O Alerta Vermelho da Loucura (1970)

4.2
(6)

O Alerta Vermelho da Loucura
Original:Il rosso segno della follia
Ano:1970•País:Espanha, Itália, França
Direção:Mario Bava
Roteiro:Mario Bava, Santiago Moncada, Laura Betti, Mario Musy Glori
Produção:Manuel Caño, Giuseppe Zaccariello
Elenco:Stephen Forsyth, Dagmar Lassander, Laura Betti, Jesús Puente, Femi Benussi, Antonia Mas, Luciano Pigozzi, Gérard Tichy, Pasquale Fortunato

Jovens mulheres vestidas para casar e… morrer? A premissa da obra O Alerta Vermelho da Loucura (1970), do mestre Mario Bava, apesar de não ser muito lembrada, chama a atenção pela temática e ousa na narrativa que incorpora espiritualismo e assassinato, além de trazer elementos já conhecidos dos giallo (gênero italiano de suspense e mistério policial, apontado como um dos precursores do subgênero do terror slasher). Visualmente instigante, o filme adentra a mente de um criminoso para conhecer seus traumas e suas motivações.

Assim, o espectador acompanha a narrativa da perspectiva do personagem principal, John Harrington, que é dono de um ateliê de vestuário para noivas. Ele é casado com a desagradável Mildred Harrington, uma mulher que se recusa a aceitar o divórcio e faz questão de lembrar constantemente que viverá para sempre ao seu lado. O empresário, por sua vez, esconde um segredo obscuro: ele é um serial killer que persegue e vitima mulheres que acabaram de se casar, ainda vestidas de noiva.

A partir daí, o público embarca em uma jornada de descobertas sobre o seu passado e é envolvido no mistério do personagem, que deseja resolver um trauma de infância  e descobrir quem matou a sua mãe.

Em termos gerais, de nada vale muito estilo e pouco conteúdo quando o assunto é cinema. Aqui, conseguimos identificar traços marcantes do cineasta – que também é o diretor de fotografia da obra – como a câmera “hitchcockiana”, que usa e abusa de ângulos e perspectivas que causam aflição; a manipulação da luz, que é usada no rosto com foco nos olhos dos personagens; o destaque para o vermelho em cena e para as transições que chamam a atenção e possuem função narrativa. Além disso, a genialidade de Mario Bava está presente até nas roupas do assassino: quando ele está em ação, as peças usadas sempre possuem correntes na estampa, representando a sensação de ser um prisioneiro dentro da sua própria cabeça e de seu trauma.

Por outro lado, a história contada envolve as principais convenções de gênero, como a preferência por vítimas mulheres, que geralmente são jovens e belas, e a erotização dessas personagens; a presença de um investigador que persegue o assassino (aqui é o inspetor Russell, personagem que não tem um papel central na trama); e a construção de um clímax na história que culmina com um plot twist agridoce.

Já o recurso mais inusitado utilizado por Bava, quando o espectador menos esperava, é o espiritismo, que é introduzido na narrativa de uma forma abrupta e sem muita organicidade com o que era apresentado até o momento. A ideia de termos um assassino atormentado não somente pelos seus pensamentos e ações, mas também por ser assombrado pelo fantasma de uma de suas vítimas, precisava ser melhor desenvolvido na trama para ser plenamente aproveitado. Neste sentido, o elemento sobrenatural é utilizado aqui de forma superficial e evoca uma estética marcada (que tem os seus méritos e rende cenas assustadoras), mas tem pouco a dizer para a história.

Além do esoterismo sem propósito, a autoconsciência excessiva do personagem principal é um problema para o filme. As análises que o personagem do assassino faz sobre a sua psique não são tão profundas quanto pretendem ser (apesar de render boas frases de efeito sobre a vida) e não parecem ser muito orgânicas. Mesmo que, ao final do filme, a resolução do mistério envolvendo a sua motivação para matar seja satisfatória, o espectador não tem a sensação de que foi totalmente enganado justamente pelo percurso narrativo que o personagem constrói sobre si mesmo.

Tudo isso nos faz pensar: afinal, qual é a fixação de Mario Bava com as noivas e os casamentos nesta obra? Claramente a resposta mais assertiva é freudiana. Em uma trama onde as mulheres são estereotipadas: ou elas são megeras, ou são virginais, ou são interesseiras, percebe-se que a distorção da realidade que o assassino faz está completamente ligada à figura feminina, que lhe causou a dor originária – no momento da morte da mãe. Por outro lado, o matrimônio e as sequências de assassinatos representam para ele a repetição da morte de sua genitora – quem ele desejava ter como um noivo tem a sua noiva – a perpetuação do seu trauma e o seu destino final.

Dizer que Bava trabalhou o trauma de um personagem melhor do que ninguém é exagero, mas é inegável a contribuição desta obra, com um estilo que é copiado até hoje, para o cinema de horror. Por trás de toda pompa e um belíssimo estilo cinematográfico, podemos destacar uma narrativa envolvente, que coloca medo e causa ansiedade no público, mesmo com todos os defeitos. No final das contas, o filme “poderia ser tão bom, embora eu saiba que não poderia ser” (John Harrington), mas nos deixa marcas, assim como o trauma do personagem principal.

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Cecília Ribeiro Miliorelli

É jornalista de formação e mestranda em Comunicação e Territorialidades pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Gosta de tomar uns sustos nas horas vagas e compartilhar a experiência com o máximo de pessoas possível. Narrativas envolventes que despertam as sensações mais profundamente obscuras são a sua paixão.

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