Vozes e Vultos (2021)

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Vozes e Vultos
Original:Things Heard & Seen
Ano:2021•País:EUA
Direção:Shari Springer Berman,Robert Pulcini
Roteiro:Shari Springer Berman,Robert Pulcini
Produção:Stefanie Azpiazu, Shari Springer Berman,Timothy Bird,Anthony Bregman,Julie Cohen,Peter Cron,Stephen Lippross,Peter Pastorelli,Robert Pulcini
Elenco:James Norton,Ana Sophia Heger,Amanda Seyfried,Charlotte Maier,Kristin Griffith,Natalia Dyer.

A fim de aproveitar uma oportunidade profissional e lecionar arte em uma renomada universidade, George Claire é obrigado a deixar Nova Iorque e mudar-se com a esposa Catherine e a pequena Frannie para o interior do estado, no Vale Hudson. Ao contrário do que se poderia esperar, a população do vilarejo é cordial e acolhedora com a família Claire. Mas causa algum espanto a Georgie que quase todos os moradores do local (incluindo até mesmo os acadêmicos) sigam uma doutrina espiritualista que acredita em vida após a morte – crença que entra em conflito com o seu ceticismo religioso. Enquanto isso, pequenos eventos sem explicação e supostamente sobrenaturais levam Catherine a desconfiar que um destino obscuro e sombrio está se aproximando.

Dirigido pelo casal Robert Pulcini e sua esposa Shari Springer Berman (do ótimo Anti-Herói Americano, comédia dramática de 2003 com o Paul Giamatti), Vozes e Vultos (Things Heard & Seen) é uma adaptação do aclamado romance de Elizabeth Brundange, “All Things Cease to Appear”. O livro, que foi publicado em solo americano pela primeira vez em 2016 (e continua inédito por aqui), teria sido inspirado em alguns eventos reais experimentados pela autora em um período em que viveu no interior, onde suas filhas frequentemente relatavam ver presenças fantasmagóricas nos corredores escuros da casa antiga onde moravam. A suposta história real seria até mais assustadora que a ficção, envolvendo três fantasmas de crianças que teriam morrido em um incêndio na casa. Na opinião deste autor que vos fala, há uma grande chance de ser puro marketing.

O longa, que foi distribuído pela Netflix em 2021, teve suas filmagens ao longo de 34 dias no outono de 2019 e traz como protagonista Amanda Seyfried, em seu primeiro papel após a indicação ao Oscar de 2021 (Melhor Atriz Coadjuvante, por Mank, produção da plataforma lançada em 2020). O marido é vivido por James Norton (Além da Morte, 2017) e completam o elenco principal Natalia Dyer (de Stranger Things, 2016) e Alex Neustaedter.

A maior problemática de Vozes e Vultos não é a qualidade técnica em si: ainda que o custo total da produção não tenha sido oficialmente divulgado, nota-se que o acabamento audiovisual é digno dos principais lançamentos de Hollywood. Mas, infelizmente, apenas este pacote de características positivas (elenco bem escolhido, a fotografia caprichada e a montagem bem realizada) não garantiu êxito ao filme, que penou nas mãos da crítica especializada e foi recebido de maneira indiferente pelo público da plataforma – ainda que o nome de Amanda Seyfried deva continuar atraindo ocasionalmente a audiência mais incauta.

O ritmo lento e cadenciado do longa poderia ser melhor aproveitado para desenvolver os personagens ou a própria trama, que trafega sempre na superfície, sem se aprofundar no drama ou no horror sugerido. Há uma dedicação maior do enredo ao marido Georgie, que se revela detestável por diferentes razões; mas o mesmo não ocorre com Catherine, que é representada como um estereótipo (da esposa que sofre abuso psicológico) tão pobre e com tão pouca personalidade que soa próximo do ofensivo. Esta tratativa impede que o espectador crie uma conexão e partilhe qualquer sentimento maior com a protagonista. Em consequência, o destino cruel traçado para Catherine pouco nos impacta.

Reforçando, outro incômodo (talvez a maior falha de Vozes e Vultos) é a indecisão não apenas no roteiro, mas em toda a estética e dinâmica da produção, que não escolhe entre o drama com toques de terror sobrenatural ou o terror com alguma carga dramática.

Encarando a obra como um terror, a primeira confusão que facilmente identificamos é a construção (se é que há alguma) do suspense e do sobrenatural, que é quase amadora. As aparições não passam de clichês do gênero casa assombrada em uma ambientação pouco adequada (sequências muito claras sob uma trilha sonora que nada acrescenta). As cenas mais violentas – sim, elas existem – poderiam até render alguns momentos Jack Torrance e causar algum estranhamento diante do desenrolar “bucólico” da trama, ou mesmo levar a algum clímax, mas são em off-screen ou praticamente “estéreis”, sem tensão ou sangue.

Mas é preciso considerar também que há certa ousadia no subtexto praticamente religioso que permeia todo o enredo de Vozes e Vultos. A ideia de um mundo que é uma contra-parte espiritual do nosso é inspirada pelas crenças do artista George Inness (1825-1894) e pelos conceitos do cientista e filósofo sueco Emanuel Swedenborg (1688-1772). A explicação desta teoria espírita é repetida algumas vezes e embasa o estranho e apoteótico desfecho do vilão, que é literalmente engolido pelo inferno (em alto-mar, George e seu pequeno barco são engolidos por um redemoinho sobrenatural), em uma imagem idêntica à uma tela pintada por Innes.

A relação entre filme e arte continua com o simbolismo e as referências à principal obra do pintor inglês Thomas Cole (1801-1848), artista preferido de Georgie Claire. The Voyage of Life é uma série de 4 pinturas criadas por Cole representando uma alegoria aos quatro estágios da vida humana: infância, juventude, maturidade e velhice. As pinturas mostram um viajante em um barco por um rio que representa a vida. A paisagem ao fundo de cada obra retrata uma das quatro estações do ano, assim como o filme é “dividido” pelas estações do ano, iniciando na “primavera anterior” e finalizando no “inverno de 1980”. Aliás, apesar da trama se passar na década de 80, este cenário não é explorado e passa quase despercebido.

O roteiro também aborda um tema bem mais pesado e complexo (e lamentavelmente, muito presente no mundo não-ficcional): o relacionamento abusivo entre o marido opressor e a esposa manipulada que evolui fatalmente para o feminicídio. É uma temática triste que traz à tona o terror que está no real e não em um mundo imaginário ou sobrenatural.

Por fim, Vozes e Vultos aposta sem sucesso em gêneros diferentes (não funcionando muito bem como filme de horror, possivelmente nem como drama) e aborda outra quantidade de assuntos até interessantes, porém sem desenvolver qualquer um deles de maneira satisfatória. Mas como sempre, cabe ao leitor acertar as expectativas e porventura também arriscar 121 minutos e compor sua opinião, sendo ela positiva ou não.

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João Pires Neto

Apenas mais um rapaz latino americano vindo do interior. Ateu não praticante, vegetariano, viciado em Literatura, Rock and Roll e Cinema. Antifascista, antiespecista, feminista e pai de uma menina linda, de 3 cachorros e 1 gata preta. Formado em Letras e Literatura. Colaborador desde 2005.

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