Cuidado com o Slenderman (2016)

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Cuidado com o Slenderman
Original:Beware the Slenderman
Ano:2016•País:EUA
Direção:Irene Taylor Brodsky
Roteiro:
Produção:Irene Taylor Brodsky, Sophie Harris
Elenco:Morgan Geyser, Anissa Weier, Angie Geyser, Payton Leutner, Kristi Weier

Dentro do gênero Documentário, existe um estilo que se tornou bastante popular a partir da década de 60, devido ao seu extremo sensacionalismo e – para uma grande parte – mau gosto. Os shockumentaries vinham com a proposta de atrair o público, principalmente o composto pelos que veneram o curioso e o macabro, a partir de filmagens amadoras de acidentes, crueldade com animais, experimentos em campos de concentração e rituais satânicos. Apesar do conteúdo ser capaz de chocar o espectador, os shockumentaries forjavam as cenas de morte e acidentes, aproveitando um elenco composto de desconhecidos e pessoas comuns e o amadorismo das gravações. Até a revelação de que o conteúdo era mentiroso, o subgênero cresceu de maneira assustadora e foi o berço dos found footages e dos mockumentaries. Cuidado com o Slenderman não faz parte de nenhuma dessas categorias, mas pode se traçar um paralelo pela sua concepção verdadeira a partir de uma história falsa, além de ser igualmente chocante e trágico.

Na primavera de 2014, três pré-adolescentes entraram numa floresta nas imediações de Waukesha, Wisconsin, durante uma tarde. Apenas duas saíram, com suas roupas completamente embanhadas em sangue. Um ciclista que passava no local, encontrou a jovem Payton Leutner agonizando, dizendo ter sido esfaqueada por suas colegas de classe, Anissa Weier e Morgan Geyser. As duas foram recolhidas pela polícia a alguns quilômetros, quando rumavam em direção à mansão de uma assombração conhecida nas creepypastas como Slenderman.

Um homem alto, sem rosto, com longos braços finos e vestido com terno e gravata, Slenderman foi uma criação de Eric Knudsen (usando o nickname de “Victor Surge“), usuário do fórum de discussão Something Awful em 2009. Seu personagem, com grande inspiração nos relatos de jovens vítimas de abuso sexual, adentrou o imaginário popular e ganhou força na deepweb, com relatos de avistamentos e vídeos caseiros de festas e eventos, onde ele pode ser visto espreitando crianças. Cresceu ainda mais quando se tornou inspiração de histórias em quadrinhos, jogos de terror, literatura amadora e até filmes, passando a ser a representação visual do bicho-papão.

Com uma direção consciente de Irene Taylor Brodsky, Cuidado com o Slenderman, produção da HBO, é um quase shockumentary pelo modo como realmente atrai o interesse. Alterna depoimentos das garotas, de todo o plano para a execução da tentativa de assassinato, com falas da família de todos os envolvidos, mostrando abalo, surpresa e sinais que podem servir de alerta a outros pais, como o silêncio exagerado, atitudes antissociais, o interesse exagerado pela internet e o isolamento. O ato violento, que culminou nas 19 facadas, levou as acusadas a diversos processos de estudo psicológico e jurídico, passando por estâncias diversas até a aceitação pelo julgamento como adultas, emboras tenham cometido o crime aos 12 anos.

Cuidado com o Slenderman termina sem trazer o resultado do julgamento final das meninas, previsto para o mesmo ano do lançamento do filme. Sabe-se que Anissa foi diagnosticada com transtorno delirante, tendo como pena o acompanhamento psicológico recluso numa instituição mental por três anos; já Morgan, a responsável pelas 19 facadas, sofre de Esquizofrenia precoce, e há uma pena inicial prevista de 40 anos, em um ambiente distante da outra condenada. É bem provável que ela não precise cumprir essas quatro décadas, se passar a aceitar oficialmente que Slenderman é apenas um personagem fictício, e tiver uma progressiva melhora.

Com todos os pormenores que envolvem as consequências da criação de um monstro, Cuidado com o Slenderman choca por seu conteúdo trágico e pode servir de mais um alerta sobre os males que a internet pode causar a quem não souber distinguir verdade de ficção.

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Marcelo Milici

Professor e crítico de cinema há vinte anos, fundou o site Boca do Inferno, uma das principais referências do gênero fantástico no Brasil. Foi colunista do site Omelete, articulista da revista Amazing e jurado dos festivais Cinefantasy, Espantomania, SP Terror e do sarau da Casa das Rosas. Possui publicações em diversas antologias como “Terra Morta”, Arquivos do Mal”, “Galáxias Ocultas”, “A Hora Morta” e “Insanidade”, além de composições poéticas no livro “A Sociedade dos Poetas Vivos”. É um dos autores da enciclopédia “Medo de Palhaço”, lançado pela editora Évora.

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