![]() Mestres do Universo
Original:Masters of the Universe
Ano:2026•País:EUA, Austrália, Canadá, Islândia Direção:Travis Knight Roteiro:Chris Butler, Aaron Nee, Adam Nee, David Callaham, Alex Litvak, Michael Finch Produção:Todd Black, Jason Blumenthal, Robbie Brenner, DeVon Franklin Elenco:Nicholas Galitzine, Camila Mendes, Alison Brie, James Purefoy, Morena Baccarin, Jóhannes Haukur Jóhannesson, Kristen Wiig, Jared Leto, Idris Elba |
Exilado na Terra para sua própria proteção, o príncipe de Eternia, Adam (Nicholas Galitzine), precisa retornar ao seu mundo natal e tornar-se o herói He-Man a fim de deter o maligno Esqueleto (Jared Leto).
Na recente crítica de Todo Mundo em Pânico (Scary Movie, 2026), falei do desaparecimento das paródias dos cinemas e de como filmes como aquele e o novo Corra Que a Polícia Vem Aí (The Naked Gun, 2025) estavam aos poucos trazendo esse subgênero da comédia de volta à tela grande. Pois, surpreendentemente, em junho de 2026 nós nos deparamos com aquela que é muito provavelmente a paródia mais cara que Hollywood já produziu: Mestres do Universo (Masters of the Universe, 2026).
Afinal, a nova versão live-action do icônico universo de super-heróis dos anos 1980 é como um esquete muito ruim do Porta dos Fundos sobre o He-Man, só que feito com um orçamento multimilionário. Em nenhum momento é possível ter a sensação de se estar assistindo a uma versão cinematográfica do fascinante mundo de fantasia e ficção científica que nos foi apresentado mais de quatro décadas atrás, e que se expande desde então em novas versões animadas, quadrinhos e coleções de brinquedos, e sim a uma paródia disso tudo, estrelada por bons atores vestindo figurinos muito caprichados.
E a pergunta que não quer calar é: afinal de contas, para quem esse filme foi pensado? Não deve ter sido para os quarentões e cinquentões que cresceram assistindo e brincando com os Mestres do Universo, uma vez que o filme, autoirônico cem por cento do tempo, tem como objetivo fazer essas pessoas sentirem vergonha ou culpa por algum dia terem gostado desse universo. Também não deve ter sido feito para as crianças, pois, além do filme contar com várias piadas com conotação sexual, convenhamos, crianças acostumadas ao humor inteligente de uma Pixar, só para citar um exemplo, vão se sentir tratadas como amebas diante das piadas apresentadas aqui. Nem mesmo é para os nerds em geral, quando uma sequência em uma loja de quadrinhos e action figures retrata os fãs de cultura pop de uma maneira que já se tornou datada há no mínimo umas duas décadas. Na verdade, é como se o roteiro inteiro tivesse sido escrito por um baby boomer daquele tipo que enche o peito e resmunga “essa geração leite com pera de hoje em dia, blábláblá…”. Bem, não à toa, com exceção do Brasil, o longa tem levado uma surra nas bilheterias.
Pode-se argumentar que a série animada do He-Man só foi criada para vender brinquedos e, por isso, esse universo todo é ridículo por natureza. Exato. E quando um desenho infantil feito para vender bonequinhos possui muito mais alma e coração do que sua versão blockbuster censura 14 anos é porque a coisa está realmente feia.
Qual é o caminho para trabalhar essa franquia, então? Torná-la mais adulta? Em 2021, a Netflix lançou uma nova série animada chamada Mestres do Universo: Salvando Eternia (Masters of the Universe: Revelation), com Kevin Smith encabeçando o projeto, e a ideia por trás dela foi “vamos adicionar sexo e violência!”, que é basicamente a noção de uma criança de doze anos do que significa ser adulto.
O que fica claro com o novo filme é que imbecilizar também não é a solução. Em Mestres do Universo, esqueça o recurso do alívio cômico: ele não existe, porque tudo tenta ser cômico o tempo inteiro! E, sempre que uma cena ameaça apresentar alguma profundidade, algum peso dramático, algum lampejo de heroísmo, enfim, alguma vida, isso é imediatamente desarmado com uma piada que precisa mostrar o quanto, né, essa coisa de He-Man é ridícula, hahaha. Não nos é permitido nos importarmos com qualquer personagem ou qualquer situação. Nada possui significância.
Boa parte do público estava preocupada com a performance do polêmico Leto como Esqueleto. Podem ficar tranquilos. Dentro do que lhe é entregue para trabalhar, o ator tira leite de pedra, lançando mão até mesmo de sua melhor versão do sotaque de Arnold Schwarzenegger. Já a pobre Alison Brie é desperdiçada como Maligna, nada além de um bibelô sexy dotado de um esboço de complexidade e autonomia que os roteiristas não têm coragem ou capacidade de desenvolver. Idris Elba como Mentor não se encontra em situação muito melhor. Mais sorte possuem Camila Mendes, uma Teela com carisma e presença, e Morena Baccarin, que, como Feiticeira, deve ter erguido as mãos aos céus por ser a única pessoa do elenco a não precisar despejar piadas detestáveis a cada aparição.
A trilha sonora instrumental é um dos poucos elementos que ainda tenta injetar urgência e importância à história, com releituras dos temas clássicos da animação. Já as canções pop selecionadas não fogem muito do clichê, com “Princes of the Universe”, do Queen (a banda mais lugar-comum em filmes de cultura pop), e “What’s Up?”, do 4 Non Blondes, que toca bem no momento em que Adam se pergunta “What’s going on?” (sim, é esse o nível da vagabundagem). Fiquei com a certeza de que a qualquer instante ouviria “I need a hero…”.
Mestres do Universo está no mesmo nível de desgraças como Aquaman 2: O Reino Perdido (Aquaman and the Lost Kingdom, 2023) e Besouro Azul (Blue Beetle, 2023). Não chega a ser um Venom: A Última Rodada (Venom: The Last Dance, 2024), mas arranha o fundo do poço. É um filme de super-heróis que, em pleno 2026, ainda tem nojinho de ser um filme de super-heróis, e usa de cinismo e ironia na tentativa de mascarar isso. Para tirar o gosto ruim, me deu vontade de rever Shin Kamen Rider (Shin Kamen Raidâ, 2023), fabuloso em toda a sua dignidade e orgulho em fazer parte desse gênero.
É isso. 170 milhões de dólares para tentar provar que você é um idiota por gostar de He-Man. Boa sorte em recuperar seu dinheiro, Amazon.






