Godzilla e Kong: O Novo Império (2024)

4.6
(9)

Godzilla e Kong: O Novo Império
Original:Godzilla x Kong: The New Empire
Ano:2024•País:EUA, Austrália
Direção: Adam Wingard
Roteiro: Adam Wingard, Terry Rossio, Simon Barrett, Jeremy Slater
Produção:Alex Garcia, Eric McLeod, Mary Parent, Brian Rogers, Thomas Tull
Elenco:Rebecca Hall, Brian Tyree Henry, Dan Stevens, Kaylee Hottle, Alex Ferns, Fala Chen, Rachel House, Ron Smyck, Chantelle Jamieson, Greg Hatton, Kevin Copeland, Tess Dobré, Tim Carroll

O tema norteador de Godzilla e Kong: O Novo Império (Godzilla x Kong: The New Empire, 2024) curiosamente é uma crítica à própria proposta: a sensação de deslocamento. Parece uma produção fora de lugar, assim como dois de seus personagens de destaque: Kong, por não se ver em casa na “terra oca” pela dificuldade de encontrar semelhantes; e a pequena Jia (Kaylee Hottle), que aparenta estar perdida na escola da Monarch, sem saber seu papel ali. O longa de Adam Wingard trafega na mesma direção, buscando espaço mas se perdendo dentro do que fora desenvolvido na franquia. Para quem acompanhou o MonsterVerse da Legendary, analisando produções desde Godzilla, de 2014, fica a imagem de uma fanfic tresloucada, faltando incluir Roger Rabbit para a cilada ser completa.

Ambientado três anos depois dos acontecimentos de Godzilla Vs Kong, quando o macaco gigante finalmente alcançou uma outra dimensão no interior do Planeta Terra e enfrentou tanto Godzilla quanto o improvável Mechagodzilla, o filme mostra em sua abertura Kong enfrentando criaturas da Terra Oca e tendo problemas de solidão e dor de dente, sendo monitorado por postos de vigília da Monarch. Enquanto isso, Godzilla é visto mantendo a ordem entre os titãs, descansando no Coliseu até que outra ameaça o desperte.

Jia até se esforça para estudar na escola da Monarch, mas é vista com olhar perdido, desenhando em pesadelos um sinal que leva sua mãe adotiva, Dra. Ilene Andrews (Rebecca Hall) a buscar ajuda do podcaster Bernie Hayes (Brian Tyree Henry). Aí já se mostra o tom das improbabilidades, pois a doutora, mesmo tendo uma equipe a seu dispor, procura alguém que inventa conspirações a seu público para ajudá-la a decifrar a mensagem recebida pela filha. Ora, por que não foi atrás de especialistas da Terra Oca, ou pessoas capazes de fazer uma conexão entre um gráfico e uma imagem? Trata-se de uma desculpa boba para incluir um personagem engraçadinho na trama.

E os absurdos não param por aí: Kong, com dores de dente, vem à superfície, agitando o sono de Godzilla, e pedem a ajuda de um “veterinário” da Monarch, Titan Trapper (Dan Stevens), que utiliza mecanismos para sedar o macaco gigante, extrair o dente, e convencionalmente colocar outro de metal, já nas medidas adequadas para a substituição, feita naturalmente como uma ação habitué (!!!) – uma sequência de apresentação de um personagem das mais terríveis que a franquia poderia proporcionar.

O tal pedido de socorro conduz a doutora a uma expedição com Trapper, Bernie e Jia para tentar identificar a origem do sinal, encontrando um posto avançado destruído, deixando a entender a presença de algo maior e mais perigoso ali. Assim, a narrativa segue três caminhos distintos, chocando-se no ato final: Godzilla viaja pelo mundo absorvendo energia nuclear, incluindo uma passagem pelo covil do Tiamat no Ártico, dando indícios de que se prepara para uma grande ameaça; Kong encontra um “mini-kong” e uma tribo de macacos que temem o líder Skar King, por ter domesticado um titã; e a exploração dos humanos, encontrando vestígios dos Iwi, ao qual pertence Jia, e que está clamando por ajuda.

Essa salada de plots prepara o terreno para o confronto final, com direito a passagem pelo Rio de Janeiro, com trilha nacional, para fazer a alegria dos brasileiros. Godzilla e Kong: O Novo Império serve como um curioso fanservice, abrindo espaço para um novo round entre os populares monstros do cinema, o retorno de Mothra, com Jia servindo de intermédio para convencê-la a ajudar Kong e Godzilla contra os gigantes do Planeta dos Macacos. Consegue imaginar tudo isso no roteiro desequilibrado de Terry Rossio, Simon Barrett e Jeremy Slater, contando com o apoio de argumento de Adam Wingard?

São tantas coisas acontecendo, sob doses cavalares de efeitos digitais vergonhosos em comparação a Godzilla Minus One, que resta ao espectador apenas se deixar levar por cristais de domínio, planta carnívora, pássaros gigantes, uma armadura de braço para o Kong e outros absurdos que colocam os humanos e Godzilla como coadjuvantes. O filme esquece a linha narrativa da série Monarch, seus personagens e controle sobre monstros, assim como o próprio veículo de locomoção à Terra Oca, para criar uma aventura fantasiosa, em que o lento Godzilla adquiriu a habilidade de correr.

Godzilla e Kong: O Novo Império cria complexidades em seu universo de criaturas gigantes. Não precisava de tanto barulho, cores e personagens, sendo que os melhores exemplares da longa franquia foram produções mais simples, tendo como maiores acertos os três primeiros. E pela boa arrecadação do novo filme, o MonsterVerse da Legendary ainda deve produzir mais longas, ampliando sua mitologia envolvendo Terra Oca e monstros. Resta saber se os próximos também se mostrarão tão deslocados quanto O Novo Império.

O que você achou disso?

Clique nas estrelas

Média da classificação 4.6 / 5. Número de votos: 9

Nenhum voto até agora! Seja o primeiro a avaliar este post.

Avatar photo

Marcelo Milici

Professor e crítico de cinema há vinte anos, fundou o site Boca do Inferno, uma das principais referências do gênero fantástico no Brasil. Foi colunista do site Omelete, articulista da revista Amazing e jurado dos festivais Cinefantasy, Espantomania, SP Terror e do sarau da Casa das Rosas. Possui publicações em diversas antologias como “Terra Morta”, Arquivos do Mal”, “Galáxias Ocultas”, “A Hora Morta” e “Insanidade”, além de composições poéticas no livro “A Sociedade dos Poetas Vivos”. É um dos autores da enciclopédia “Medo de Palhaço”, lançado pela editora Évora.

One thought on “Godzilla e Kong: O Novo Império (2024)

  • 08/04/2024 em 14:49
    Permalink

    Eu vendo o trailer dessa produção, eu me pergunto se existem personagens humanos pelo menos por 30 minutos de filme. Porque só vi efeitos digitais e mais nada, eu hein!!!

    Resposta

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *