Igreja de Ed Wood: “Adorarás filmes ruins”

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Ed Wood

por Matheus Ferraz

Se você é fã de cinema de horror, com certeza já sabe quem é Ed Wood, e provavelmente já deve ter assistido aos seus filmes, ou ao menos à cinebiografia dirigida por Tim Burton. Consequentemente, você estará ciente da razão pela qual Wood é famoso. Seus filmes, cheios de cenários chifrins, diálogos bisonhos, astros decadentes, polvos de borracha e pratos voadores podem ser vistos como obras-primas ou simplesmente como algumas das piores coisas já postas em celulóide.

Famoso por gostar de se vestir de mulher (embora não fosse homossexual) e por fazer qualquer coisa para financiar seus filmes (chegando ao ponto de batizar todo o seu elenco para que a igreja financiasse uma de suas aventuras cinematográficas), Wood estava rodeado também das figuras mais curiosas, como o decadente Bela Lugosi, o lutador de luta livre Tor Johnson, a apresentadora de TV Maila Nurmi (mais conhecida como Vampira), o vidente Criswell e a atriz Loretta King (que era alérgica a líquidos, não podendo beber nem ao menos um copo de água).

Wood morreu no esquecimento, e teria permanecido assim,  se não fosse pelos críticos Harry e Michael Medved que, no seu livro The Golden Turkey Award (1980), lhe concederam o título de “o pior diretor do mundo”. Foi assim que o cinema de Wood se tornou cult, e criou uma verdadeira adoração ao seu redor. A fama chegou ao ponto de render o já citado filme dirigido por Tim Burton, e estrelando Johnny Depp e Martin Landau. Parece estranho que um diretor conhecido por sua ruindade ganhe uma superprodução sobre sua vida, com direito a atores do primeiro escalão e levando de lambuja dois Oscar? Parece estranho que Wood tenha ganhado fama e até um certo respeito exatamente pela sua falta de talento? Parece estranho que hoje existam edições de luxo de seus filmes em DVD?

E se eu dissesse que criaram uma religião em cima dele?

Ao entrar no site Ed Wood.org, a sede da Igreja de Ed Wood, a primeira coisa que você verá é uma janela com a seguinte mensagem: “Para responder à sua primeira pergunta – sim, nós somos COMPLETAMENTE sérios“. Mas não se sinta mal se nem assim for capaz de acreditar nesta instituição bizarra que é o woodismo. É realmente algo difícil de assimilar.

Criada em 1996 pelo Reverendo Steven Galindo (que na época contava com apenas 18 anos!), o woodismo é uma religião de verdade, com mandamentos e feriados próprios, e atua principalmente na internet, oferecendo batismos e confissões online, além de possuir mais de 3000 membros batizados ao redor do mundo.

Ainda parece loucura? É para parecer mesmo. Segundo os ensinamentos do Reverendo Steve, o woodista deve se orgulhar de ser como é. Nos feriados (em datas como a da morte de Tor Johnson e a estreia de Plan 9 from Outer Space), o bom woodista deve se embebedar, comer junk food, vestir-se com roupas do sexo oposto e apreciar os filmes ruins do seu Messias. Mais do que isso, o woodista tem o seu próprio calendário, onde os nomes dos meses são substituídos por aqueles de membros da turma do cineasta.

Ed Wood (2)

A ideia de atingir a salvação através de filmes ruins é maluca demais até para quem está acostumado com o cinema bizarro de Ed Wood. Mas seus adeptos afirmam que não estão para brincadeira: eles realmente seguem a risca os mandamentos do woodismo, que, garantem, são capazes de levar uma pessoa à felicidade. No seu site, o Reverendo Steve declara que o woodista deve considerar Ed Wood não como O salvador, mas como UM salvador, e se espelhar no cineasta que enfrentou todas as dificuldades para fazer os seus filmes. O woodista não está, tampouco, preso por regras morais, e não precisa se envergonhar com nenhum tipo de tabu a respeito de homossexualidade, bebida, comida, drogas ou qualquer assunto do tipo.

Tentei entrar em contato com o Reverendo Steve, para marcar uma possível entrevista, mas ele preferiu não responder os meus e-mails. Mas, pelas informações do site, o fundador do woodismo é um cara bem normal, com emprego e família, fã de cinema de horror como eu e você, e que acontece de ser o fundador de uma religião. Seu nome real é Esteban Galindo, e é um simples funcionário de livraria e contador de histórias para crianças.

Mas, apesar da “COMPLETA seriedade” anunciada pelo Reverendo Steve no seu site, o woodismo é uma crença que não sobreviveria sem uma dose de nonsense e irreverência, e é, para o bem ou para o mal, uma brincadeira que adquiriu um escopo maior do que era de se imaginar. No fim das contas, pode-se julgar o woodismo das mesmas duas formas que se julga o cinema de Ed Wood: como uma obra de gênio ou como pura estupidez. A respeito disso, os woodistas declaram que “nós esperamos que aqueles que não acreditem no woodismo ao menos respeitem que NÓS acreditamos no woodismo. Sim, nós acreditamos, sim isto é sério.

E você, aceitaria Ed Wood como seu Senhor e Salvador?

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