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“Um período de respeito, magia, espiritualidade e medo que ficou perdido no tempo, assim como as histórias e mitos que deram origem ao Halloween. ”

por Filipe Falcão

Uma vez por ano, durante a noite, as almas daqueles que morreram retornam com a intenção de possuir corpos vivos para habitarem pelos próximos 365 dias. Tal possibilidade poderia muito bem ser o enredo de um filme de terror, mas trata-se apenas de uma das lendas e costumes dos eventos que deram origem à comemoração de Halloween. Antes de ser uma festa voltada para o comércio e a diversão, o Dia das Bruxas era uma noite de magia, medo, crendices e superstições que foram fundamentais para a permanência da data, cerca de 2.500 anos depois.

Infelizmente a maioria das pessoas desconhece a origem do Halloween, vendo na ocasião apenas uma oportunidade para festas e brincadeiras. Não que tal aspecto de comemoração seja um ponto negativo, afinal, todas as grandes festividades e datas importantes, do Natal ao Carnaval, recaem hoje dentro deste significado. Porém, é importante saber um pouco sobre o que se comemora. No Brasil, a festividade começou a ganhar adeptos no final nos anos 80, quando começaram a ser organizadas festas, as primeiras através de cursos de inglês.

Para entender um pouco sobre a origem do Halloween, precisamos voltar no tempo e conhecer outros povos e regiões encontrados hoje apenas em registros de livros e crendices populares. É do século VI a. C. os primeiros relatos referentes ao povo celta, que, de acordo com a história, surgiu originalmente na região leste do país que é conhecido hoje como Alemanha. Foi através dos seis séculos que tiveram de existência, que os celtas se consolidaram como um importante povo e se expandiram por diversas regiões da Europa, em especial a Irlanda. Tratava-se de uma população voltada para a agricultura e atividades de artesanato, que vivia em aldeias simples localizadas nas florestas ou próximo de cavernas e grutas. Porém, também era uma civilização ligada aos mistérios da vida, da natureza e que desenvolveram várias crenças relacionadas ao mundo não físico dos espíritos.

Os celtas se dividiam em várias classes e uma destas, considerada especial, era formada pelos druidas, que representavam os herdeiros e guardiões das tradições religiosas, ou melhor, os sacerdotes e magos da comunidade. Os druidas eram estudiosos da astronomia e da medicina, além de possuírem dons proféticos e acreditarem que a alma era imortal e podia reencarnar várias vezes. A instituição do druidismo foi um poderoso fator de unidade do mundo celta e, por isso, combatida pelos romanos durante as conquistas. Os druidas acreditavam em vários deuses e realizavam cerimônias e rituais que incluíam sacrifícios, inclusive humanos, em homenagem a esses deuses.

A cultura celta era extremamente bem organizada e o seu calendário era dividido em quatro meio trimestres, que na verdade representavam as estações do ano e eram adequadas às épocas para colheitas. O dia 31 de outubro era uma destas datas de transição marcando o fim do ano céltico e o começo da entrada para o inverno, ou seja, anunciava uma época em que não haveria colheita e deveria ser de privações. Para os druidas, 31 de outubro era a noite em que Samhain, deus celta dos mortos e príncipe das trevas, voltava com os espíritos dos não vivos. Segundo a lenda, todos que morreram ao longo daquele ano regressavam à procura de corpos vivos para possuir e usar até a próxima noite de 31 de outubro.

A vigília de Samhain passou então a ser considerada pelo povo celta como um dia maldito e de azar, pois os vivos não queriam ser possuídos pelas almas que vagavam nesta noite. Fogueiras eram acesas nas colinas para afugentar tais espíritos, enquanto que as tochas dos vilarejos eram apagadas para que o local fosse considerado frio e sem vida pelas almas e estas não circulassem pelo lugar. Alguns grupos de moradores das aldeias utilizavam “fantasias” e máscaras a fim de assustar os espíritos que procuravam corpos para possuir.

Halloween (3)

Durante esta noite, os druidas realizavam cerimônias com objetivo de apaziguar as almas errantes para que elas seguissem em paz para uma outra esfera da consciência. Eles também acreditavam ter premonições e visões de coisas boas e ruins durante esta vigília, e utilizavam vários tipos de magia, inclusive através do fogo. Era na noite de Samhain que os druidas queimavam vivos os prisioneiros de guerra, criminosos e animais; enquanto observavam a posição dos corpos em chamas, eles diziam ter presságios e avisos.

Por ser considerada uma noite mística, os druidas acreditavam que outros seres da natureza, como bruxas, fadas e duendes também saiam de seus esconderijos no dia 31 de outubro para prejudicar os vivos. Mesmo com o fim da civilização celta, por motivos desconhecidos até hoje, no século I d.C., os habitantes locais permaneceram com várias de suas tradições, incluindo as celebrações e vigílias do dia 31 de outubro.

Porém foi a Igreja Católica quem foi responsável pelo nome Halloween tão popular hoje em dia. Era então século VIII d. C., quando os cristãos já celebravam uma data importante para a sua religião, o Dia de Todos os Santos, que serve para homenagear as importantes entidades religiosas já falecidas da Igreja, que diferente da cultura celta, não acreditava em contato com o mundo espiritual ou reencarnação. Foi nesta época que o império romano estava dominando várias regiões e impondo o Cristianismo como religião obrigatória. E para a Igreja Católica, a única maneira de manter os pagãos nas missas, era permitindo a prática de algumas tradições e costumes originais destes povos dominados.

Foi no ano de 835 d. C., que o papa Gregório III, permitiu que os territórios recém ocupados pela Igreja, como a Irlanda, combinassem o antigo ritual de Samhain com as tradições cristãs, sendo a partir desta data que o Dia de Todos os Santos, que era celebrado no mês de maio, fosse transferido para 1 de novembro. E do inglês antigo “Hallowed“, que significa “All Hallows Eve“, em bom português “Noite de Todos os Santos“, surgiu o termo Halloween. Em 1840, os primeiros imigrantes irlandeses, em busca de prosperidade, foram viver nos Estados Unidos, Canadá e outros países e junto com eles, levaram seus costumes.

Fica uma dúvida? Por que então existe uma forte referência no Halloween às bruxas, uma vez que a tradução literal da palavra não tem alusão qualquer a bruxaria? Tal explicação real é desconhecida para esta dúvida. Sabe-se que os antigos druidas acreditavam em bruxas e julgavam que na noite do dia 31 elas saiam de seus esconderijos fortalecidas pelo espírito de Samhain. Também de acordo com lendas celtas, as bruxas se reuniam duas vezes ao ano, nos dias 30 de abril e 31 de outubro. Porém, tudo não passa de especulações e lendas.

Com a chegada do século XX, os festejos de Halloween já possuíam identidade como os que conhecemos hoje, quando as crianças saem às ruas usando fantasias de bruxas e monstros e visitando as casas vizinhas para recolher doces e outras guloseimas. Os adultos também comemoram a data em festas a fantasia com música e bebida.

No cinema existem diversos filmes, dos mais variados gêneros que abordam o tema do Halloween, porém, a grande maioria, independente de terem resultados bons ou ruins, passa longe de qualquer explicação mais profunda sobre o tema. Claro que nos próximos dias 31 de outubro, a maioria das pessoas vai e deve comemorar o Halloween da atual forma como conhecem, com festas, músicas e brincadeiras, porém é importante saber que, séculos atrás, um povo que não mais existe, via nessa noite um momento especial do ano. Um período de respeito, magia, espiritualidade e medo que ficou perdido no tempo, assim como as histórias e mitos que deram origem ao Halloween.

Curiosidades:

– Um fato interessante é que foi na própria cultura celta que surgiu um dos jargões mais famosos do Halloween da atualidade. O “Trick or Treat“, em português “gostosuras ou travessuras“. Para o povo celta, os espíritos malignos eram apaziguados quando se deixava comida para eles. Com o passar do tempo, os mendigos começaram a pedir alimentos em troca de orações para pessoas mortas. Após o fim da civilização céltica, através de uma lenda irlandesa, a frase teria ficado marcada graças a um homem que conduzia uma procissão que tinha como objetivo arrecadar oferendas de agricultores para que as colheitas não fossem devastadas por demônios. O tal homem ameaçava então os plantadores para que eles dessem comida, caso contrário, sofreriam com a travessura das almas maléficas em suas plantações.

– As tradicionais cores utilizadas nas decorações e fantasias hoje no Halloween, laranja, roxo e preto, também têm origem celta. A primeira era considerada de grande vitalidade e energia. Durante a noite de Samhain, os espíritos se aproximavam dos vivos, em especial dos que utilizassem roupas com o laranja, para sugar a energia encontrada na cor. O preto era utilizado em cerimônias religiosas por ser considerado cor de mestres enquanto o roxo representava a magia ritualística.

– Várias das tradições trazidas pelos imigrantes irlandeses foram mantidas, porém seria normal que com o passar do tempo acontecessem mudanças de alguns aspectos da celebração. Umas destas principais adaptações aconteceu com um dos símbolos máximos do Halloween, as lanternas feitas em abóboras, conhecidas como Jack-O-Lanterns. De acordo com uma lenda irlandesa, um homem chamado Jack encontrou com o diabo no dia 31 de outubro, mas conseguiu enganá-lo evitando a morte. Porém, um ano depois, na mesma data, Jack faleceu e foi proibido de entrar no céu por ser um homem grosso e avarento. Sem alternativa, foi para o inferno, porém o diabo não permitiu que ele ficasse ali. Com pena da alma penada, o diabo joga uma brasa para que esta vague eternamente pelo limbo. Para que ela não se apagasse, Jack a colocou dentro de um nabo. Quando a tradição chegou à América, as lanternas de Halloween começaram a serem feitas em abóboras, por serem maiores e mais abundantes. De acordo com a lenda, é possível ver nas áreas rurais irlandesas uma luzinha fraca na noite de Halloween por entre as árvores. Trata-se de Jack procurando por um lar.

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7 Comentários

  1. Também, creio que a sua exposição sobre o Samhaim celta está um tanto equivocado. Talvez, então, as fontes de pesquisa usadas para a elaboração do texto sejam textos de monges medievais e/ou o folclore irlandês ou escocês, escrito também com base em tais textos, em sua maioria.
    O festival do Samhain era festejado no início do inverno, “a metade mais escura do ano”, provavelmente no dia 31 de novembro, quando o “dia celta”, ou a metade mais clara do ano, segundo o calendário celta de então, tinha início. Era o período entre o equinócio de outono e o solstício de inverno, relacionando-se, assim, à natureza e seus ciclos, como diversos festivais antigos. O festival era amplamente observado na Irlanda, na Escócia e na Ilha de Man, e há indícios de ter sido festejado desde o neolítico.
    O Sanhaim era a época em que o gado era trazido dos campos onde pastava, e parte dele era abatido e guardado como provisão para o inverno. Fogueiras eram acesas, e rituais de adivinhação eram realizados à sua volta, geralmente atirando-se nozes ou sementes nas chamas, e lendo-se as cinzas quando a fogueira se apagava. Jogos também eram realizados em volta das fogueiras, tendo sido um deles o “jogo da maçã”, em que a fruta era colocada em um recipiente com água e o jogador tinha que pegá-la usando apenas os dentes. Essas fogueiras, segundo a crença celta, tinham poderes de proteção e de purificação, além de unir as pessoas a seu redor em laços de companheirismo e colaboração.
    O Sanhain era tido como um tempo de transição, que dava início a um processo, quando a fronteira entre este e o “outro mundo” podia ser cruzada mais facilmente. Isso significava que os “Aos Sí”, espíritos, podiam passar a este mundo com mais facilidade. Acreditava-se que os espíritos precisavam ser bem recebidos e propiciados, a fim de se assegurar que tanto pessoas quanto o gado sobrevivesses ao inverno, e para isso oferendas de comida e bebida eram deixadas para eles fora das casas. Também se acreditava que as almas dos mortos visitavam as casas onde haviam vivido, buscando hospitabilidade. Um banquete era preparado pelas famílias e lugar para elas era posto à mesa. Farsas e pantominas eram realizadas, com versos sendo recitados por participantes do festival, que também usavam disfarces e fantasias para pedir comida de porta em porta. Este costume pode ter sido um modo de imitar os espíritos.
    Com a anexação de terras gaulesas por Julio Cesar, nas chamadas Guerras Gaulesas (58 Ac – 51 AC), o declínio da cultura de suas tribos teve início. Entre 14 AC e 37 AC, o imperador Tibério passou leis banindo todas as práticas druidas, inclusive as adivinhatórias e as de cura. No séc.9 o cristianismo mudou a data do Dia de Todos os Santos, no que eventualmente o festival foi transformado através do tempo, para 1º de novembro, e o dia 2 de novembro, mais tarde, ficou sendo o Dia das Almas.
    Na Idade Média, monges cristãos descreviam, então, o Sanhaim como um festival essencialmente realizado para os mortos, quando as “portas do outro mundo” eram abertas, enquanto que para os antigos celtas ele havia sido um festival pela a vida e para os vivos, em que também se homenageava os entes queridos mortos, buscando-se sua ajuda. O folclore se encheu de histórias sobre monstros soltando chamas pelas narinas e queimando vilas e cidades, e sobre sacrifícios humanos durante o Sanhaim. No Lebor Gabála Érenn (ou “Livro das Invasões”), em todo Samhain o povo de Nemed tinha que dar um terço de suas crianças, de seu milho e do leite para o monstro Fomorians. Incontáveis histórias sobre os horrores e a heresia do festival foram passadas adiante, e provavelmente foi assim que a noite de halloween passou, então, a ter esta forte conotação que tem hoje em dia, da noite em que poderes sobrenaturais, quase sempre malígnos e negativos, passeiam livremente entre os vivos, em contraposição ao Dia dos Mortos cristão.
    O Neo-Paganismo e os Reconstrucionistas Celtas, no entanto, insistem na precisão histórica, baseando suas festividades em pesquisas históricas e na crença politeísta celta. Os Wicca celebram a vida daqueles que morreram, com homenagens a ancestrais, familiares e membros mais velhos, assim como a animais de estimação que morreram. Em alguns de seus rituais, os espíritos são invocados.
    Ecos longínquos do Samhain encontrados no cristianismo, referem-se apenas a homenagens prestadas às almas dos fiéis, ou cristãos, já falecidos, no dia das Almas, e a todos os Santos, conhecidos ou desconhecidos, no Dia de Todos os Santos. Ecos dos escritos de monges medievais e, depois, do folclore, persistem, no entanto, com mais evidência.
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  2. Olá, adorei o blog, bem feito, organizado e repleto de informação. O artigo é muito bom, mas creio que ao menos uma observação sobre sacrifícios humanos terem sido realizados por druidas poeria ter sido adicionado a ele. Diversos textos afirmando esta prática são romanos, como o texto de Julio Cesar (100 AC – 44 AC) sobre os druidas, e o manuscrito Commenta Bernensia, e por isso mesmo considerados ambíguos, não exatamente precisos, por parte de alguns historiadores, que consideram a possibilidade deles trem sido escritos com o propósito de difamar, perseguir e destruir as crença e a religiosidade do povo conquistado, e assim confirmar sua superioridade cultural. O cristianismo e o judaísmo também receberam tipo semelhante de tratamento em textos sobre eles.

    Nora Chadwick, iminente especialista em Literatura Medieval Irlandesa e Galesa, afirma que os druidas foram grandes filósofos e que os textos romanos e gregos sobre seu envolvimento em sacrifícios humanos tratava de “propaganda imperialista”. Alexandre de Mileto (séc.I AC ) os descreveu como filósofos e chamou suas crenças na imortalidade da alma e na reencarnação como “pitagóricas”, assim como Diodoro Sículos, que em 36 AC escreveu que eles seguiam a doutrina pitagórica sobre vida após a morte.

    No campo da Arqueologia o mesmo acontece, com diversos arqueólogos dando diferentes interpretações, por exemplo, às valas comuns encontradas em Gaul, França, em dois santuários de tribos celtas que alí viveram e que, em um primeiro momento, constituíram forte evidência sobre práticas sacrificiais humanas. Em vez disso, o arqueólogo Martin Brown, entre outros, considerou que os corpos alí encontrados eram de guerreiros mortos em batalha.

    A discussão e as diferentes interpretações podem jamais virem a ser esclarecidas definitivamanete, a não ser que evidências irrefutáveis venham a ser encontradas, mas creio que a observação sobre elas deveria ser feita. Obrigada, e parabéns pelo blog!
    Anya

  3. Artigo muito bem elaborado. Parabéns! Queria que o site do Boca do inferno tivesse uma mudança simples no visual para as datas de halloween. Como, por exemplo, no lugar das caveiras no fundo, abóboras e/ou bruxas. Abraços! Cada dia mais, adoro vocês

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