“O horror é um gênero muito potente por se conectar diretamente ao nosso inconsciente pessoal e coletivo, por isso existe também muito fetiche no horror.”
O Boca do Inferno, através de Mari Dertoni, conversou com os cineastas Clarissa Appelt e Daniel Dias sobre o horror nacional Herança de Narcisa, em cartaz nos cinemas brasileiros. Saiba como foi o processo de criação e produção, referências, além do envolvimento de Paolla Oliveira.
O filme parte de uma estrutura típica da casa assombrada, mas rapidamente revela que o verdadeiro assombro está na memória e nos traumas familiares. É interessante como a narrativa acaba sendo subvertida e a casa passa a representar uma extensão do inconsciente de Ana. Como foi o processo de trabalhar com as nuances dessa casa? dar vida a essa peça central no filme.
Clarissa: A casa sempre foi muito importante para a gente, porque ela simboliza a própria Narcisa, e é um símbolo universal do ninho, da mãe. Nossa produtora, Amanda Amorim, conseguiu uma casa incrível em Santa Teresa, onde não havia sido gravado nenhum filme, e quando fomos ver entendemos logo logo que era a locação perfeita. Quer dizer, quase perfeita, porque a gente não tinha o cômodo ideal para fazer o camarim, que é o lugar mais importante do filme. Mas aí que entrou nossa diretora de arte, Fernanda Teixeira, que fez milagres e entregou uma arte digna de Hollywood. A gente criou aquela porta do camarim, a Fernanda fez a parede, a porta…tudo. E gravamos o camarim no mesmo cômodo do quarto das crianças, que foi montado e desmontado e montado de novo completamente diferente. A Fernanda trouxe também muita vivência para essa casa, sinais de Narcisa espalhados por aí, o que nos faz sentir quase como se essa casa fosse uma pessoa viva.
Daniel: Por se tratar de um horror psicológico, o filme foi propositalmente pensado para transitar entre o real e o imaginado, até chegarmos (onde acho que chegamos) exatamente onde você descreve, numa realidade onde o inconsciente e o real se misturam e, na verdade, não interessa muito o que é real ou não, porque uma vez que está dentro de você, é realidade. Nesse sentido, a arte nas paredes e mesas conta tanto a história interna de Ana quanto a própria atuação da personagem, e tem muito sendo dito plano a plano, nos mais minúsculos detalhes.
Clarissa, o filme presta uma homenagem à sua mãe e à sua avó. Como essa experiência pessoal influenciou a construção da relação entre Ana e Narcisa, e como encontrar o equilíbrio entre a autobiografia e a ficção?
Clarissa: Sim, eu parti de um sentimento de sufocamento, aprisionamento em certos padrões familiares. De uma vontade de me libertar, encontrar um caminho para me libertar. Eu só não sabia que nesse caminho eu ia libertar tanta gente, incluindo minha mãe. Eu acho que todo filme deve ser motivado por um sentimento real nosso, que parte da nossa experiência, mas eu não gosto de nada muito literal, acho importante alcançar uma experiência universal. Por isso, acho que a gente deve estar sempre buscando construir uma fábula em cima da experiência real. Como a gente pega uma experiência, um sentimento seu, e cria uma fábula? Era isso que nossos ancestrais faziam em volta da fogueira, usando símbolos, metáforas. Foi isso que tentei fazer no filme. A mãe vedete, está longe da minha realidade, por exemplo, achei isso importante para distanciar o filme de mim, mas ao mesmo tempo aproximou muito. Minha mãe é uma mulher luminosa, minha avó também era, e eu sempre fui mais fechada, às vezes até rabugenta, que nem a Ana, mas eu também tenho essa luminosidade e quando eu paro de fugir dela, eu também brilho.
O filme parece dialogar com alguns conceitos da psicanálise, especialmente a partir de referências a Carl Jung, espelhos, duplos e ao próprio nome “Narcisa”. Até que ponto essas referências foram pensadas para serem percebidas pelo público e até que ponto elas funcionam mais como uma estrutura invisível que orienta a narrativa?
Clarissa: Pensamos muito em Jung sim, inclusive originalmente o filme abria com uma cartela de uma frase dele “Enquanto você não tornar o inconsciente consciente, ele irá dirigir sua vida e você o chamará de destino.” Eu e Daniel gostamos muito de psicanálise e conversamos muito sobre isso, a ideia do filme surgiu realmente da ideia de explorar isso, um complexo psicológico, o da mãe Narcisista, e tentar de alguma forma através do terror, guiar o expectador a encarar e superar esse complexo materno. Eu também estava lendo na época “Psicomagia” do Jodorowsky, que também fala disso, e propõe além, que para exorcizar um complexo há que se executar alguma espécie de ritual. Bom, eu tomei esse filme como meu ritual, minha forma de lidar com o meu próprio complexo materno.
Daniel: Como a Clarissa disse, o filme nasceu de uma conversa sobre conceitos Junguianos e a partir de uma das muitas (milhares) conversas que temos a respeito de psicologia, personagem, metafísica… Nossa intenção sempre foi fazer um horror psicanalítico em certo sentido, um filme que pudesse ser assistido no presente, com uma história que você acompanha, mas que também se desdobrasse em muitas outras camadas e continuasse gerando conexões ad infinitum. Até hoje eu assisto o filme e percebo umas coincidências ou leituras que, de início, não havia percebido, quase como uma sessão de análise mesmo.
A atuação de Paolla Oliveira acrescenta grande força ao filme, ela se comunica bastante pelo silêncio, pelo olhar e pelo corpo, para além do apoio nos diálogos. Como foi o trabalho de dirigi-la para construir essa performance? Visto que ela é uma atriz pouco familiarizada com o cinema de gênero.
Clarissa: Fizemos um trabalho bem legal de preparação, com apoio de preparadores incríveis como a Andrea Cavalcanti, que a própria Paolla me apresentou, e foi uma adição maravilhosa ao filme. Também teve a Brisa Calleri ajudando nos movimentos, coreografias e corpo e o Pedro Lima na preparação de voz. Fiz uma preparação completa, pensando não só em texto, mas como fazer a Paolla entrar nessas personagens de cabeça. Foi muito intimista nosso processo, discutimos coisas muito profundas, Paolla sempre me desafiou também a ir mais fundo. Ela tem perguntas difíceis, e eu amo perguntas difíceis. A Paolla é uma atriz de coração, e eu sou uma diretora de coração também, nesse lugar nós nos encontramos. Precisamos encontrar o que move emocionalmente a história, e acho que nesse lugar funcionamos muito bem. O corpo é muito importante num filme de terror, mais do que o texto, e trabalhamos muito isso, os movimentos, as reações, os trejeitos, a respiração, tudo isso constrói a tensão do terror.
Daniel: A Paolla tem falado um pouco sobre isso nas entrevistas do lançamento, acho que o desafio foi entender e explorar esse lugar do cinema, da atuação mais contida, do que é dito através do olhar e dos silêncios. Tudo estava na página e a Paolla conseguiu, de forma magistral, levar tudo para a tela grande, dando vida aos tumultos internos da Ana, o que é muito difícil de se realizar.
Acho que um grande ponto em Herança de Narcisa é o filme conseguir passear entre o drama psicológico e o terror. Como vocês lidaram, durante o processo criativo, com essa dinâmica de provocar medo imediato em certos momentos, e também reservar alguns alívios cômicos (como a figura do irmão de Ana) e cenas que privilegiam também uma experiência mais emocional e introspectiva?
Clarissa: Como o Daniel já falou, a gente trabalhou referências tanto de terror quanto de drama, na hora de preparar os atores e de orientar a equipe também. No roteiro também trabalhamos bastante esse equilíbrio e depois na montagem também. Foi um processo constante.
Daniel: Acho que esse lugar especial do filme nasceu naturalmente da união da voz da Clarissa Appelt com a minha. Então, essencialmente, um meio drama meio horror sempre esteve presente desde a nossa concepção. A gente até usou dois grandes filmes como referências, um sendo The Night House, horror de 2020, e o outro uma comédia romântica indie, Blue Jay (2016), o que demonstra já essa tentativa nossa de mesclar essas duas visões num produto coeso e único. Sobre o irmão, durante a preparação conversávamos muito sobre ele estar numa comédia romântica e a Ana estar num filme de terror.
Vocês assinam juntos o roteiro e a direção de Herança de Narcisa. Como surgiu essa parceria? Existe uma divisão de funções ou as decisões são construídas de forma completamente compartilhada?
Clarissa: Eu e Daniel somos um casal hoje, mas já somos amigos há quase 20 anos. Nos conhecemos na faculdade onde nós dois já tínhamos grandes ambições de escrever e dirigir. Naturalmente, nossos caminhos se cruzaram em muitos lugares, um deles foi a bolsa de estudos da Fulbright e da Capes para estudar roteiro nos EUA, fomos em épocas diferentes, antes da gente estar junto. Mas essa experiência nos formou e hoje falamos a mesma língua. A gente já trabalha em parceria faz bastante tempo escrevendo juntos, criamos uma linguagem em comum, mas claro que cada um tem suas coisas próprias, e o Narcisa traz coisas dos dois. Essa foi a primeira vez que dirigimos juntos e eu na verdade achei muito melhor dirigir em conjunto com o Daniel do que sozinha, eu tenho uma predisposição maior para lidar com os atores, Daniel é mais racional e lida muito bem com enquadramento, parte técnica, e além de tudo ainda fez a montagem e compôs o tema principal do filme junto com o Marcelo Conti. Nossas qualidades juntos formam uma espécie de “super poder” que é o sonho de qualquer diretor.
Daniel, você também assina a montagem do filme. Em que medida o processo de edição reescreveu a narrativa de vocês? Muita coisa mudou da imagem inicial que criaram?
Daniel: Dizem que existem três filmes, o do roteiro, o da direção e o da montagem. Por estar presente nas três etapas, acredito que muito do roteiro se manteve até o produto final, mas é na montagem que o filme toma a cara de filme mesmo, com música, cor e tudo mais que cabe na finalização. Não tivemos mudanças muito profundas, mas tivemos sim cortes de falas, momentos etc, que na edição se demonstraram desnecessários.
O filme transmite uma unidade estética e narrativa consistente. A direção de arte cria uma atmosfera sombria, mas também evoca a nostalgia das memórias nos detalhes que habitam aquela casa. Quais foram as principais referências compartilhadas por vocês e como construíram uma linguagem cinematográfica que traduzisse a identidade dos dois diretores?
Clarissa: Também usamos algumas referências de fora do terror para criar essa atmosfera, como Sunset Boulevard e Grey Gardens. A gente tentou criar um terror que não era necessariamente sombrio, mas sim meio glamuroso, para espelhar esse tema das vedetes. Me inspirei no Glam rock, que eu amo, e inventei o termo “glam horror” para esse filme.
Daniel: Acabei respondendo mais acima, mas nossas duas maiores referências foram The Night House (2020) e Blue Jay (2016). Os dois filmes passam-se dentro de casas ou têm casas como personagens, e lidam diretamente com memória.
A relação entre mãe e filha é o centro de Herança de Narcisa. O que tornou o horror o gênero ideal para explorar esse vínculo? E vocês acreditam que o horror contemporâneo tem aberto espaço para representações femininas mais complexas do que no passado?
Clarissa: O horror é um gênero muito potente por se conectar diretamente ao nosso inconsciente pessoal e coletivo, por isso existe também muito fetiche no horror. Quando não se está refletindo sobre as imagens e símbolos que estamos colocando na tela, eles saem de forma descontrolada da nossa psique, e acho que por isso que historicamente o horror reproduziu tantos estereótipos femininos caricatos, como o da virgem sacrificada, a bruxa maldita, e a madrasta ou mãe malévola. Eu digo reproduzir, porque nada disso é novo, são repetições de padrões ancestrais. Meu objetivo é refletir sobre esses padrões e tentar reinventá-los de alguma forma. Acho que é isso que o terror contemporâneo tem reinventado, a gente tem a chance de olhar para os padrões e questioná-los. Em Herança de Narcisa, ao entregar um final que “desmascara” o bicho papão que parece ser essa mãe, estamos propondo justamente essa reflexão.




