O Grito (2020)

O Grito
Original:The Grudge
Ano:2020•País:EUA, Canadá, Japão
Direção:Nicolas Pesce
Roteiro:Nicolas Pesce, Jeff Buhler
Produção:Takashige Ichise, Sam Raimi, Rob Tapert
Elenco:Tara Westwood, Junko Bailey, David Lawrence Brown, Zoe Fish, Andrea Riseborough, Demián Bichir, Joel Marsh Garland, Bradley Sawatzky, Lin Shaye, John Cho, Betty Gilpin

O palco de um crime deixa rastros de seu ódio como herança. A partir de uma crença oriental, imagina-se que a atmosfera negativa, decorrente de uma morte violenta, pode influenciar outras pessoas que adentrem o espaço, em um ciclo constante de agressividade e assassinatos. Funcionou bem no contexto original, lançado em 2000, no argumento de Takashi Shimizu, que depois continuaria sua trajetória assustadora em algumas sequências e no ótimo remake de 2004 e sua primeira continuação em 2006. Poderia ter terminado por aí, sem que as assombrações percorressem por outros filmes inferiores, crossovers e reboot, até porque o ódio também pode se impregnar naqueles que arriscarem ir ao cinema para ver o novo O Grito, espalhando suas impressões em críticas mal humoradas e nas ofensas aos responsáveis.

Seguindo a tendência de resgatar conceitos de sucesso, a proposta surgiu em 2011, quando a Ghost House Pictures e a Mandate Pictures pretendiam desenvolver um quarto O Grito, mesmo com a grande leva de opiniões ofensivas no lançamento do terceiro, direto para o vídeo. Desde então, roteiros foram apresentados, assim como a cadeira de diretor fora ocupada por outros nomes, até o argumento de Jeff Buhler chegar às mãos de Nicolas Pesce. Algumas mudanças com a perspectiva de reiniciar a franquia, pensando até mesmo numa nova trilogia, Pesce, que havia feito algo bom com Os Olhos da Minha Mãe (2016), entregou simplesmente um produto falho e irritante, embora o trailer red band tenha sido promissor.

As críticas negativas não permitiram que o filme fosse um absoluto fracasso. Com valor estimado em U$10 milhões, o longa chegou à marca de U$46 em sua estreia pelo mundo – inferior ao original, mas ainda assim conseguiu se pagar -, e deve ampliar ainda mais os números com o lançamento em DVD, o que pode resultar infelizmente numa futura continuação. O que é bem verdade é a triste constatação que, apesar do material que tinham em mãos, o trabalho resultou numa produção que não assusta e nem impressiona, carregada numa constante de dramas familiares e trilha incidental de pianinhos melosos que chegam a perturbar qualquer boa expectativa. Ao lado da bomba A Possessão de Mary, O Grito é, sem dúvida, algo a ser definitivamente descartado e esquecido.

Fazendo uso da estrutura original, de dividir o longa em pequenos ciclos familiares que se conectam pela maldição, e apresentados fora de ordem cronológica, O Grito começa em 2004, em Tóquio, no Japão, para dar uma ideia de continuação da refilmagem. É lá que está a enfermeira Fiona Landers (Tara Westwood), que, depois de um breve susto na entrada com o que aparentam ser os fantasmas originais (Toshio e Kayako), retorna à América, sem imaginar que está levando-os consigo. Na sequência, é apresentada à personagem da detetive Muldoon (Andrea Riseborough), que se torna a nova parceira de Goodman (Demián Bichir), na investigação de uma estranha morte envolvendo um veículo abandonado na mata.

Ao saber que o ocorrido pode ter relação com os Landers, a detetive vai à casa, somente para encontrar no local Faith Matheson (Lin Shaye), pedindo para ser alimentada, com os dedos cortados, tendo um cadáver na poltrona da casa. Na sequência, é visto o agente imobiliário Peter Spencer (John Cho), que, em vias de entregar a casa para os Matheson, encontra na entrada a pequena Melinda (Zoe Fish), e seu nariz sangrento. Por fim, ainda há o declínio psicológico do detetive Wilson (William Sadler), obcecado pela casa e pelo mal que o anda acompanhando.

Entre idas e vindas do enredo, numa tentativa de emular a teia de horror proposta no original, esses personagens passam a ter contatos com os fantasmas dos Landers – e não de Kayako e Toshio, já evidenciando a intenção do longa de realmente reiniciar a franquia -, em situações apresentadas nos trailers, inclusive na cópia/homenagem a algumas cenas como a dos dedos na cabeça ou a assombração da banheira. Sustos rápidos, sem que o espectador encontre tempo para entendê-los, o filme, por vezes, deixa de lado o horror para explorar dramas pessoais. Tal personagem está grávida de um filho que nascerá com problemas, outra perdeu o marido de maneira trágica, há a que sofre de distúrbios… Não sei se era essa a intenção dos realizadores, de mostrar que a entidade somente assombra pessoas psicologicamente frágeis, porém resulta num melodrama arrastado e pouco inventivo.

Também são bem mal digeridos os efeitos especiais, na participação acelerada de assombrações digitais que repetem o som emitido por Kayako, mas sem o andar quebradiço. A solução encontrada também se inspira nos acontecimentos do original, mas em um resultado bastante inferior. Em meio a poucos gritos e a ausência de cenas passíveis de causar desconforto, resta um elenco que se esforça para trazer boas interpretações. Destaques para John Cho, Lin Shaye, William Sadler e até Jacki Weaver, com sua voz que me faz pensar porque não a usaram como Tangina, no remake de Poltergeist.

Sem razão de existir ou de iniciar uma nova franquia – espera-se que não -, O Grito traz uma grande preocupação em relação ao horror em 2020. Parece que filmes com enredos tradicionais já não empolgam como outrora e tornam-se necessárias apresentar novas ideias, explorando apenas a sensação perturbadora da presença do maligno, para não correr o risco do gênero perder força para outros estilos.

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Marcelo Milici

Marcelo Milici

Fundou o Boca do Inferno em 2001. Formado em Letras, fez sua monografia sobre o Horror Gótico na Literatura. É autor do livro "Medo de Palhaço", além de ter participado de várias antologias de horror!

2 comentários em “O Grito (2020)

  • 27/02/2020 em 10:55
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    Taí uma crítica que discordo quase que totalmente. Com exceção dos efeitos visuais nos fantasmas, que realmente ficaram abaixo do esperado, achei o filme muito bom. As atuações, os dramas, as histórias dos personagens que fazia com que nos importássemos com eles, a homenagem à Kayako no início e a ampliação da maldição ju-on me deixaram bem satisfeito quando saí do cinema.

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  • 27/02/2020 em 08:43
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    Ainda não assisti , mas pela nostalgia fico ansioso para dar uma chance ao filme. Estou indo com a menor das menores expectativas , mas como disse, vale pela nostalgia.
    O diretor esperava arrecadação de 30 milhões , como quase chegou a 50 creio que teremos uma continuação por ai

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