deuses, Farren Blackburn, e roteiro de Christina Hodson (creditada como uma das responsáveis pelo roteiro do vindouro Transformers 6), esta falta de substância é um dos pecados mais imperdoáveis que transformam o que poderia ser um thriller passável ou até um bom filme ruim, em um indutor de sono ou de dentes e punhos cerrados.

Mesmo que a divulgação tenha sido pífia e quase ninguém tenha tomado conhecimento de seu lançamento, o que ninguém pode argumentar é que Refém do Medo tinha um bom orçamento e talentos envolvidos, começando com a protagonista Naomi Watts (O Chamado), que interpreta uma psicóloga infantil chamada Mary Portman. Ela perde seu marido logo nos primeiros minutos de projeção, morto em um acidente automobilístico enquanto dirigia com seu filho com problemas de comportamento para uma escola que seria mais apropriada para seu temperamento. O garoto, Stephen (Charlie Heaton, revelado em Stranger Things) era um garoto cheio de raiva, adolescente que odiava tudo, mas, na maior das ironias, a psicóloga não conseguia aplicar suas habilidades profissionais para ajudar seu enteado problemático.

Depois do acidente que vitimou o marido, Stephen ficou com graves sequelas, aparentemente com danos cerebrais em um estado semi-vegetativo, e Mary agora passa seus dias entre os cuidados intensivos que Stephen precisa e o atendimento a crianças no seu consultório anexo a casa. No meio do caminho, Mary está consultando um jovem menino surdo chamado Tom (Jacob Tremblay, queridinho da crítica pelo oscarizado O Quarto de Jack, em 2015), contudo sua mãe pretende se mudar para outra cidade, interrompendo o lento progresso do tratamento, mesmo com sérias objeções da psicóloga.

Na mesma noite Tom desaparece durante uma tempestade de gelo e está presumidamente morto. Portman está profundamente sentida com a perda, o que lhe faz imaginar que talvez seus sonhos e os sons estranhos que anda ouvindo durante a noite sejam seu fantasma que está assombrando a ela e ao seu enteado. Ah, sim, também tem Oliver Platt (Chicago Med) ganhando um chequinho fácil no papel de um psiquiatra que atende Mary via Skype, racionalizando as crises e alucinações que ela está tendo.

Com uma sinopse desta parece difícil de imaginar como a tensão acontece, e a única forma que o diretor consegue fazer é com saltos de música e pesadelos por pelo menos dois terços de filme. Fica ainda mais complicado quando nos é apresentada a reviravolta, uma das mais rasteiras e toscas do cinema contemporâneo, gerando uma quantidade absurda de perguntas sem resposta, inclusive ignorando alguns eventos que se passaram anteriormente. Soluções inaceitáveis para qualquer pessoa que tenha visto um bom filme de terror antes e a preguiça de criar uma conclusão satisfatória selam o destino da obra de Farren Blackburn.

É uma pena que tantos bons nomes tenham se perdido em um projeto tão sem graça, cuja única qualidade, talvez, seja a fotografia localizada em Quebec, Canadá, que consegue imprimir o misto de isolamento e beleza campestre, que produções do gênero precisam para funcionar. Naomi Watts, com duas indicações ao Oscar, amarga agora uma inédita indicação ao Framboesa de Ouro de 2017 pelo seu papel em Refém do Medo – não exatamente por sua interpretação, que chega a dar um pouco de dignidade à produção, – mas pela péssima escolha de estar nesta bomba.

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1 Comentário

  1. Bruno Martins

    O filme traz um enredo paralelo a psique humana cheia de paradoxos comumentes dessa nova era, onde os personagens estão interligados de forma catalizadora…(Eita. Me perdi um pouco tentando comentar de forma bonita… –‘ )

    Aaaahhh mano, o filme é uma merda! (Pronto!) Fraco pra caramba. O roteirista tentou fazer bolo de cenoura e no final saiu de fubá. A massa não cresceu. O recheio grudou no fundo da panela. Desandou tudo! Fui refém do meu sono tentando assistir até o final.

    Será que a Naomi (sempre linda) leu o roteiro antes de assinar pra fazer esse filme? (Tadinha. Tava com preguiça que nem eu acho)

    A Casa dos Sonhos conseguiu ser melhorzinho que esse “Shit” In.

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