Demons 2 – Eles Voltaram (1986)

4.8
(10)

Demons 2 - Eles Voltaram
Original:Dèmoni 2... l'incubo ritorna
Ano:1986•País:Itália
Direção:Lamberto Bava
Roteiro:Dario Argento, Lamberto Bava, Franco Ferrini, Dardano Sacchetti
Produção:Dario Argento
Elenco:David Edwin Knight, Nancy Brilli, Coralina Cataldi-Tassoni, Bobby Rhodes, Asia Argento, Virginia Bryant, Anita Bartolucci, Antonio Cantafora, Luisa Passega, Davide Marotta, Marco Vivio, Michele Mirabella, Lorenzo Gioielli, Lino Salemme

A filmografia inicial de Lamberto Bava é marcada por um vermelho intenso. Auxiliou seu pai, Mario Bava, na direção de Schock, para depois assumir o protagonismo de obras genuínas de violência e splatter como Macabro (1980), Uma Lâmina no Escuro (1983) e principalmente Demons – Filhos das Trevas (1985). Neste já se notava uma tendência ainda mais ousada ao conceber zumbis-demônios, criaturas horrendas que transformam o sossego de uma plateia de cinema em um espetáculo de vísceras, desmembramentos e sangue em profusão. Mesmo que ainda falho tecnicamente, o roteiro, desenvolvido por Dario Argento, Dardano Sacchetti, Franco Ferrini e ele próprio, perde-se em sua narrativa pelo acréscimo de sequências sem sentido – as alternâncias com os jovens drogados que demoram a chegar ao local são completamente desnecessárias, assim como a queda de um helicóptero, numa típica conveniência do enredo. Ainda assim o longa se tornou uma das melhores obras italianas dos anos 80.

Com o sucesso comercial, uma sequência tornou-se necessária. Bava se reuniu mais uma vez com Dario Argento, Sacchetti e Ferrini para desenvolver o roteiro, e logo iniciar a pré-produção. Sete meses depois, com locações em Hamburgo e nos estúdios De Paolis In.Ci, Demons 2 começou a ser filmado. Com as visitas rotineiras de Argento aos sets de filmagem e a inclusão de sua filha, Asia, em uma pontinha, houve boatos de que boa parte do filme não havia sido comandado por Bava – lembra da história que envolve Spielberg, Hooper e Poltergeist? -, até mesmo porque é notada uma diferença técnica nas tomadas, com o filme tendo mais acertos em posicionamentos de câmera do que o anterior. Argento declarou por diversas vezes que simplesmente acompanhou o processo de realização, sem interferir nas decisões do diretor.

Demons 2 (1986)

Demons 2 se saiu bem nas bilheterias pelo mundo, conquistando pouco menos no box office que o anterior. Enquanto o primeiro filme teve mais público na Itália do que os filmes Olhos de Gato e A Hora do Lobisomem, inspirados em Stephen King, além do clássico A Hora do Pesadelo, a continuação não teve o mesmo apoio da crítica especializada, nem foi listada entre os longas mais assustadores de todos os tempos, porém incentivou discussões sobre uma parte 3. Rascunhos foram escritos, sendo que um envolvia um avião em queda numa ilha com vulcão e demônios, porém não teve o mesmo apoio dos realizadores, nem mesmo de Bava, e o que viria como provável associação à franquia seria o terror A Catedral, dirigido por Michele Soavi, que, curiosamente, teve uma participação em Demons, como o homem que distribui os convites de cinema à protagonista.

Mantendo a atmosfera claustrofóbica e a influência do “filme dentro do filme“, Demons 2 se passa em um edifício, onde várias situações distintas acontecem, enquanto muitos dos moradores acompanham pela TV um filme de terror sobre um demônio descoberto em uma cidade abandonada após uma invasão das criaturas – seria o filme exibido uma continuação de Demons? Uma das jovens se corta, permitindo que seu sangue escorra à boca do demônio morto, fazendo-o se reconstituir. Na “vida real“, Sally (Coralina Cataldi-Tassoni, de Terror na Ópera e O Retorno da Maldição: A Mãe das Lágrimas, ambos de Argento) está comemorando seu aniversário com os amigos. Quando um deles atende a uma ligação de seu ex, Jacob (Bruno Bilotta), e o convida a vir à festa, a garota se irrita e busca um isolamento em seu quarto, assistindo ao tal filme de terror.

Outras pessoas se destacam, como a grávida Hannah (Nancy Brilli), que sente desejo de um pedaço de bolo e pede a seu marido, George (David Edwin Knight), que vá comprar; um grupo de fisiculturistas na academia do prédio, treinados pelo personal Hank (Bobby Rhodes, que esteve nos cinemas em Demons e assumiu uma postura parecida quando os ataques começaram); as crianças Ingrid (Asia Argento em seu primeiro papel) e Tommy (Marco Vivio, com uma ponta em Uma Lâmina no Escuro); uma mulher solitária (Anita Bartolucci) com seu cachorro; além do segurança (Lino Salemme, o motorista dos jovens drogados de Demons).

O pesadelo começa quando o demônio do filme sai da tela de TV e ataca Sally, em um efeito Videodrome. Possuída, como uma criatura sanguinária, ela então traz o horror para os convidados, espalhando a doença demoníaca em todos os presentes, ainda mais quando seu sangue corrosivo atravessa os andares. George fica preso no elevador com a prostituta Mary (Virginia Bryant, de Terror Não Tira Férias, também conhecido como Demons 3), enquanto o garoto Tommy, substituído por um anão (!), ataca sua esposa e ainda libera um monstrinho de suas costas. A dona do cachorro é atacada pelo próprio, também possuído; e os homens da academia fogem para o estacionamento para fazer barricadas e buscar armas. Como não se divertir com um filme como esse?

Com uma direção mais consciente, Bava sabe exatamente para onde apontar suas câmeras, nos melhores ângulos e sequências. Como acontecia no primeiro, novamente o filme tem alternância de narrativa com o veículo de Jacob e seus amigos rumando para o prédio, com o convidado aguardando-o, resultando em uma quebra de ritmo que não contribui para a narrativa. George assume a responsabilidade de herói, rasgando as mangas para mostrar os braços fortes e tendo atitudes ousadas, como a de subir pelos cabos do elevador e depois arrumar um meio de descer pela lateral do prédio; ele é o equivalente ao xará George (Urbano Barberini) do primeiro filme, que utilizara a moto e até as hélices do helicóptero para destruir os demônios.

Contudo, diferente do primeiro filme, com um teor mais apocalíptico e pessimista, Demons 2 encerra seu festival de horror de maneira burocrática. Não perde muitos pontos porque não economiza no show de horror apresentado, que inclui corpos destroçados e altas doses de sangue em quase todas as cenas da produção, ainda que encerre qualquer perspectiva de um novo filme. Bava poderia ter até ousado se estabelecesse uma conexão entre o primeiro e o segundo filme, com um helicóptero deixado no topo do prédio, para posteriormente dar a ideia que seria o veículo derrubado sobre o cinema. Seria uma ideia interessante e que encerraria de maneira satisfatória a franquia. E poderia ter dado um destino insano também ao filho de Hannah, talvez transformando-o em alguma aberração, algo que depois seria realizado sem pudor em Madrugada dos Mortos.

Demons 2 é tão bom e divertido quanto o primeiro. Ainda que não seja inovador e tenha suas doses de clichês e obviedades, o filme foi feito com seriedade e respeito aos fãs de horror, imaginando um inferno zumbi com criaturas demoníacas, sem esquecer o tom claustrofóbico de um prédio com boa resistência em suas janelas. Tal qual o anterior, possui uma ótima trilha sonora, resgatando grandes canções de rock dos anos 70 e 80, combinando com a orquestra de pesadelos apresentada. Mesmo depois de mais de trinta anos, continua valendo a pena como uma sequência digna e um dos melhores trabalhos de Lamberto Bava.

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Marcelo Milici

Professor e crítico de cinema há vinte anos, fundou o site Boca do Inferno, uma das principais referências do gênero fantástico no Brasil. Foi colunista do site Omelete, articulista da revista Amazing e jurado dos festivais Cinefantasy, Espantomania, SP Terror e do sarau da Casa das Rosas. Possui publicações em diversas antologias como “Terra Morta”, Arquivos do Mal”, “Galáxias Ocultas”, “A Hora Morta” e “Insanidade”, além de composições poéticas no livro “A Sociedade dos Poetas Vivos”. É um dos autores da enciclopédia “Medo de Palhaço”, lançado pela editora Évora.

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