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O Concerto Maldito, Sinfonia do Mal
Original:The Piper
Ano:2023•País:EUA
Direção:Erlingur Thoroddsen
Roteiro:Erlingur Thoroddsen
Produção:Jeffrey Greenstein, Bernard Kira, Yariv Lerner, Tanner Mobley, Les Weldon, Jonathan Yunger
Elenco:Kate Nichols, Ryan Webber, Julian Sands, Charlotte Hope, Oliver Savell, Alexis Rodney, Salomé Chandler, Pippa Winslow

O cinema de horror sempre encontrou na música uma poderosa ferramenta para provocar desconforto. Das notas hipnóticas de Suspiria aos violinos cortantes de Psicose, trilhas sonoras inesquecíveis ajudaram a construir verdadeiros pesadelos cinematográficos. Por isso, a premissa de O Concerto Maldito: Sinfonia do Mal parecia promissora: uma composição amaldiçoada, inspirada na lenda do Flautista de Hamelin, capaz de despertar uma força sobrenatural mortal. Era um conceito que poderia render uma experiência perturbadora e atmosférica. Infelizmente, o filme transforma uma ideia fascinante em um exercício de paciência.

Melanie (Charlotte Hope, A Freira, 2018) não nos convence como protagonista. Sua personalidade praticamente inexiste, limitando-se a caminhar por corredores escuros com a mesma expressão durante boa parte do filme. Falta-lhe carisma, humanidade e, em muitos momentos, a impressão é de que ela apenas reage aos acontecimentos porque o roteiro exige, e não porque exista uma motivação convincente.

Um exemplo mais absurdo acontece quando ela decide invadir a casa da compositora recém-falecida para roubar a suposta partitura amaldiçoada. A sequência é tratada com uma naturalidade quase cômica. Não existe qualquer preocupação em justificar a invasão, tampouco em demonstrar medo de ser descoberta ou qualquer conflito moral diante de um ato criminoso. A personagem simplesmente entra na residência, encontra o que procura, sai, vê que esqueceu a chave do carro, volta e depois sai dali como se nada fosse. Até mesmo quando aparece a entidade, tudo é tratado de forma “normal”.

Os personagens secundários cumprem apenas a função de aumentar a contagem de vítimas. Amigos, familiares e colegas aparecem e desaparecem, sem que o filme lhes conceda qualquer profundidade. Seria mais uma perda de tempo listá-los aqui. Nem mesmo entre os atores existe química. Diversas cenas possuem um estranho aspecto artificial, como se cada integrante do elenco estivesse interpretando um filme diferente. Conversas que deveriam carregar emoção acabam soando mecânicas, comprometendo ainda mais a imersão.

Visualmente, O Concerto Maldito: Sinfonia do Mal aposta naquela cartilha já conhecida do terror contemporâneo: fotografia dessaturada, corredores escuros, iluminação mínima e filtros azulados para tentar transmitir uma atmosfera sombria. O problema é que a escuridão não cria o medo quando o espectador já perdeu completamente o interesse pela história.

Em meio a tantos problemas, existe apenas um verdadeiro motivo que justificou as quase duas horas gastas assistindo ao filme: rever Julian Sands em cena. O eterno Warlock, apesar do carisma e da elegância que marcaram sua carreira, não foi capaz de salvar o longa. Seu personagem, o Maestro Gustafson, não é uma de suas melhores atuações, porém a sua presença confere um peso emocional a essa participação. O Concerto Maldito: Sinfonia do Mal foi um dos últimos trabalhos de Julian Sands, chegando aos cinemas após seu falecimento, em janeiro de 2023. Para os admiradores do ator, sua aparição acaba sendo o único momento realmente especial da obra. É impossível não sentir certa tristeza ao perceber que um artista tão importante para o cinema fantástico tenha uma de suas despedidas justamente em uma produção tão fraca. Felizmente, seu legado permanece muito maior do que este filme, eternizado por personagens inesquecíveis — especialmente o icônico Warlock (Warlock o Demônio,1989), figura que jamais será apagada da memória dos fãs do horror.

No fim das contas, O Concerto Maldito: Sinfonia do Mal falha em praticamente tudo aquilo a que se propõe. Não assusta, não emociona, não cria atmosfera e tampouco consegue desenvolver personagens interessantes. O que poderia ter sido um conto macabro sobre música e maldição transforma-se em uma narrativa arrastada, recheada de clichês e decisões absurdas.

A verdadeira maldição nunca esteve na partitura. Ela está no tempo que o infernauta perde tentando encontrar alguma qualidade em um filme que desafina do primeiro ao último acorde.

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