
![]() Bubba Ho-Tep
Original:Bubba Ho-Tep
Ano:2002•País:EUA Direção:Don Coscarelli Roteiro:Don Coscarelli, Joe R. Lansdale Produção:Don Coscarelli, Jason R. Savage Elenco:Bruce Campbell, Ossie Davis, Bob Ivy, Ella Joyce, Heidi Marnhout, Edith Jefferson, Larry Pennell, Reggie Bannister, Daniel Roebuck, Daniel Schweiger, Harrison Young |
O cinema de Don Coscarelli até então se resumia basicamente à franquia Fantasma, iniciada em 1979 com Fantasma: Noite Macabra. Em 2002, ele resolveu desenvolver uma produção claustrofóbica e extremamente inventiva, com Bruce Campbell interpretando Elvis Presley ao lado de um JFK (Ossie Davis) vivo e negro no combate a uma múmia egípcia que se alimenta de almas através de orifícios do corpo humano. Tem como ser mais criativo que isso? Não é por acaso que o longa tenha recebido boas críticas e levado o Prêmio Bram Stoker de Melhor Roteiro!
Mesmo com uma filmografia repleta de pontas e participações, o protagonismo na trilogia Evil Dead e na série As Aventuras de Brisco County Jr. (1993-1994), Bruce Campbell era reconhecido como um carismático ator canastrão de produções B. Sabia disso quando escreveu sua própria biografia, “If Chins Could Kill: Confessions of a B-Movie Actor“, publicada em 2001. Bubba Ho-Tep foi um curioso divisor de águas, apresentando Campbell em sua interpretação mais ousada e convincente, sem precisar mexer os quadris ou cantarolar sucessos de Elvis.
O longa é inspirado em um conto homônimo de Joe R. Lansdale, de 1994, que fez parte de uma antologia sobre Elvis Presley intitulada The King is Dead. A ideia para o texto surgiu quando o autor assistiu ao clássico A Múmia, de 1932, dirigido por Karl Freund, com Boris Karloff interpretando Imhotep. Lansdale imaginava que, se a múmia fosse oriunda do leste do Texas, ela se chamaria Bubba Ho-Tep. Daí para colocar o suposto Rei do Rock ao lado de um também suposto John F. Kennedy era só questão de trabalhar a criatividade, ainda mais tendo uma ameaça sobrenatural no local.
No The Shady Rest Retirement Home, o paciente Sebastian Haff (Campbell), com mobilidade reduzida devido a um acidente, afirma a todos que é o verdadeiro Elvis Presley e que trocou de identidade com um imitador décadas antes para escapar do peso da fama. Como perdeu as provas num incêndio/explosão e o verdadeiro Haff faleceu em 1977, restaram a ele suas lembranças e a chacota daqueles que acreditam tratar-se de mais um idoso com ideias confusas. Elvis é amigo de Jack (Davis), que alega ter sobrevivido ao atentado de 22 de novembro de 1963, a cargo de Lee Harvey Oswald, e foi “tingido de preto” e colocado no asilo por Lyndon Johnson. Sua única prova da veracidade de seus relatos é uma cicatriz na parte posterior da cabeça.
Eles se unem para enfrentar uma múmia egípcia, roubada de um museu e que teria caído em um rio próximo após o ônibus que a transportava ter se acidentado durante uma forte tempestade. Vestindo-se como um caubói, a entidade aproveita as madrugadas para visitar os residentes e sugar suas almas. Uma troca de olhares com Elvis é suficiente para este ter um vislumbre do passado e consciência da ameaça. O local se mostra ideal para as ações da criatura, uma vez que diariamente dois reflexivos trabalhadores do IML (Daniel Roebuck e Daniel Schweiger) levam os falecidos embora. Mas como enfrentar Bubba Ho-Tep, se os dois idosos têm dificuldade de movimentação e nem possuem armas suficientes para um combate?
Coscarelli lida com sua fantasia bem-humorada ao mesmo tempo que toca em questões sensíveis como envelhecimento, abandono, limitações e existencialismo. Os dois personagens centrais lidam com a morte e a decadência física enquanto resistem à ameaça, conscientes de que estão sozinhos nessa jornada e serão sempre desacreditados. Ora, se não conseguem convencer que são Elvis e JFK, como irão provar que há uma múmia egípcia circulando no local, pichando frases no banheiro e aguardando o momento de ceifar os residentes?
As temáticas essenciais e as boas críticas levaram Coscarelli a imaginar uma sequência tão insanamente criativa quanto esta. Ao final dos créditos, há uma brincadeira com o título Bubba Nosferatu: Curse of the She-Vampires, algo que nunca se concretizou — ainda mais depois que Bruce Campbell se desentendeu com o cineasta. A trama seria ambientada nas décadas de 50 ou 60 e traria, além de Campbell, Paul Giamatti como o Coronel Tom Parker. Giamatti curtiu tanto a proposta que tentou arrecadar valores para a realização, sendo apoiado pelo autor, Lansdale, que publicou em 2017 o conto Bubba and the Cosmic Bloodsuckers. Sem conseguir dinheiro para o filme, a IDW Publishing transformou a ideia em uma graphic novel, expandindo posteriormente para uma continuação de Bubba Ho-Tep que colocou Elvis ao lado de Ash Williams em um divertido crossover com Army of Darkness.
Sem conseguir que Elvis retorne às telas em mais uma ótima atuação de Bruce Campbell, Coscarelli só faria mais um filme com temática doida: John Morre no Final (John Dies at the End, 2012), um sci-fi absurdamente estranho que não traz Elvis com dificuldade de ereção, mas promove outras loucuras de um cinema nonsense.




