Existem histórias que sobrevivem ao tempo por causa de seus feitos. Outras, por causa de seus fantasmas. A de Diogo Alves, conhecido pela alcunha de Pancada, pertence às duas categorias.
Considerado um dos criminosos mais temidos da história portuguesa, o Pancada poderia ser apenas mais um personagem sombrio dos livros sobre o século XIX, no entanto, sua trajetória ganhou uma sobrevida tão perturbadora quanto simbólica: mais de 180 anos após sua execução, sua cabeça preservada continua exposta na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.
É justamente essa imagem — um rosto real atravessando séculos — que transforma a história de Diogo Alves em algo maior do que uma simples narrativa criminal. Ela se torna uma reflexão sobre memória, ciência e a maneira como escolhemos preservar o passado.
O fascínio causado pelo caso não está apenas nos assassinatos atribuídos ao criminoso. Entre as décadas de 1830 e 1840, seus crimes espalharam medo por Lisboa, especialmente pelas mortes associadas ao Aqueduto das Águas Livres, onde vítimas eram roubadas e lançadas de grandes alturas. A brutalidade dos relatos ajudou a consolidar sua reputação como uma das figuras mais sinistras do imaginário português.
Mas o aspecto mais intrigante da história começa justamente quando ela deveria terminar.
Após sua execução, em 1841, médicos decidiram preservar sua cabeça para estudos científicos. A decisão refletia uma época em que teorias hoje desacreditadas buscavam identificar sinais físicos da criminalidade. A crença de que a violência poderia ser observada na anatomia humana parecia plausível para muitos estudiosos do período.
Vista sob a perspectiva contemporânea, a escolha carrega uma ironia inevitável. A ciência que pretendia encontrar respostas definitivas acabou deixando para trás um artefato que gera muito mais perguntas do que conclusões.
É impossível observar a imagem da cabeça preservada sem sentir um desconforto difícil de explicar. Não se trata de admiração pelo criminoso nem de curiosidade mórbida gratuita. O impacto vem da consciência de que aquele rosto pertenceu a alguém que caminhou pelas ruas, respirou o mesmo ar e influenciou a vida de milhares de pessoas.
Diferentemente de retratos, esculturas ou representações artísticas, o que permanece diante dos visitantes é a própria matéria do passado. Um fragmento humano que desafia a distância histórica e cria uma conexão quase física com outra época.
Essa permanência transforma a história de Diogo Alves em algo próximo de uma narrativa gótica. Enquanto impérios desapareceram, guerras remodelaram fronteiras e gerações inteiras vieram e partiram, aquele rosto permaneceu praticamente inalterado, suspenso entre a morte e a memória.
Talvez seja por isso que o caso continue despertando interesse quase dois séculos depois. A cabeça preservada de Diogo Alves não é apenas uma curiosidade de museu. Ela funciona como um espelho desconfortável das obsessões humanas: o desejo de compreender o mal, a crença na capacidade da ciência de explicar tudo e a necessidade de manter o passado visível, mesmo quando seria melhor esquecê-lo.
No fim, a pergunta mais relevante não é quem foi Diogo Alves, mas por que continuamos olhando para ele tantos anos depois de sua morte.
A história de Diogo Alves continua a ecoar para além dos livros e dos museus. Em 2026, seus crimes serviram de inspiração para Lisbon Noir, série policial produzida pela Prime Video em parceria com a TVI e exibida em Portugal. A trama transporta o mito do chamado “Assassino do Aqueduto” para os dias atuais, acompanhando a investigação de um serial killer obcecado em reproduzir os crimes atribuídos a Diogo Alves nas ruas de Lisboa.
Para o infernauta mais curioso, existe ainda a possibilidade de encerrar essa viagem macabra de forma bastante literal. A cabeça preservada de Diogo Alves permanece no Teatro Anatômico da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, que disponibiliza visitas guiadas ao espaço. Mais informações podem ser encontradas em https://www.medicina.ulisboa.pt/visita-guiada-ao-teatro-anatomico


