![]() Supergirl
Original:Supergirl
Ano:2026•País:EUA, UK, Austrália, Canadá, Islândia Direção:Craig Gillespie Roteiro:Ana Nogueira, Jerry Siegel, Joe Shuster, Jeremy Slater Produção:James Gunn, Peter Safran Elenco:Milly Alcock, David Corenswet, Eve Ridley, Matthias Schoenaerts, Diarmaid Murtagh, Ferdinand Kingsley, Emily Piggford, Bruce Lennox, Audrey Brisson, Avye Leventis, Wil Coban, Jason Momoa |
Definitivamente, os filmes de super-heróis não vivem um bom momento. Uma parte da culpa disso é da própria indústria hollywoodiana, e outra parte, não. Vingadores: Ultimato (Avengers: Endgame, 2019), o encerramento do ciclo mais bem-sucedido da era dos super-heróis, parece ter colocado o sarrafo alto demais, e tudo o que veio depois ficou um tanto apagado em comparação. O fato de esse filme ter sido lançado pouco antes da pandemia começar intensificou ainda mais essa ruptura. Além disso, Vingadores: Ultimato também marcou a despedida de alguns dos atores mais queridos pelo público do MCU, atores que ajudaram a moldar esse universo. Por esses três fatores não dá para culpar a Marvel Studios (talvez pelo último, mas, convenhamos, esse é o ciclo da vida: atores se tornam velhos demais para certos papéis, ou desejam experimentar novos projetos, e nem sempre é simplesmente uma questão de aumentar os cachês). Agora, se há algo em que a indústria realmente errou feio foi em inundar o mercado com uma infinidade de novos longas e séries, com isso sacrificando não apenas a qualidade dos roteiros, mas também de aspectos mais técnicos, como os efeitos visuais. O público não consegue mais acompanhar as intrincadas teias que esses universos compartilhados se tornaram. Paralelamente a isso, a Sony vinha castigando os espectadores com live-actions derivados do Homem-Aranha que, quando muito, eram passáveis. E a DC, bem, o que já começa errado dificilmente tem chances de dar certo no meio do caminho.
Diante desse cenário de terra arrasada, talvez não seja tão surpreendente (a não ser para os próprios estúdios) que os dois filmes de super-heróis lançados em 2026 até esta data tenham sido tremendos fracassos de bilheteria. Mestres do Universo (Masters of the Universe, 2026) falhou em encontrar seu público. Agora, Supergirl (2026) não consegue dar continuidade ao legado do Superman de David Corenswet.
Escolher a prima do Homem de Aço como a estrela do segundo longa do novo universo cinematográfico da DC nunca fora uma boa decisão. Além de Superman (2025) ter ficado abaixo das expectativas financeiras da Warner, a Supergirl sempre foi um personagem de, no máximo, segundo escalão. Sendo assim, por que apostar durante dois anos consecutivos na superfamília ao invés de suceder o Azulão com um Batman ou uma Mulher-Maravilha? James Gunn, o cabeça do novo DCEU ou seja lá como se chame agora, declarou ter passado esse filme na frente de outros da fila porque achou o roteiro incrível. Não é incrível, embora não seja nem de longe essa bomba que muitos estão falando e nem justifique uma bilheteria tão baixa.
Com ecos do western Bravura Indômita (True Grit, 1969), o filme de Craig Gillespie acompanha a jornada de Kara Zor-El, a Supergirl (Milly Alcock), por diversos planetas enquanto busca um antídoto para o veneno que irá matar seu cão Krypto dentro de 72 horas. Ela é acompanhada por Ruthye (Eve Ridley), uma menina atrás de vingança contra o criminoso Krem (Matthias Schoenaerts) pela morte de sua família (cujo patriarca fabricava armas, então não deveria ser uma surpresa que uma hora a violência bateria à porta de casa, né, baby?).
Confesso que as tentativas de tornar a Supergirl uma versão mais rebelde e esquentadinha do Superman nunca colaram muito comigo, porém entendo a necessidade de diferenciá-la do Homem de Aço. Felizmente, o filme não descamba para o intragável “realista e sombrio” de um Zack Snyder, ainda que uma decisão narrativa no clímax traga péssimas lembranças do arquiteto da versão anterior do DCEU. Agora, uma coisa que não dá mais para aguentar é Krypto ter que ser salvo em todo filme. Parece que os realizadores estão levando um pouco ao pé da letra o manual de roteiro Save the Cat.
Contando com pouquíssimas cenas na Terra, a aventura espacial de Kara e Ruthye abre espaço para a aparição de algumas criaturas com designs interessantes. Já os cenários tentam esconder sua pobreza conceitual por trás de uma fotografia muitas vezes escurecida, enfumaçada e sem graça. É impossível não comparar com os filmes dos Guardiões da Galáxia (Guardians of the Galaxy, 2014 – 2023), e Supergirl podia passar bem sem mais uma luta em câmera lenta ao som de música pop, algo que vimos Gunn fazer de novo no ano passado em Superman.
Muito tem se reclamado da unidimensionalidade do vilão, Krem. Realmente, não é um baita personagem, mas eu ando sentindo falta de vilões que sejam só vilões mesmo, alguém de quem eu sinta raiva em vez de pena por ser um coitado ou um bunda-mole ou as duas coisas (sim, Coringa (Joker, 2019) e Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis (Shang-Chi and the Legend of the Ten Rings, 2021), tô falando de vocês).
E eis que finalmente temos Jason Momoa no papel que ele nasceu para interpretar, o caçador de recompensas cósmico Lobo. Esse é um dos raros casos em que a persona de Momoa não atrapalha o personagem, pelo contrário. Mesmo assim, Lobo é pouco mais do que um adendo na trama, e a roteirista Ana Nogueira parece não ter entendido muito bem o funcionamento dos poderes e habilidades dele (e da Supergirl, e de Ruthye, e de Krem).
Falando de roteiro, existem diversos furos, embora eu não consiga deixar de pensar o quanto esse filme deve ter sofrido na montagem. Em diversos momentos, simplesmente parece haver trechos faltando. Uma matéria recente da The Hollywood Reporter revelou que, a despeito de todo o discurso de Gunn sobre a liberdade criativa dada a Gillespie, o filme passou por diversas alterações impostas pelo estúdio após sessões de teste, e esse não seria o corte final do diretor. Vai saber o quanto da integridade da obra se perdeu no meio dessa decisão mercadológica.
Sabendo de tudo isso, encerrar dizendo que Supergirl é um filme honesto de super-heróis seria ingenuidade. Entretanto, com sua estrutura básica de Jornada do Herói, ele desce suave. Não será amplamente lembrado no futuro, mas só de não agredir demais a paciência do espectador já é um alívio. Infelizmente, talvez tenhamos chegado ao ponto de precisar medir os filmes de super-heróis por essa régua.






