![]() A Morte do Demônio: Em Chamas
Original:Evil Dead Burn
Ano:2026•País:Nova Zelândia, EUA Direção:Sébastien Vanicek Roteiro:Sébastien Vanicek, Florent Bernard Produção:Sam Raimi, Rob Tapert Elenco:Souheila Yacoub, Tandi Wright, Hunter Doohan, Luciane Buchanan, Erroll Shand, Maude Davey, George Pullar, Greta van den Brink, Keanu Karim, Victory Ndukwe, Tapiwa Soropa, Lara Macgregor |
Ao vasculhar antigos pertences de seu falecido avô Benjamin (Michael Hurst), membro de uma organização secreta conhecida como O Círculo dos Sábios, Joseph Price (Hunter Doohan) acaba despertando a deadite Jessica (Greta van den Brink, de A Morte do Demônio: A Ascensão (Evil Dead Rise, 2023), que provoca a morte de Will (George Pullar), irmão de Joseph. Juntamente com a viúva de Will, Alice (Souheila Yacoub), os Price se reúnem em sua casa do lago para lidar com o luto, mas uma série de possessões demoníacas começa a ruir a já frágil estrutura familiar.
Um dos aspectos mais interessantes que a franquia Evil Dead (1981 – 2026) tem estabelecido é uma certa vocação para a antologia, onde cada filme – ao menos os três últimos – funciona como uma história separada e autocontida, tendo como unificador o Livro dos Mortos, além de uma e outra referência. A autonomia que parece ser oferecida a cada diretor para imprimir sua própria assinatura no seu capítulo da saga é algo de se tirar o chapéu, especialmente no cinema americano atual, quando as franquias longevas se apoiam cada vez mais na pasteurização das sequências e na recorrência de alguns personagens. Seguindo na contramão disso, Evil Dead já provou que existe vida – e, claro, muita morte – além de Ash Williams (Bruce Campbell). Dessa maneira, tivemos o uruguaio Fede Alvarez sendo revelado em A Morte do Demônio (Evil Dead, 2013) e o irlandês Lee Cronin em A Morte do Demônio: A Ascensão. Agora é a vez do francês Sébastien Vanicek em A Morte do Demônio: Em Chamas (Evil Dead Burn, 2026).
Assim como esses três nomes foram apresentados a um grande público por meio de um filme da franquia, em 1982 o mesmo aconteceu com o jovem Sam Raimi no longa que a inaugurou. Trabalhando com a liberdade que apenas o baixíssimo orçamento oferece, Raimi já surgiu chutando a porta da cabana, apresentando ângulos e movimentos de câmera que já seriam inventivos e ousados para um veterano, quanto mais para um calouro, e comprometido em ir até o fim na violência gráfica e no sadismo visual. Fazer jus a esse Raimi novinho em folha não é para qualquer um, mas Vanicek definitivamente está à altura.
O cineasta dirige extremamente bem, é atento a detalhes visuais que enriquecem a experiência, tem noção de ritmo… É revigorante para qualquer cinéfilo conhecer um diretor com tanto tesão e lenha para queimar. Fica a torcida para que a indústria hollywoodiana não o domestique.
Já a faceta roteirista de Vanicek (aqui, exercitada ao lado de seu parceiro de costume, Florent Bernard) fica alguns degraus abaixo, embora não chegue a comprometer. Durante sua primeira metade, o filme não alcança a tensão e o envolvimento emocional de seu antecessor. Talvez isso se deva um pouco à indefinição inicial de quem, afinal, é o protagonista. Nessa história de degradação familiar (em que os fatores para tal já existiam antes das possessões, apenas eram convenientemente ignorados), os homens se revelam obsessivos, covardes, frustrados e violentos, enquanto uma personagem feminina ascende, o que já está se tornando uma bem-vinda marca registrada da franquia. Parece que, quando o filme enfim se compromete com essa protagonista, a história ganha uma tração arrebatadora, vertiginosa e imparável. É no espetáculo visual, na condução da câmera, na brutalidade criativa e sem concessões – com predominância de efeitos práticos, apesar da criatura final em um CGI razoável -, que Vanicek entrega o seu melhor.
A Morte do Demônio: Em Chamas insere mais algumas pecinhas na mitologia Evil Dead. Também propõe mais ligações com filmes anteriores e planta possíveis sementes para o futuro. Por isso, vale a pena esperar para ver as duas cenas pós-créditos, sendo que a segunda delas só entra depois de todos os créditos finais.
Curiosamente, um dia antes desse filme eu vi Eles Vão Te Matar (They Will Kill You, 2026). São dois filmes de terror americanos produzidos e/ou distribuídos pela Warner, dirigidos por cineastas europeus com um estilo visual muito característico, com gore em profusão… e que injustamente fracassaram, ou estão fracassando, nas bilheterias. Como o orçamento do longa de Vanicek é relativamente modesto e consequentemente o risco não é tão alto, não deverá trazer um grande prejuízo para o estúdio e nem colocar a franquia em hiato (Evil Dead Wrath já tem previsão de lançamento para 2028). Talvez o público em geral tenha ficado com a impressão de que o novo filme possa ser muito parecido com o anterior e nem quis dar uma chance. Então, quem sabe arriscar mais na próxima sequência seja justamente o necessário para atrair novamente o espectador? Com seu lore se expandindo filme a filme, Evil Dead certamente já pode dar alguns passeios fora da cabana.






