![]() Undertone
Original:Undertone
Ano:2025•País:Canadá Direção:Ian Tuason Roteiro:Ian Tuason Produção:Cody Calahan, Dan Slater Elenco:Nina Kiri, Adam DiMarco, Michèle Duquet, Keana Lyn Bastidas, Jeff Yung, Ryan Turner, Ari Millen, Marisol D'Andrea, Seled Calderon, Bianca Nugara, Jayda Woods, Sarah Beaudin |
Existe um tipo específico de fracasso cinematográfico que é quase fascinante: o filme que entende tudo o que precisa fazer e não faz nada. Undertone (2026), estreia do canadense Ian Tuason, sabe que o áudio pode ser um poderoso veículo de terror. Ele sabe também que a sugestão vale mais que a explicação. Sabe que o slow-burn exige construção. E, munido de todo esse saber, entrega um filme que faz o oposto de tudo que sabe. É quase um feito.
Não costumo mais assistir a trailers antes de ver um filme. Prefiro chegar às obras sem mapas, sem o corte de marketing que já decidiu quais cenas vão me impressionar. Com Undertone, essa prática me pregou uma peça de ironia perfeita: o trailer entregava a bomba. Qualquer pessoa que tivesse assistido a dois minutos do material promocional teria chegado ao cinema com expectativas devidamente calibradas. Eu cheguei sem aviso. Fica o aprendizado.
A premissa, no papel, até funciona. Evy (Nina Kiri) é uma jovem podcaster que divide com o amigo Justin (Adam DiMarco, presente apenas como voz nas chamadas para gravações) o programa The Undertone, dedicado a relatos sobrenaturais. Ela é a cética; ele, o crente. Ao mesmo tempo em que cuida da mãe em coma, Justin recebe dez arquivos de áudio gravados por um casal que registrou sons inexplicáveis na própria casa. O episódio do podcast consistirá em ouvi-los um a um, tentando decifrar o que escondem. O terror se construirá no espaço entre o que é ouvido e o que é imaginado. Já vimos isso funcionar com elegância em excelentes filmes como Culpa (2018), A Vastidão da Noite (2019), na minissérie Calls (2021) ou no mais recente Hallow Road (2025). Undertone parece até conhecer esses antecessores. Sente-se uma espécie de dívida na concepção. O que o filme não consegue é honrar essa herança com o mínimo de competência técnica, e é aqui que o desastre se instala, porque um filme que escolhe o áudio como espinha dorsal não tem onde se esconder quando o áudio falha.
E o áudio falha de forma colossal, o que, convenhamos, é uma conquista e tanto para um filme sobre áudio. A falha não é de orçamento: é de concepção, de uma incompreensão fundamental sobre como o som opera no terror. Há uma cena que funciona como cartão de visitas dessa confusão: Evy ouve algo nos fones com cancelamento de ruído ativo, o som vai diminuindo progressivamente e, antes que qualquer espectador consiga imaginar para onde aquela quietude vai, a trilha entra com um acorde de susto. O volume não caiu porque a gravação mudou de dinâmica. Caiu para dar espaço ao jump scare. É o design sonoro sabotando a si mesmo com uma dedicação quase comovente.
Esses dez arquivos de áudio, aliás, são o problema mais sintomático. A estrutura do filme os apresenta como espinha de tensão crescente, análoga, na intenção, aos intertítulos do primeiro Atividade Paranormal (2007) que marcavam as noites em sequência. Naquele filme, o simples aparecimento do número da noite na tela já instalava angústia: o play mal tinha sido apertado e já havia medo. Em Undertone, os arquivos soam falsos desde os primeiros instantes. A artificialidade das gravações rompe o pacto de verossimilhança que é a condição básica para o terror de sugestão funcionar. É difícil ter medo do que não se acredita.
O formato do filme agrava tudo isso. Undertone começa mostrando os bastidores da produção do podcast, o que funciona: há autenticidade na dinâmica entre os dois apresentadores, uma credibilidade de quem realmente faz esse tipo de conteúdo. O problema é o que vem depois, quando o filme esquece qual é a sua própria proposta. Ora acompanhamos Evy como se estivéssemos dentro do episódio gravado, com imagens que simulam a interface de um podcast ao vivo, ora o episódio é cortado para que possamos seguir a protagonista perambulando pela casa sem ir a lugar nenhum, ora voltamos aos arquivos, que chegam em intervalos tão espaçados que qualquer clima acumulado evapora entre um e outro. O resultado é um filme que não sabe em qual janela está, e que a cada troca de modo narrativo reinicia a tensão do zero, numa tensão que, bem, nunca chegou a arrancar.
O roteiro ainda tenta construir um paralelo entre Evy e o casal das gravações: ambos vivem em casas com barulhos inexplicáveis, a mãe em coma ecoa a mulher das fitas, a maldição que passa de mídia em mídia remete diretamente a O Chamado (2002). A ideia tem potencial. Poderia funcionar como espelho de culpa e perda. Poderia. Mas o roteiro não desenvolve nenhum desses fios com profundidade suficiente: são paralelos previsíveis que chegam sem peso, e a mãe em coma existe mais como dado de backstory do que como pressão emocional real. Somado a isso, o acúmulo de subgêneros jogados na mesma panela, com possessão demoníaca, maldição transmissível, lendas urbanas com canções de ninar, faz com que o filme não consiga se firmar em nenhum deles. Um slow-burn precisa decidir do que quer que a gente tenha medo. Undertone não decide, e o resultado é um fogo que nunca queima (perdão pelo trocadilho barato).
Nina Kiri e Adam DiMarco funcionam bem quando são podcasters: há naturalidade no ritmo, na forma como apresentam, improvisam, voltam atrás. O problema é que Kiri precisa carregar também o peso de uma mulher progressivamente desestabilizada pelo terror, e a atriz opera com o mesmo repertório expressivo do começo ao fim: mesmas expressões, mesmos maneirismos, mesma cadência de fala. O horror aqui deveria exigir que o rosto da protagonista funcionasse como termômetro para o espectador calibrar o quanto deve temer o que não vê. Kiri não consegue ser esse instrumento, e fica difícil não imaginar o que uma atriz de outras camadas faria com o papel. Uma Jenna Ortega, por exemplo, que sabe exatamente como transmitir terror sem sê-lo, uma espécie de sentir sem mostrar, se isso fizer sentido. Já Ian Tuason, que também assina o roteiro, parece ser aquele tipo de criador tão apaixonado pela própria visão que se torna impermeável à evidência de que a execução não a está sustentando. O filme que imaginou e o filme que realizou claramente não conversaram muito.
E se a coisa já não ia muito bem, no terceiro ato Undertone oficialmente desiste de si mesmo e decide ir às compras na prateleira dos genéricos. Depois de uma hora e meia apostando na premissa do terror sonoro, o filme resolve sua tensão com candelabros sacudindo, lâmpadas quebrando, desenhos de giz em paredes, estátuas fora do lugar e relógio parado. Você cita, o filme mostra. E os cortes secos para tela preta, usados com uma frequência tão industrial ao longo do filme todo que o espectador já consegue prever a chegada de cada um pela variação de ritmo que os antecede, chegam em enxurrada final. Um recurso de edição que deveria funcionar como pontuação inesperada virou vírgula previsível. Até os sustos dão sono.
O selo da A24 garantiu ao filme uma atenção que ele provavelmente não teria conquistado sozinho, e o prestígio do rótulo fez o resto. A ambição de Undertone existe e pode ser reconhecida. Mas ambição não é mérito suficiente quando o pilar central da obra trabalha sistematicamente contra ela. Para quem busca jump scares e consegue se contentar com eles, o filme entrega abaixo do suficiente. Para quem veio atrás do que Undertone prometia ser, um exercício de imersão sonora, de terror construído no espaço entre o que se ouve e o que se imagina (para esses, uma dica: voltem ao terceiro parágrafo dessa crítica, lá estão listados ótimos exemplos de como fazer isso de verdade), o filme é uma oportunidade perdida de forma tão retumbante que quase tem valor pedagógico. Como estudo de caso sobre como não usar o áudio no horror, é exemplar. Quase uma aula.
Bastava o trailer pra saber. Uma pena que não o assisti.






Se esse critico não gostou do filme, pode apostar que o filme é bom.