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Homem-Aranha: Sem Volta para Casa
Original:Spider-Man: No Way Home
Ano:2021•País:EUA
Direção:Jon Watts
Roteiro:Chris McKenna, Erik Sommers
Produção:Kevin Feige, Amy Pascal
Elenco:Tom Holland, Zendaya, Benedict Cumberbatch, Jacob Batalon, Jon Favreau, Jamie Foxx, Willem Dafoe, Alfred Molina, Benedict Wong, Tony Revolori, Marisa Tomei, Andrew Garfield, Tobey Maguire, Angourie Rice, Arian Moayed, Paula Newsome, J.K. Simmons, Charlie Cox, Thomas Haden Church

Dentre os personagens que habitavam os quadrinhos e migraram para a televisão e o cinema, tenho especial admiração por dois: Homem-Aranha e Demolidor. Não há exatamente uma história específica para esse carinho, mas são dois que eu acompanhei as HQs, tinha os bonecos e gostava de criar minhas próprias aventuras. Foi a partir desse interesse que, além dos quadrinhos, eu seguia o “cabeça de teia” nas séries animadas e até naquela bobagem divertida protagonizada por Nicholas Hammond. Pós-faculdade, com o Boca do Inferno engatinhando e dando minhas primeiras aulas de inglês, estive no cinema vendo Tobey Maguire encarnando o personagem na trilogia de Sam Raimi. Com menos admiração também estive nas poltronas de cinema no reboot de 2012 e na continuação de 2014, para depois voltar a me divertir com o “amigo da vizinhança” dentro do Universo Marvel Cinematográfico (MCU), que trouxe os Vingadores e Tom Holland, na vestimenta mais adolescente do herói. Confesso que na época fiquei com um pé atrás na proposta de tecnologia da roupa e no tom exageradamente engraçadinho.

A primeira aparição, em Capitão América: Guerra Civil (2016), foi até empolgante, assim como o longa oficial, Homem-Aranha: De Volta ao Lar (2017), com Michael Keaton como vilão-mor e Marisa Tomei como a Tia May. Mais algumas aparições nas sequências de Vingadores até o lançamento do segundo filme, Homem-Aranha: Longe de Casa (2019), desta vez destacando Jake Gyllenhaal como uma espécie de padrasto do personagem, após a morte de Tony Stark. O final deixava um cliffhanger curioso sobre o futuro do herói, agora que sua identidade havia sido oficialmente divulgada pelo Mysterio. O presidente da Marvel Studios, Kevin Feige, disse em 2019 que o terceiro filme solo traria “uma história de Peter Parker que nunca havia sido feita em filme“, o que trouxe uma empolgação momentânea com o que poderia vir daí.

Momentânea porque ainda que houvesse a intenção de realização de mais dois filmes, houve um embate entre a Sony e a Disney em relação a porcentagens de lucros, trazendo uma preocupação imensa aos fãs do herói quando, em setembro de 2019, o presidente da Sony Pictures Entertainment, Tony Vinciquerra, disse que “por enquanto, a porta está fechada” para o retorno do Homem-Aranha ao MCU. Houve manifestação de fãs na convenções e nas redes sociais e até pedido do próprio Tom Holland para um acerto até porque a história do personagem ainda não havia terminado. Homem-Aranha: Sem Volta para Casa (Spider-Man: No Way Home, 2021) foi desenvolvido em lançado em plena época da pandemia, tendo as incertezas sobre lucros de bilheteria. Mas a ideia era boa demais para ser deixada de lado.

Aproveitando o personagem de Benedict Cumberbatch, Doutor Estranho, a intenção era aproveitar o jogo do multiverso, proporcionando reencontros. Seria um verdadeiro fan service, respeitando a trajetória do herói em todas as adaptações cinematográficas, e ainda resgatando vilões e monstros, brincando com memes, sem deixar de lado a aventura, o bom humor e as sequências de ação eletrizantes. A direção dessa obra-prima do personagem — peço desculpas pela empolgação, pois eu estava de máscara no cinema me deleitando com a estreia como minha versão adolescente que tinha o bonequinho na estante — ficou a cargo novamente de Jon Watts, que entende as movimentações do Homem-Aranha e sabe explorar muito bem o elenco e posicionamentos de câmera.

Com roteiro de Chris McKenna e Erik Sommers, o filme começa onde o anterior terminou: com a revelação da identidade do Homem-Aranha como o estudante de terceiro ano Peter Parker. Como Mysterio havia deixado uma impressão de herói para o público, J. Jonah Jameson (J.K. Simmons) — a grande surpresa do filme anterior e que traz um conflito com o multiverso, uma vez que ele fez parte do Homem-Aranha de Tobey Maguire, confundindo a cabeça dos fãs e permitindo a criação de teorias — aproveita para mostrar Homem-Aranha / Peter Parker como vilão. Assim Peter precisa lidar com a fama repentina e a possibilidade de ser preso, caso não consiga provar suas boas ações. MJ (Zendaya), Ned Leeds (Jacob Batalon) e a Tia May são interrogados pela polícia, mas uma aparição surpresa consegue livrá-los da cadeia: Charlie Cox reaparece como Matt Murdock, depois que a série Demolidor fora cancelada. Foi graças a essa ponta que houve um novo produto com o personagem, já com duas temporadas à disposição na Disney!

Quando seus amigos não conseguem vaga para estudar no MIT, Peter não vê alternativas e vai até o Sanctum de Nova York pedir ajuda do Doutor Estranho para que todos esqueçam que ele é o Homem-Aranha, mas no processo interrompe o feitiço por diversas vezes para que algumas pessoas como MJ continuem sabendo, o que corrompe o multiverso, abrindo uma passagem para que vilões de outros filmes como o Doutor Octopus (Alfred Molina), Electro (Jamie Foxx) e principalmente o Duende Verde (Willem Dafoe) venham atrás do Homem-Aranha. O Doutor Estranho convoca Peter para aprisionar os visitantes de outros universos, mas quando pretende levá-los de volta aos mundos onde estão mortos, o herói rouba a caixa com o feitiço, acreditando que seja capaz de torná-los humanos, sem a influência do que os tornou vilões.

O confronto do Homem-Aranha com o Doutor Estranho promove efeitos divertidos, como um caleidoscópio de imagens. Assim que Peter entende como funciona as quebras de barreiras, ele aprisiona Doutor Estranho na Dimensão Espelho e pede ajuda de Norman Osborn para curar seus inimigos. É claro que não dará muito certo, ocasionando uma perda significativa e a vinda de outras versões do Homem-Aranha, com a participação de Tobey Maguire e Andrew Garfield. A união dos três gera discussões interessantes sobre amizades, poderes e perdas, além de sequências hilárias de confusão entre os nomes e suas aventuras. Na época, os estúdios ficaram na dúvida se escondiam essas participações especiais ou divulgavam como atrações especiais do filme. Como havia o temor que a pandemia pudesse prejudicar a bilheteria, optaram pela divulgação, intrigando os fãs sobre como isso iria acontecer, se seria uma jogada oportunista ou viria de forma divertida.

O resultado foi extremamente satisfatório, tanto em bilheteria — o longa custou US$200 milhões de dólares e arrecadou mais de um bilhão —, quanto crítica. O roteiro conseguiu explorar todas as participações especiais, com destaque para a de Willem Dafoe, que conseguiu apresentar a melhor versão de seu vilão, mais ameaçador do que a mostrada em Homem-Aranha (2002). Em compensação, gostei mais do Doutor Octopus de Homem-Aranha 2 (2004) do que o visto neste filme. Já os demais heróis entregam boas atuações, destacando a melhora e redenção de Andrew Garfield, tanto que, após o lançamento de Homem-Aranha: Sem Volta para Casa, houve pedidos dos fãs para que fizessem um terceiro filme com o Espetacular Homem-Aranha, para completar a trilogia dos personagens, algo que até o momento não vingou.

Homem-Aranha: Sem Volta para Casa é puro entretenimento para os fãs de quadrinhos e do personagem — aliás, eu o considero o melhor filme de herói já realizado, incluindo todo os universos de adaptações e personagens. Não acredito que os estúdios consigam um novo acerto com Homem-Aranha: Um Novo Dia ou com outras produções que serão lançadas a partir de então; podem até divertir, mas ficará distante, muito distante de casa. Tanto que o excelente caminho percorrido pelo herói nesse longa até trouxe a vontade da DC de fazer algo parecido com o Superman, explorando versões e atraindo gerações de fãs. Não daria muito certo sem Christopher Reeve — e isso é um fato!

Rever Homem-Aranha: Sem Volta para Casa, sem a tela grande e sem a ameaça do covid, ainda traz bons efeitos de descobertas e recordações. É aquele filme que merece uma revisão, mesmo sem as surpresas, mesmo conhecendo o percurso.

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