Críticas

Animais (2017)

O quebra-cabeça proposto por Greg Zglinski pode não ter todas as peças, mas permite a antecipação visual de um quadro belíssimo

Animais
Original:Tiere
Ano:2017•País:Suíça, Áustria, Polônia
Direção:Greg Zglinski
Roteiro:Jörg Kalt, Greg Zglinski
Produção:Stefan Jäger, Katrin Renz
Elenco:Birgit Minichmayr, Philipp Hochmair, Mona Petri, Mehdi Nebbou, Michael Ostrowski, Philip Lenkowsky

“Você é escritora? Está escrevendo sobre o quê?”. “Sobre uma mulher que assassina seu marido infiel.”

O quebra-cabeça proposto por Greg Zglinski pode não ter todas as peças, mas permite a antecipação visual de um quadro belíssimo. Talvez seja essa inteligência narrativa, na composição de personagens complexos e cheios de manias, e a utilização de uma metalinguagem disposta em pequenos traços que tenham levado o público às palmas em uma das exibições do filme Animais na 41ª Mostra Internacional de Cinema de SP. Realmente é uma produção que permite reflexões através de suas simbologias ao passo que apresenta um enredo simples sobre traição e as consequências, escondidas numa análise rasa.

A escritora Anna (Birgit Minichmayr) acredita que seu marido, Nick (Philipp Hochmair), possa ter uma amante. Ele não a procura na cama há algum tempo, sempre distante em seus compromissos profissionais. Para reacender a chama desse frágil relacionamento, eles optam por uma viagem ao interior, deixando a casa sobre os cuidados de Mischa (Mona Petri), que deve alimentar os peixinhos e não entrar em um quarto, sob hipótese alguma. Prestes a pegar a estrada, Nick avisa que esquecera alguma coisa no apartamento, somente para se despedir de uma moradora de dois andares acima, Andrea (Petri novamente), com quem mantinha uma relação às escondidas, confirmando a suspeita de sua esposa.

Durante a viagem, Nick tem uma visão estranha: ele vê sua esposa sendo retirada do carro e brutalmente assassinada por ele mesmo. No passeio, entre brincadeiras de citar animais na escolha de letras do alfabeto, Nick se distrai e atropela uma ovelha, causando um acidente sangrento. Chegam ao chalé onde irão se estabelecer e o jogo narrativo começa: Anna encontra um quarto com a porta trancada, numa referência ao próprio mantido em casa. Conversas se desconectam, enquanto ela passa a dialogar com um gato. Algumas situações são apresentadas fora de ordem, alternando o contato de Mischa com dois homens: um médico e o namorado de Andrea. Anna continua imaginando seu marido com outras amantes, como a atendente de uma sorveteria (Petri em seu terceiro papel). Diálogos confusos representando o desencontro do casal, um salto temporal, e o trágico suicídio de Andrea vão trazendo mais incertezas e questionamentos até a sequência final, quando os encaixes das peças apresentadas parecem não combinar à primeira vista, porém fazem todo sentido na revisão do encontro com a ovelha.

Greg Zglinski conduz a câmera com precisão, escolhendo os melhores ângulos para a composição do quadro – a melhor e a sequência do suicídio. Ele é beneficiado pela excelente interpretação de Birgit Minichmayr, no papel de uma mulher insegura em seus devaneios literários. E o enredo brinca com a sua linguagem desfigurada a todo momento, seja na própria confissão do gato sobre sua “fala sem mexer os lábios” ou quando o marido diz estar vendo a esposa fora do chalé, enquanto conversa com ela na sala. Na mesma hora, ela anuncia que irá deixá-lo, mas sua fala é compreendida de uma maneira diferente pelo marido, disposto a ouvir somente o que lhe interessa.

Com seus mistérios e enigmas, Animais agrada e diverte, propondo ao espectador a interpretação do que está acontecendo. Mesmo que crie suas próprias teorias, o deleite de uma trama de reviravoltas que não saem do lugar já faz valer toda a experiência.

Leia também:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *